Quando o quarto vira sede da empresa

Quando o quarto vira sede da empresa

Falta de recursos para começar negócio não é desculpa para quem quer ser patrão

CRIS OLIVETTE

30 de abril de 2017 | 07h53

Rafael Somera

Com o número crescente de desempregados, muitos brasileiros têm de usar a criatividade para ganhar dinheiro. E quem pensa em oferecer algum tipo de serviço, pode se inspirar nas histórias de quem começou a empreender no quarto.

Um dos exemplos vem de Botucatu, no interior de São Paulo onde, com orgulho, Rafael Somera exibe, logo na entrada da empresa, painel fotográfico com imagem do quarto no qual ele e a sócia, Érica Morales, começaram a Solutudo, em 2005.

Hoje, o negócio opera como franqueadora e emprega 250 pessoas. “A ideia surgiu quando Érica ouviu a recepcionista de um hotel dizendo a um turista que na cidade não tinha nada de bom para fazer”, relembra.

Quando isso ocorreu, Botucatu se preparava para sediar os Jogos Abertos do Interior. “Ficamos indignados com a declaração e pensamos em produzir material impresso mostrando o que a cidade tinha a oferecer. A ideia era distribuir esse conteúdo entre os 13 mil atletas que viriam para o evento. Conseguimos o apoio de 56 empresas e fizemos o material”, conta.

As empresas gostaram do resultado e apoiaram a continuidade do trabalho, com o objetivo de manter até mesmo a população local informada sobre as opções de serviços e lazer.

A empresa começou com o nome Solução para Tudo. Depois, virou Solotudo. “Nosso sonho sempre foi divulgar tudo o que não era acessível, como o contato do senhor que vende minhocas e do que conserta panelas”, diz.

Nos primeiros meses, ocuparam o quarto de Rafael. Depois, mudaram para o quarto de Érica. Um ano depois, montaram o primeiro escritório. O empresário brinca dizendo que está sendo processado pela mãe, porque 30% do investimento inicial foi dela, por conta da tábua de passar roupas que eles usavam como mesa.

Durante três anos, produziram material impresso. “Em 2008, vimos que para atingir a abrangência desejada, tínhamos de ir para a internet. Criamos o site e o negócio ganhou outra proporção.”

No mesmo ano, a Solutudo montou central telefônica para dar informações à população. “Hoje, atendemos 1,6 mil pessoas por dia, é um tipo de concierge público.”

Em 2014, a marca virou franqueadora. “Já estamos em 37 cidades do interior do Brasil. Em municípios com até 25 mil habitantes, o investimento total é R$ 25 mil. O maior valor chega a R$ 100 mil”, conta.

Outro negócio que nasceu no quarto é a Magnólia Comunicação, que realiza eventos corporativos e foi fundada em 2011 pelas relações públicas Ana Gomes e Lívia Mangini.

Ana Gomes e Lívia Mangini

Elas se conheceram na faculdade. Depois de formadas, seguiram caminhos diferentes e voltaram a se encontrar oito anos depois, para trabalharem juntas na área de eventos. “Com o tempo, percebemos que era hora de montarmos a nossa agência”, diz Ana.

A dona do quarto, Lívia, afirma que por serem prestadoras de serviço sabiam que a estrutura podia ser pequena. “Precisávamos apenas de computador, impressora, linha telefônica e acesso à internet.”

Ana diz que elas fizeram as contas e tiveram grande preocupação com o dinheiro, pois tinham poucos recursos. “Juntamos nossas economias e começamos a trabalhar.”

A empresa operou no quarto por um ano e meio. “Pelo fato de termos poupado e mantido os custos baixos, juntamos dinheiro e decidimos que o primeiro investimento seria a compra de uma sala de 40m², situada na esquina da Avenida Paulista com a Avenida Brigadeiro Luís Antônio”, conta Ana.

A dica das sócias para quem vai empreender no quarto é ter disciplina. “É preciso enfrentar o trabalho dentro de casa da mesma forma que um trabalho em um escritório. Tínhamos horário para tudo e respeitávamos o espaço como um ambiente de trabalho”, afirma.

Segundo Lívia, toda a economia que dá para fazer no começo é importante. “Trabalhamos com projetos pontuais, então, o mês seguinte é uma grande incerteza. Definimos combinados que dão certo até hoje, como determinar salário fixo no início do ano. E todos os meses, parte da receita vai para uma conta de investimento.”

Elas dizem que é importante perceber o momento de sair do quarto. “Quem quer crescer deve traçar uma meta e determinar um período para montar a estrutura adequada.” Com faturamento anual variável, que já chegou a atingir R$ 1,5 milhão, até hoje elas não precisaram mexer na aplicação. “É a nossa aposentadoria”, ressaltam.

Após trabalhar dez anos em uma rádio, a fundadora da agência Bendita Imagem, Michele Barcena, resolveu empreender quando concluiu a pós-graduação em marketing esportivo.

Dificuldade. “O começo é difícil, porque falta tudo. Falta referência, apoio e, principalmente, outras pessoas para que haja troca. Comecei na mesa da sala de jantar, até resolver reformular o quarto reservado ao vídeo game, para transformá-lo em escritório. Comprei mesa e cadeira adequadas. Isso fez bastante diferença. É preciso ter espaço reservado para manter o foco.”

