Pesquisa aponta 4 perfis de micro e pequenos empreendedores

Estudo identifica que o que mais motiva o micro e pequeno empreendedor a abrir negócio é a libertação, independência e lucratividade

CRIS OLIVETTE

16 de outubro de 2016 | 06h21

Jean sócio-diretor da Santo Caos

Jean sócio-diretor da Santo Caos

Após trabalhar alguns anos lidando com empreendedores, o sócio-diretor da consultoria de engajamento Santo Caos, Jean Michel Galo Soldatelli, notou que o nível de engajamento de micro e pequenos empreendedores variava muito. “Fizemos um estudo para entender um pouco sobre o engajamento desses empresários em relação a conceitos do empreendedorismo.”

A pesquisa foi feita com 548 microempreendedores de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Paraíba, Amazonas e Minas Gerais. “A grande questão é que o que mais motiva esse microempreendedor a abrir um negócio é a libertação, independência e lucratividade. E as principais dificuldades são a falta de benefícios, carga de trabalho e responsabilidade. Logo, a maioria quer ter flexibilidade mas não quer ter responsabilidade.”

Segundo ele, esses dados apontam que uma das características do microempreendedor brasileiro é ser um funcionário sem chefe. “Normalmente, o chefe quer ter responsabilidades. Ter espírito empreendedor é ter responsabilidade. E a maioria não deseja isso.”

Soldatelli afirma que o primeiro ponto para engajar os microempresários com o empreendedorismo é a conscientização. “A grande dificuldade é a falta de capacitação. Com ela vem a confiança e a durabilidade do negócio. O segundo ponto é trabalhar o orgulho deles. Muitos não acham que têm uma empresa e nem uma história para contar.”

O estudo demonstra que o perfil do microempreendedor brasileiro não corresponde ao dos criadores de startups que estão no mercado buscando investimento. “Identificamos quatro categorias de perfis. O mais frequente é ‘Seu Vendinha’, que equivale a 35 % dos entrevistados.”

O objetivo desse empresário é manter o relacionamento com sua clientela fiel. “Ele não trabalha muito a questão administrativa e é mais operacional. É o perfil que mais representa o medo por não ter capacitação. Ele até quer aumentar as vendas e incluir mais serviços, mas não pretende aumentar o número de unidades por ter medo do crescimento.”

O segundo perfil é o ‘Panfletero’ que também é muito operacional. “Geralmente cria o negócio no ramo em que já atuava. Tem muito conhecimento sobre a operação mas pouquíssimo sobre a administração e não tem vontade de ir fundo nisso. O foco não é crescer, mas ser reconhecido. É alguém que trabalha a comunicação com carro de som e panfletos. Procura aumentar as vendas, mas não tem estrutura e visão empreendedora para criar uma rede. Esse perfil corresponde a 24% dos entrevistados”, afirma.

‘By the Book’ representa 25,5%. “Ele segue todas as regrinhas da administração. Antes de abrir o negócio planeja bem, procura ajuda do Sebrae e se informa sobre o mercado. Tem mais noção administrativa do que operacional e pertence a uma classe social mais alta.”

Por fim, tem o ‘Business Gandhi’, um tipo especifico pois a sua motivação é a filosofia com a qual encara seu negócio. Ele não quer ser um grande empreendedor. Sua motivação é a causa do empreendimento.
“Por exemplo, ele abre um café e não considera que tem um café, mas um espaço de convivência. Ou então, abre uma clínica de fisioterapia mas diz que tem um espaço de bem-estar. Esse perfil representa 15,7%.”

Coach de alta performance, Patrícia Marinho afirma que grande parte dos empreendedores brasileiros começam seus negócios pelas razões erradas.

Patricia Marinho, administrado e coach de alta performance

Patricia Marinho, administrado e coach de alta performance

“Me deparo com muitas pessoas querendo empreender porque viram o outro ter sucesso e não porque realmente têm uma motivação, o que é primordial para que não vivam no piloto automático, trabalhando só para pagar contas e rezando pro dia acabar”, afirma.

Segundo ela, quando a pessoa tem noção do que deseja atingir, tudo se torna mais fácil. “Ter foco é indispensável para fazer a diferença e saber aonde se quer chegar. O maior desafio do empreendedor é sair da zona de conforto. Trace um planejamento concreto, tenha uma agenda produtiva e desative o botão soneca do celular.”

Sócio-diretor da consultoria Vecchi Ancona – Inteligência Estratégica, Paulo Ancona diz que nem todos que praticam o empreendedorismo têm espírito, formação, perfil, competências ou capacidade empreendedora.

“O fato de querer ter um negócio não significa que terá condições para manter estratégias e gestão adequadas. O empreendedor de fato deve possuir iniciativa, liderança e capacidade de tomar decisões. Deve, ainda, ser capaz de ter boa dose de capacidade analítica para enxergar adiante e tirar conclusões positivas”, avalia.

Ele diz que é comum haver confusão entre perfil arrojado, boas ideias e vontade, com capacidade de empreender. “A atividade empreendedora exige experiência em uma série de aspectos e isso se adquire também com o tempo e com vivências. Fora disso, só ‘iluminados’ nascem com a intuição correta e necessária para empreender com sucesso.”

Segundo ele, muito se fala sobre empreender e pouco sobre o sucesso dessas atividades. “É sabido que grande parte dos empreendimentos que nascem somente de ideias, vontade ou arrojo, acabam morrendo nos três primeiros anos de vida.”

