Papelão é estrela na produção de móveis

Empresas ganham mercado criando objetos feitos com papel craft de alta gramatura e atraem público com perfil alternativo

CRIS OLIVETTE

25 Setembro 2016 | 07h35

Daniela Bueno e Marcello Cersosimo, da Crafta Inteligente

Daniela Bueno e Marcello Cersosimo, da Crafta Inteligente

Adeptos da sustentabilidade podem mobiliar suas casas e presentear crianças e amigos com a consciência tranquila, se a opção de compra for um objeto feito de papelão, material totalmente reciclável.

Entre as empresas que produzem mobiliário, objetos de decoração e brinquedos usando como matéria-prima o papelão está a Crafta Inteligente, fundada pelos amigos e sócios Daniela Bueno e Marcelo Cersosimo.

“Daniela trabalhava com moda. Visitando uma feira em Milão viu um estande de papelão. Na volta ao Brasil, me procurou dizendo que queria viver da produção de mobiliário feito com papelão. Começamos criando um banquinho, depois introduzimos uma cadeira, ficamos cerca de quatro anos apenas com essas peças”, conta o economista.

Hoje, a marca tem em seu portfólio 50 itens. “Atuamos em três frentes. Fazemos mobiliário, peças decorativas e produzimos forrações de paredes de vários tipos para atender o segmento de eventos”, diz Cersosimo.

Segundo o empresário, em breve também estarão oferecendo estandes de papelão. “Estamos terminando o desenvolvimento do produto. A ideia é que o próprio expositor possa montar, desmontar e guardar o estande para ser usado em outros eventos. Aliás, todas nossas peças são pensadas para que possam ser desmontadas, facilitando o armazenamento e o transporte.”

Para desenvolver os objetos a marca segue três pilares: é preciso ser ecologicamente correto, ter designer legal e ser funcional. O material utilizado é um tipo de papelão com composição específica para que os móveis sejam resistentes. “O papelão de alta gramatura já existia no mercado, mas era usado somente para embalar produtos muito pesados ou para exportação”, afirma.

Cersosimo diz que a partir de 2010, quando a marca começou a desenvolver outras peças, o faturamento passou a aumentar 50% ao ano. “Em 2016, por conta da crise, devemos manter o faturamento do ano passado.”

Perfil. Para conhecer melhor os clientes, os sócios fizeram um estudo e traçaram o perfil dos consumidores desses objetos. “O produto que oferecemos é novo, não existia no Brasil. Somos pioneiros na introdução desse conceito de consumo sustentável no mobiliário, voltado principalmente para pessoas que não têm apego às coisas materiais.”

Segundo ele, os clientes da Crafta são pessoas que querem algo que seja fácil de montar, desmontar e descartar, se for o caso.

“É um público na faixa etária de 25 a 35 anos, que enxerga o mundo de forma diferente das gerações mais velhas. É o pessoal que se vira melhor com transporte público, bicicleta e acha isso natural. Eles não estão preocupados em ter e sim em viver. É um público disruptivo que não quer se apegar a nada. Sentimos que essa postura é uma tendência que vem aumentando.”

O empresário diz que o custo das peças é um pouco maior do que as pessoas imaginam. “O nosso modelo mais caro custa R$ 250, mas temos peças até de R$ 50. No entanto, uma cadeira de designer custa cerca de R$ 1 mil.”

Segundo ele, o produto com maior volume de vendas é o banquinho, muito usado em eventos. Temos um modelo de R$ 19 e outro de R$ 13. Os revestimentos de parede também têm boa saída, porque os ambientes que os produtores de eventos querem cobrir são grandes.” A Crafta têm dois funcionários diretos na área administrativa. As demais atividades são terceirizadas.

Bruno Pellegatti

Bruno Pellegatti, dono da Cartone Design de Papelão

No mercado desde 2011, a Cartone Design de Papelão, fundada por Bruno Pellegatti oferece 40 itens, destes, 80% são de mobiliário. Os demais incluem cabides, lixeiras, baús etc.

O empresário conta que já trabalhava com cartonagem e em 2009 começou a desenvolver casinha para cachorro e um pequeno prédio para gatos. “Tive de encontrar formas para montar os objetos de papelão sem usar cola ou grampo. Essa experiência me fez ver o papelão com outros olhos”, afirma.