Michele Barcena

Ela conta que depois de um ano e meio passou a compartilhar espaço em uma casa que reunia vários negócios na área de comunicação. “Ali foi ótimo, porque consegui contratar três pessoas e conquistar clientes maiores.” Hoje, a empresa ocupa um andar alugado em imóvel na Vila Madalena.

Michele espera crescer 70% no segundo semestre, em número de clientes. “No momento, temos nove clientes fixos e alguns jobs em andamento. Por sermos uma pequena empresa, fazemos trabalho voltado à personalização e à busca incessante por resultados, com atendimento bem próximo ao cliente. Por isso, mantemos alta taxa de retenção”, afirma.

CEO da Temporada em Orlando, Wendel Ferrari passou doze anos trabalhando em casa. Dez anos com marketing online, os outros dois com o site que criou para locar casas para curta temporada em Orlando, nos Estados Unidos.

A ideia surgiu logo após sua lua de mel. “Aluguei uma casa em Orlando e no dia de voltar ao Brasil, a moça que fez a locação nos visitou e perguntou se eu tinha interesse em comprar uma casa lá. Falei que não, mas fiquei com aquilo na cabeça.”

Passou, então, um ano estudando o mercado de locação nos Estados Unidos. “Em 2011, comprei uma casa e fiz um site para divulgar a locação. O negócio foi virando uma bola de neve, porque outros proprietários começaram a me procurar para divulgar a casa deles em meu site.”

Wendel Ferrari

Ferrari diz que precisou, então, optar por qual caminho iria seguir. “Escolhi a locação, porque é mais gratificante, tanto do ponto de vista financeiro quanto do retorno dos clientes, que voltam felizes.”

Segundo ele, o escritório foi montado para que pudesse contratar três funcionários e receber os clientes. “Em seis anos de atividade, já atendemos mais de dez mil famílias.”

Ele diz que, ao trabalhar em casa, enfrentou dois problemas. “Eu não tinha controle de horário e trabalhava mais. Além disso, engordei 10 kg, por comer fora de hora.”

Especialista orienta a respeito dos cuidados de empreender em casa

Diretor da Prosphera Educação Corporativa, Haroldo Eiji Matsumo dá dicas para começar um negócio dentro de casa.

Quais são os cuidados necessários para empreender no quarto?
O maior desafio é a disciplina para focar no negócio e não permitir que as atividades domésticas retirem sua atenção e tempo. O ideal é manter a rotina como se estivesse indo trabalhar fora, ou seja, realizar o ritual de se arrumar adequadamente para ir trabalhar ajuda mentalmente a separar o pessoal do profissional.

Existe risco por conta do ambiente? Qual?
É preciso considerar o tipo de trabalho, por exemplo: se o empreendedor atua com serviços administrativos, consultoria e tecnologia da informação não há problema algum. Mas se trabalha com máquinas, alimento e produção, esse ambiente não é adequado e essas atividades nem podem ser realizadas em casa, conforme a legislação.

Haroldo Matsumoto

Quais são as vantagens que essa iniciativa proporciona para quem está começando?
Elas são diversas, desde a qualidade de vida, pois o empreendedor utiliza melhor o tempo que gastaria no trânsito para se dedicar à atividade do negócio, além de reduzir o estresse da locomoção. Também não estará à mercê de greves ou quebra de transporte público. Financeiramente, estará economizando com aluguel de espaço físico, energia elétrica, internet, água e limpeza. Essa economia de custo pode ser repassada à prestação do serviço, obtendo mais competitividade na formação de preço.

Como se organizar para sair do quarto e ocupar um espaço adequado?
Realizar um bom planejamento é o caminho para esse crescimento. Ele deve organizar os valores necessários de receita (venda) mínima para manter o custo de um outro espaço (custo fixo), e ainda deve sobrar dinheiro do negócio igual ou maior que antes (lucro). Também deve avaliar as vantagens e desvantagens de ter um local para a empresa pois, normalmente, a locação tem contratos mínimos de 30 meses e o empreendedor tem de assumir esse compromisso para não ter de pagar multa por rescisão. Para alguns tipos de negócio, ter ponto físico ajuda na credibilidade e recepção de potenciais clientes, mas isso não é uma regra.

Há outras opções de espaço?
O empreendedor pode ter situação intermediária entre o quarto e o local próprio, usando espaços de coworking e escritórios virtuais que são pagos quando utilizados por hora, semana ou mês. Esses espaços oferecem infraestrutura e salas para a realização de reuniões.

Como especialista, considera recomendável começar um negócio nessas condições?
Iniciar o negócio em casa é uma excelente alternativa para quem está começando e serve até mesmo como um teste para a pessoa saber se vai dar certo. Essa experiência prepara o empreendedor que terá de enfrentar as situações vividas no dia a dia da operação, bem como as dificuldades que envolvem o empreender.

Deve ser um período de teste?
Sim, neste período ele pode testar o modelo de negócio e fazer os ajustes necessários antes de decolar. Antigamente, tínhamos o conceito de diversos negócios revolucionários que saíram da garagem, agora, temos os quartos com Wi-Fi e computador que estão revolucionando com ideias inovadoras e soluções para as pessoas.

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