Preparar sucessão também é tarefa para pequenos

Preparar sucessão também é tarefa para pequenos

Claudio Marques

10 de março de 2014 | 08h19

 

Germano Pavan, a namorada, Carolina, e os filhos Nathalia e Rafael, participaram da missão do Sebrae, que levou empresários paulistas à NRF, maior feira de varejo do mundo

Cris Olivette
Perto de completar 60 anos de operação, a La Sallet Joias passa pelo segundo processo de sucessão familiar. “A primeira loja foi fundada por meu pai, quando ele tinha 22 anos. A mesma idade dos meus filhos, Nathalia e Rafael”, conta Germano Pavan, pai dos gêmeos e atual gestor.

Pavan, hoje com 52 anos, diz que foi emancipado aos 17 anos para ajudar o pai. “Cheguei a entrar na faculdade de agronomia em Jaboticabal. Mas como meus três irmãos optaram por seguir outro rumo, e meu pai tinha uma loja e não uma fazenda, resolvi estudar administração e me preparar para sucede-lo na empresa.” 

Nathalia conta que Rafael faz gestão empresarial. Ela já concluiu gastronomia e agora faz pós-graduação em administração. “Quando meu pai assumiu, havia apenas uma loja. Nós acompanhamos a abertura de quatro novas unidades e ele sempre estimulou nossa preparação para assumirmos os negócios”, afirma.

Participar da missão promovida pelo Sebrae-SP, que em janeiro levou empresários paulistas à National Retail Federation (NRF), realizada em Nova York, foi parte da preparação. “Acredito que o processo de sucessão requer vontade, dinamismo, conhecimento, inovação e tecnologia. Por isso, fiz questão de levá-los à feira.” 

O empresário conta que durante a viagem eles realizaram visitas técnicas a joalherias administradas por pessoas que sucederam a seus fundadores. “Foi importante para abrir nosso horizonte e vermos o que deve ser feito para nos mantermos no mercado. Voltamos cheios de ideias”, garante.

Nathalia afirma que ela e o irmão estão aprendendo tudo o que podem enquanto o pai está à frente dos negócios. “Ir à NRF e a outras feiras tem nos feito pioneiros em várias coisas no varejo de Americana, Nova Odessa e Santa Bárbara, onde temos lojas. Somos muito ligados em tecnologia, por isso, temos implantado alguns sistemas para aumentar nosso diferencial e a vantagem competitiva.”

Desafio. Segundo o diretor técnico do Sebrae-SP, Ivan Hussni, quando se fala em sucessão, o primeiro desafio é fazer com que os antigos sintam segurança e confiança em quem fará a sucessão. “O que recomendamos é que a pessoa esteja preparada. Se não estiver, nossa proposta é de que entre um executivo profissional, porque o mercado é muito agressivo e a disputa é grande ”, ressalta.

Responsável pelo núcleo de empreendedorismo da ESPM-Rio, Rodrigo Carvalho diz que preparar a transição é muito importante para micro e pequenas empresas, principalmente porque os recursos e competências da organização derivam do fundador. “Empresários do setor de serviços, por exemplo, devem implantar um processo de gestão do conhecimento, transformando o saber tácito em conhecimento explícito, detalhado numa espécie de manual. Isso é fundamental para perpetuar uma organização”, frisa.

Carvalho considera que a preparação de um membro da família para suceder ao fundador exige um mix de preparação formal, feita em escolas de negócios, com a parte prática.

Como organizador da missão que todos os anos leva empresários à NRF, Hussni diz observar que muitos empresários têm incentivado a participação dos filhos na feira para estimular o interesse dos jovens pelos negócios da família. 
A intenção do empresário Vilson Cassia Júnior não foi diferente. Ele foi à feira acompanhado da filha Beatriz, de 19 anos. O dono da loja de roupas Villeneuve, que possui três unidades em Campinas e uma em Santa Bárbara d’Oeste, diz que a filha estuda moda e está começando a se interessar pelos negócios. “O processo de sucessão não está planejado, tenho deixado os interesses dela falarem mais alto. Quero que as coisas aconteçam sem pressão. Mas, percebo que ela voltou da viagem com outra visão sobre a empresa.”

O fundador da Idea Glass, José Joaquim Miguel, conta que sua empresa é especializada na fabricação de produtos de metal usados no acabamento de box de banheiros. Segundo ele, a formação de um sucessor depende de diversos fatores. 