Paulo Ancona Lopez, sócio da consultoria Vecchi Ancona - Inteligência Estratégica

Paulo Ancona Lopez, sócio da consultoria Vecchi Ancona – Inteligência Estratégica

Ancona diz que além da vontade, o empreendedor deve ter capacidade de aprendizado rápido e de colocar tudo o que foi absorvido em prática. “Tendo em vista que o mercado muda com muita rapidez, o que era uma iniciativa brilhante pode estar ultrapassada em questão de meses. Além disso, a assertividade e a capacidade de focar e se posicionar de forma clara e rápida perante os desafios fazem de um empreendedor alguém capaz de reagir com clareza e rapidez, adequando e mudando o negócio ou a forma de sua gestão, sempre que necessário.”

Formado em música e com MBA em marketing digital, o dono da Nuveo Smartcloud, Luciano Freitas considera que o problema que enfrentou quando tinha chefe foi justamente a questão da hierarquia.
“Acho que o chefe do século passado se apega muito à hierarquia e impede o funcionário de ser ele mesmo. O que diferencia um chefe ultrapassado de um mais flexível é a informação. Antes o chefe podia tratar as pessoas mal e nada acontecia. Hoje, todos nós temos informação. Logo, temos poder.”

Ele afirma que como empreendedor as dificuldades são outras. “Não tenho mais chefe mas tenho sócios, investidor e vários clientes. A cobrança é maior. Por mais que tenhamos certa experiência, sempre enfrentando novos desafios. Costumo dizer que ao empreender a chance de não dar certo é de 50%, temos de nos apegar aos outros 50% e fazer virar 100%. O grande mote do empreendedor é não desanimar, alguma coisa vai dar errado, é normal, mas não podemos desistir.”

Luciano Freitas, sócio da Nuveo Smartcloud

Luciano Freitas, sócio da Nuveo Smartcloud

Freitas diz que o negócio criado há um ano emprega quatro desenvolvedores. “A Nuveo possuí um sistema avançado de reconhecimento de caracteres. Em termos práticos, uma foto, um PDF ou um áudio viram um documento. No lugar de buscar pelo arquivo a busca é feita pelas informações contidas nos documentos. Os arquivos e dados das empresas ganham inteligência. É possível pagar uma Nota Fiscal automaticamente tirando uma foto dela.”

Outro que resolveu empreender por não concordar com a forma da chefia lidar com os funcionários é o publicitário Igor Amieiro. “Em todos os lugares nos quais trabalhei, sentia que não me encaixava muito bem nos padrões. Achava que a forma com que a direção se comunicava com os funcionários não era bacana. Sofria muito com questões relacionadas a briga de ego, hierarquia e tudo mais.”

Ele conta que ao longo de nove anos trabalhou em agências de todos os portes. “Sempre me preparando para montar o meu negócio. Nesse período, morei dois anos na Austrália e tive oportunidade de trabalhar em duas agências. Lá a relação entre os lideres e funcionários ocorria da maneira que achava que tinha de ser. Mais humana, correta e próxima.”

Segundo ele, em muitas empresas brasileiras o ambiente é escravocrata. “Muitas vezes resolvia as demandas do dia e ia embora às 18h e as pessoas me olhavam com ar de reprovação. Isso me irritava. Algumas vezes tinha enrolar até mais trade para provar que era bom funcionário. Na Austrália, às 17h o diretor de criação mandava o pessoal ir embora aproveitar a vida, passear no parque. E era isso o que eu queria, mais de qualidade de vida.”

Em 2010, montou a agência Xpand. “Minha proposta é expandir os negócios junto com os clientes. Pegamos negócios que estão começando e damos total suporte. Fazemos desde a criação do logo até ações de marketing, site e mídias sociais.”

Igor Amieiro, sócio de O Pasquim - Bar e Prosa

Igor Amieiro, sócio de O Pasquim – Bar e Prosa

Amieiro afirma que no começo teve dificuldade para gerir o negócio. “Eu tinha vontade mas não sabia muito como empreender. Fiz cursos no Sebrae-SP e para aprender a gerir a empresa, precificar os serviços etc.”

O empresário conta que a partir dessa empreitada teve acesso a outros negócios que estavam iniciando. “Me associei ao O Pasquim – Bar e Prosa e também me tornei sócio do Son of a Beer (SOB) – uma cervejaria artesanal. Um amigo começou a montar o negócio de cerveja e minha agência criou o rótulo. Mas dei tantos palpites até que chegou uma hora em que era mais prático eu virar sócio do que receber um X mensal.”

Além de cervejaria, o negócio também tem espaço de eventos. “Na última quinta-feira do mês fazemos evento fechado para 100 confrades para os quais apresentamos o portfólio de cervejas produzidas no mês, com direito a jantar com gastronomia exclusiva.” Nos três negócios, ele afirma que trata os funcionários como parceiros.

Características 

Seu Vendinha
Perfil equivale a 35 % dos entrevistados. Seu objetivo é manter relacionamento com a clientela. Não trabalha muito a questão administrativa. Quer aumentar as vendas mas não pensa em aumentar número de unidades por ter medo do crescimento
Panfletero
É muito operacional e tem pouquíssimo conhecimento sobre a administração. O foco não é crescer, mas ser reconhecido. Perfil pertence a 24% dos entrevistados
By the Book
Representa 25,5% dos 548 entrevistados. Segue todas as regrinhas da administração. Planeja bem, procura ajuda do Sebrae e se informa sobre o mercado
Business Gandhi
Sua motivação é a filosofia com a qual encara seu negócio. Ao abrir um café, não considera que tem um café, mas um espaço de convivência. Esse perfil representa 15,7% dos entrevistados

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