Quando a casa se torna sede da empresa

Quando a casa se torna sede da empresa

Não só por necessidade, mas também para iniciar um negócio com mais segurança, empreendedores adotam residência como sede da empresa

Claudio Marques

29 de janeiro de 2018 | 06h03

Marcos Botelho deixou o emprego para abrir um negócio de roupas em casa. Foto Helvio Romero/Estadão

Lucas Baldez /Especial para o Estado

Cansado de ver seu trabalho restrito à lógica comercial de grandes empresas, o designer de moda Marco Botelho, de 60 anos, resolveu largar seu emprego formal, em 2013, para iniciar um negócio próprio na oficina que montou em sua casa, no Planalto Paulista, na Zona Sul de São Paulo. “Acumulo todas as funções: crio, fabrico e vendo”, afirma o empreendedor mineiro, que já foi funcionário de grandes marcas, como a Ellus. “Atualmente, trabalho de acordo com minhas convicções. Não faço moda, faço roupa de muita qualidade”, diz o dono da Marco Botelho Alfaiataria.

A redução de custos e de deslocamento e a maior praticidade em se iniciar um projeto dentro da própria casa empolgam os novos empreendedores, muitos deles, diferentemente de Botelho, movidos pela crise ou pela necessidade de ter uma fonte de renda. Entre aqueles que optam por montar o negócio em casa estão muitos dos 7,8 milhões de microempreendedores individuais (MEI) registrados até 20 de janeiro no Portal do Empreendedor. O número representa um crescimento de 66% em três anos, desde o começo da retração da economia, no início de 2015, quando havia 4,7 milhões de brasileiros enquadrados nessa categoria.

Para a consultora do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) Ariadne Mecate, a crise econômica impulsionou o registro de novos MEI’s no País. Ela acredita que, com a alta do desemprego nos últimos anos, a tendência é que os brasileiros busquem soluções caseiras – como pequenos negócios – para obter renda.

Qualquer que seja o fator a motivar os novos empreendedores, existem vários tipos de negócios para realizar em casa. De acordo com o coautor do livro 130 Ideias de Negócios para Montar em Casa, André Brik, as possibilidades vão desde atividades artesanais, como bordar e produzir artigos de cerâmica, até serviços remotos de secretariado e contabilidade. Para quem tem experiência ou talento na cozinha, algumas opções são decoração de bolos e fabricação de comida congelada.

A recifense Mayara Xavier, de 46 anos, estava havia dez anos sem um emprego formal e mantinha um negócio caseiro de confecções de bolo. Com a queda na demanda dos últimos anos, em meados do ano passado ela decidiu dar um impulso em seu pequeno empreendimento: virou também decoradora de festas.

“Eu já conseguia me sustentar como confeiteira de bolos, mas meu negócio alavancou mesmo quando virei também decoradora das festas e com a divulgação do meu trabalho nas redes sociais”, conta Mayara. Além de aniversários de crianças, ela já produziu festas para meninas de 15 anos, batizados e pequenos casamentos.

Para quem pretende abdicar de um emprego e até de uma carreira corporativa para montar seu negócio em casa, a decisão não é fácil. Ariadne diz que o primeiro passo é avaliar se o negócio terá demanda. Antes de apostar todas as fichas em um trabalho independente, a especialista recomenda realizar pequenos testes. “O ideal é fazer experimentos, oferecendo o produto ou o serviço para pessoas próximas e potenciais clientes.”

Decoradora. Mayara Xavier (direita) produziu toda a festa de 15 anos de Bruna Vilas Bôas. Foto: Yuska Ferreira

A administradora Clara Vasconcelos, de 30 anos, também do Recife, está se preparando para começar o negócio próprio – uma decisão que tomou há três meses. Clara vê três opções: comércio de alimentos por encomenda, consultoria de cardápios ou consolidar um canal de divulgação do trabalho de chefs de restaurantes importantes.

