‘O propósito maior é perpetuar o negócio’

‘O propósito maior é perpetuar o negócio’

Executiva da Chocolat du Jour diz que o desafio da empresa é produzir um chocolate exclusivo

Claudio Marques

29 de janeiro de 2018 | 06h34

Patrícia Landmann trabalha desde os 23 anos na empresa da família, a Chocolat du Jour – Foto: Helvio Romero/Estadão

Bianca Soares / Especial para o Estado

Um chocolate recebido durante uma viagem de trabalho foi o pontapé inicial para a criação da Chocolat du Jour, há 32 anos. Claudia Landmann ficou surpresa com um bombom que seu marido trouxe do exterior e decidiu que faria algo de mesma qualidade.
A confecção artesanal começou de maneira despretensiosa, com distribuição apenas entre amigos e familiares. Ainda nos anos 1980, Cláudia foi à Bélgica para um curso intensivo de produção de chocolate. Na volta, começou a entregar suas primeiras encomendas.
Daí para a abertura da primeira loja, com oito funcionários, passaram-se alguns meses, conta Patrícia Landmann, de 39 anos, filha da fundadora. O investimento inicial veio das economias da família.
Quando Patrícia começou a trabalhar na empresa, aos 23 anos, o negócio já estava consolidado. E foi lá que ela construiu sua carreira profissional, como responsável pela área de marketing. A mãe se afastou da área burocrática para “colocar a mão na massa” ou no cacau, no caso.
Hoje, a Chocolat du Jour tem quatro lojas e 54 funcionários em São Paulo. A cadeia de produção é toda feita no País (no início, importava-se a matéria-prima) e chega a 30 mil quilos de chocolate por ano.
Segundo Patrícia, desde o início houve a preocupação com a sofisticação e o apelo artístico, para se consolidar como uma marca nacional de chocolates altamente refinada. “Nossa inspiração não vem apenas do chocolate, mas de arte no geral. Temos embalagens que são reproduções de quadros ou que retratam a produção de cacau.” A seguir, trechos da entrevista com Patrícia:
Cuidado. Nós temos muito claro que fazer chocolate é uma arte, acreditamos nessa beleza e no cuidado que não é só industrial, mas artístico mesmo. Claro que temos alta tecnologia para processar as amêndoas, por exemplo, mas cada lote é diferente, é dosado a partir do conceito pensado anteriormente.
Início. Minha mãe conta que um das maiores dificuldades foi conseguir importar matéria-prima de alta qualidade, o que para o modelo do nosso negócio era essencial. Como éramos muito pequenos, era difícil encontrar fornecedor com produto refinado para a quantidade que demandávamos. Encontrar mão de obra qualificada também não foi fácil, minha mãe treinou os próprios funcionários após o curso na Bélgica.
Desafio atual. Como a indústria no geral, sofremos bastante com a crise econômica. Mas começamos a pensar em alternativas. Porque nessas fases a pessoa não pode comprar um carro, mas pode se dar um mimo, como um chocolate fino, e para isso ela não precisa se dirigir a uma de nossas lojas. Então, investimos em comunicação, renovação do catálogo e do site, porque o e-commerce é importante (o comércio eletrônico representa 8% das vendas da empresa), não vai substituir a experiência que as unidades físicas oferecem, mas precisa ser alternativa possível ao cliente.
Concorrência. O mercado é bastante competitivo, atrai muitos aventureiros, então precisamos mostrar no que somos diferentes, por que nosso produto é exclusivo. Como chocolate também é uma opção de presente, de aniversário, de Natal, de Dia das Mães, acabamos concorrendo com outros setores, não só com esse que conhecemos e no qual estamos inseridos.
Mercado. Nós temos o desafio de produzir um chocolate exclusivo, como se faz lá fora, mas num ambiente interno, que é super controlado. Nós temos uma legislação diferente da Europa, onde o processo é mais fácil. Aqui, dos procedimentos da fábrica à rotulagem do produto, tudo é excessivamente controlado e caro.
Erros. Uma vez adquirimos um novo sistema interno de operação que simplesmente não se adequava às nossas necessidades. O antigo, sim. Mas precisávamos de algo novo. Como não escolhemos o serviço adequado, tivemos de abandoná-lo três meses depois. Isso representou um custo muito alto, mas também perda de tempo: para treinamento dos funcionários, para cadastramento de informações e produtos. Enfim, foi um erro que não se repetiu.
Negócio familiar. Antes de vir para cá, eu cheguei a trabalhar em uma agência de publicidade. Mas sempre achei um pouco frustrante, porque eu só podia ir até certo ponto. Não tinha acesso a resultados nem tinha controle de muitas coisas que eram assunto do cliente. E eu sentia falta disso. Poder controlar todas essas variáveis é algo que me dá uma satisfação enorme: opinar mais no produto, saber como ele repercutiu lá na frente… Enfim, partir do zero e construir algo totalmente novo e ver o resultado de perto. Por isso vim e não pretendo sair.
Para ser um empreendedor… É preciso ter muita vontade, determinação e eficiência. Uma coisa é o negócio dar certo, outra é manter esse sucesso. É um desafio porque a motivação já não é aquela do novo. A empolgação inicial tem que dar lugar a um propósito maior, que é o de perpetuar o que foi começado. E isso é muito difícil. Para mim, manter o negócio é mais difícil do que criá-lo.

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