“Há quatro anos, quando meu filho Érico veio trabalhar na empresa, ele não tinha nenhuma experiência. Hoje, depois de frequentar inúmeros eventos do segmento de vidro, fazer cursos paralelos de administração e concluir a faculdade de designer, ocupa o cargo de diretor de marketing.” Para incentivar a independência do jovem, Miguel achou importante que ele fosse sozinho à NRF.

“Foi uma experiência incrível. Fui em busca de soluções na área de customer relationship management (CRM) porque pretendo fazer um trabalho mais direcionado com nossos clientes. Na questão de inteligência de mercado, os Estados Unidos estão em outro nível. Trouxe várias ideias e já estou implementando algumas coisas”, afirma Érico, de 23 anos.
Segundo Hussni, os interessados em participar da próxima missão à NRF podem se inscrever, ao longo do ano, nas unidades do Sebrae. “A seleção será feita em novembro.”

Eles pegaram amor pelo negócio’

Os irmãos Letícia e Gonçalo dirigem, respectivamente, os departamentos financeiro e de recursos humanos do grupo Amarelinha da Sorte

Os irmãos Letícia e Gonçalo Silva cresceram acompanhando a expansão do grupo Amarelinha da Sorte, fundado em 1985 por seus pais, Antonio e Cleusa Silva. A rede é formada por 15 lojas de confecção e calçados, quatro supermercados e um posto de combustível, distribuídos em dez cidades da região de Ribeirão Preto,
“Quando éramos pequenos, ajudávamos a organizar os sapatos e a limpar o balcão. Até que chegou uma hora em que nós não nos víamos fazendo outra coisa a não ser trabalhando no negócio da família”, diz Letícia.

Aos 25 anos, é formada em administração e tem pós-graduação em gestão estratégica de supermercado. “Meu irmão está com 28 anos. Fez psicologia e pós em recursos humanos empresarial. Hoje, ele é diretor de RH e eu diretora financeira.” 

Os pais, com 54 anos, aguardaram os filhos concluírem os estudos para iniciarem o processo de sucessão. “Eles pegaram amor pelo negócio, porque sempre nos ajudaram. Para eles, não há nenhuma novidade, pois já passaram por várias áreas da empresa”, afirma Antonio.

Em janeiro, os irmãos participaram da missão do Sebrae que levou um grupo de empresários do varejo para a National Retail Federation (NRF), em Nova York, que é a maior feira do segmento de varejo do mundo. 

“A Cleusa e eu tocamos o negócio na determinação. Fizemos faculdade de administração só aos 40 anos. Já nossos filhos têm estudo e bagagem prática, mas achamos importante que participem de feiras para ver o que tem lá fora. Eles sempre trazem novas ideias e os resultados têm sido ótimos.”

Letícia diz que a viagem estimulou ainda mais a motivação dos dois. “Foi legal porque aprendemos a avaliar estratégias para aplicar nos negócios.”

Antonio quer aproveitar o período de transição para poder ajudar, caso cometam algum erro. “A verdade é que o acerto deles tem sido surpreendente.”

A jovem diz que aos sábados, a família se reúne para discutir os problemas e definir os rumos dos negócios. “Quando estamos juntos, é difícil fugir do tema trabalho. Tudo tem ônus e bônus. Mas são os ônus que fazem os bônus serem compensatórios”, diz.

O pai conta orgulhoso sobre a loja inaugurada há um ano em Sertãozinho. “Ela tem 18 mil metros de área construída. Eles implantaram o sistema de etiqueta eletrônica que está servindo de modelo para os demais lojistas da cidade. Tudo foi planejado e executado por eles.”

Segundo Antonio, o início do grupo ocorreu com mercadorias sendo vendidas em duas sacolas. “Logo que nos casamos, em 1983, começamos a vender enxoval. Íamos ao bairro do Brás, em São Paulo, para comprar os produtos. Depois, vendíamos de porta em porta em São Carlos. A primeira loja foi inaugurada em 1985”, relembra.

O empresário afirma que o nome do grupo Amarelinha da Sorte tem história. “Quando eu era criança, éramos muito pobres. Minha mãe vendia doces e meu pai raspadinha, em carrinhos amarelos. O nome foi uma homenagem a eles, e realmente nos deu sorte.”

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