Apaixonada por culinária, ela já produz experimentalmente pratos especiais de café da manhã, almoço e lanches. “Eu cresci vendo as revistas Cláudia Cozinha da minha mãe. Sempre fui fascinada pela composição das fotos, pela apresentação dos pratos, pela harmonia naquelas imagens”, lembra ela. Enquanto não concretiza o negócio, trabalha com cursos de economia criativa em fotografia, design, cinema, música e jogos eletrônicos, no Porto Digital, um parque tecnológico localizado na capital pernambucana. Para ela, é “divertido cozinhar quando se dá um toque criativo”. Nos próximos dias, ela já pretende iniciar visitas a restaurantes: “Já servirá como inspiração.”

Segundo Brik, o primeiro passo para o micro ou pequeno empreendedor é descobrir suas competências. Ele indica realizar uma lista com as atividades que a pessoa mais gosta para identificar quais ela tem mais vocação ou capacitação. Em seguida, deve pensar qual delas trará mais retorno financeiro ou satisfação pessoal e avaliar se o espaço físico da casa comporta a atividade escolhida. Por fim, é importante conversar com os familiares sobre a proposta.

CINCO SEGMENTOS DIFERENTES PARA EMPREENDER

Alimentação
Uma boa opção neste ramo é ser confeiteiro de bolos, em razão da alta demanda. A fabricação de comida congelada também pode se tornar um ótimo empreendimento, de acordo com o coautor do livro 130 Ideias de Negócios para Montar em Casa, André Brik

Artesanato
Nesta categoria, uma escolha comum é produzir artigos de cerâmica. Outros preferem fazer bordados ou arranjos florais, por exemplo

Consultoria
Neste segmento, é possível empreender como consultor financeiro, consultor para noivas e até como personal shopper, que se dedica a fazer compras para terceiros

Animais
T
rabalhar com animais, além de divertido, pode ser lucrativo. Adestrador e dog walker são duas opções interessantes

Entretenimento
Quem gosta de lidar com festas e pessoas pode se tornar promotor de eventos. Ter equipamentos de som e de luz e brinquedos para alugar também é opção

Fase experimental contribui para reduzir incertezas

A redução de custos de deslocamento e a maior praticidade de se iniciar um projeto dentro da própria casa empolgam os novos empreendedores. E uma fase experimental antes da concretização do negócio, segundo a consultora do Sebrae, Ariadne Mecate , serve justamente para poder verificar a viabilidade do negócio, a adequação dos preços e a eficácia da abordagem e dos canais de venda. Ela lembra ser importante que o novo empresário tenha conhecimento das leis específicas de cada cidade e das regras de condomínio (para aqueles que vivem em apartamentos.

Com o negócio estabelecido, o escritor André Brik, indica que a pessoa crie em casa um ambiente propício e uma rotina de trabalho adequada. “É importante ela determinar um horário de trabalho para não se atrapalhar, definindo seu tempo disponível para a atividade, se será integral, meio período etc.”
Com o tempo e a evolução do negócio, a própria casa pode ficar pequena para alguns empreendedores. Porém, a consultora do Sebrae ressalta a necessidade de um amplo planejamento antes de “voos mais altos”. Segundo ela, é preciso pensar em custos, logística e na administração do tempo de trabalho. Por isso, antes de alugar ou até comprar um espaço novo, ela sugere alternativas para quem é pequeno empresário, como espaços de coworking e incubadoras de empresas.

No caso do designer Marco Botelho, ele planeja antes sua expansão. Mesmo com experiência de mais de 30 anos no setor de moda, Botelho participou do “Marketing Na Medida”, um dos cursos oferecidos pelo Sebrae para micro e pequenos empreendedores. Agora, o empreendedor pretende alcançar mais clientes e impulsionar suas vendas em ao longo de 2018. “Tenho criado estratégias para a marca ficar mais conhecida.”

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