A ideia de criar a linha de móveis veio em seguida. “Comecei a desenhar e testar alguns produtos. Parti do zero criando o design e as soluções para resolver os problemas que surgiam.” Hoje, todos os produtos são desenhados, testados e fabricados pela Cartone, que possui fábrica própria e tem dez funcionários.

Pellegatti conta que o banquinho de R$ 19,90 é o produto mais vendido por ser o mais utilizado em eventos. “Na cerimônia de 7 de setembro, em Brasília, entregamos cinco mil unidades com o brasão do exército impresso. Muitas produtoras de eventos também imprimem as marcas de patrocinadores e no final do evento os usuários podem levá-los para casa.”

Segundo ele, nos três primeiros anos o faturamento da marca dobrou ano a ano. “2014 foi um ano estupendo, fechamos contratos com empresas como Natura, Santander e Volkswagen. 2015 ficou cerca de 5% abaixo. Neste ano, o desempenho não está sendo tão ruim graças ao varejo. Recentemente, lançamos loja virtual para otimizar esse tipo de operação, área para a qual não dávamos muita atenção, porque tínhamos volume grande de pedidos no atacado.”

Com foco no público infantil a Eu Amo Papelão – Brinquedos e Móveis de Papelão está no mercado desde 2013. “Thiago, meu marido, trabalha em uma empresa de representação de embalagens, ele vende papelão para indústrias”, conta Simone Buksztejn Menda, responsável pelo negócio.

Simone e Thiago Menda, fundadores da Eu Amo Papelão

Simone e Thiago Menda, fundadores da Eu Amo Papelão

Segundo ela, o marido sempre estudou o mercado de cartonagem. “Pesquisando o uso do papelão no exterior, identificamos que há uma boa demanda para artigos feitos com papelão, e que poderíamos introduzir esse conceito no Brasil”, conta.

Tudo começou em outubro de 2013, quando o casal fez um projeto para um grande shopping de Porto Alegre (RGS), onde residem. “Criamos um espaço para crianças todo feito com produtos de papelão, contendo mesinhas, cadeirinhas e brinquedos. Durante o evento tivemos a confirmação do quanto as crianças gostavam da ideia de personalizar os produtos com pinturas. Muitas delas valorizaram essa experiência mais do que quando ganham um brinquedo pronto. A partir desse evento, criamos a marca.”

Simone diz que primeiro desenvolveu a linha: destaque, pinte e monte. Depois, surgiu a linha de brinquedos grandes como casa, castelo, carro, avião e foguete. “As crianças podem entrar nesses brinquedos e criar suas histórias. Eles são fáceis de montar e de desmontar. A embalagem é uma maleta, o que facilita o armazenamento.”

Ela diz que 2015 foi um ano muito bom para o negócio e que 2016 também está indo bem. “Acho que as pessoas estão em busca de produtos criativos. Trabalhamos muito forte o conceito de proporcionarmos momentos felizes. Não é o simples fato de vender um brinquedo de papelão. Vendemos um momento feliz por meio do papelão. Os nossos produtos proporcionam isso às famílias.”

Simone afirma que o papelão não é um produto barato. “Até porque usamos craft de alta gramatura virgem. Trabalhamos muito forte com as classes A e B. Mas temos brinquedos para todos os bolsos, alguns custam R$ 20, outros até menos.”

Segundo ela, o carro-chefe da Eu Amo Papelão é a casa, vendida por R$ 189,00. “Há duas semanas lançamos o avião (R$ 139), que está tendo uma ótima saída. O carro (R$ 79,90) também tem boa demanda”, afirma.

Ela diz que um produto lançado para o Dia dos Pais fez tanto sucesso que foi adaptado para o Dia da Criança. “É a Caixa do Agora, que foi criada em cima do conceito de geração de momentos felizes.”

Simone conta que dentro da caixa havia uma cartinha com a história de uma família na qual todos ficavam conectados em seus smartphone e ninguém conectado entre si. “Então, o pai criou a Caixa do Agora para todos guardarem os celulares e viverem o momento. A repercussão foi maior do que esperávamos. Para o Dia da Criança a mensagem é: o melhor presente é você estar presente.” A marca tem loja virtual e revende para várias lojas de todo o Brasil.