‘Quero ser uma lanterna nesse novo mundo’

‘Quero ser uma lanterna nesse novo mundo’

Empresário propõe uso da logística de informações na cadeia de serviços médicos

Claudio Marques

08 de maio de 2017 | 07h09

Francisco Vignoli. Foto: Flavio Oliveira /B2Saúde /Divulgação

Mariana Canhisares
ESPECIAL PARA O ESTADO
Há 13 anos, antes dos smartphones, banco de dados e aplicativos serem tão familiares, não era comum pensar em logística de informações, sobretudo aplicada aos sistemas de saúde. Mas, já naquela época, o médico Francisco Vignoli enxergava a possibilidade de criar um negócio rentável, capaz de resolver dores de cabeça de empresas e funcionários. Hoje, em tempos de consultas ao Dr. Google, a Carelink não é mais um sonho. É uma empresa que, apenas no ano passado, faturou R$ 5,6 milhões e tem previsões para lucrar R$ 7,3 milhões em 2017.

Apaixonado por medicina, mas avesso à rotina médica, Vignoli percebeu, ao deixar o consultório e começar a trabalhar no setor administrativo, que havia um crescente aumento dos gastos das empresas com os benefícios de saúde. “Quando representavam 3%, eram absorvidos naturalmente. À medida que avançaram para 12%, que é o quadro atual, apontando para 20%, tornou-se uma preocupação”, diz.

Simultaneamente, outro cenário era recorrente: pacientes passando por vários médicos e não descobrindo a causa do seu mal-estar. “É uma cadeia de serviços equivocada. Foi essa inquietude que me orientou a empreender em alguma coisa na qual eu pudesse intervir e harmonizar um sistema que, para mim, está no seu ápice de desorganização”, afirma.

Primeiro, criou no Rio de Janeiro a B2 Saúde, uma consultoria cujo objetivo é auxiliar as empresas no relacionamento com os plano de saúde. Para isso, faz o mapeamento do perfil dos funcionários e seus dependentes, considerando profissão, principais queixas e a cobertura adequada às necessidades de cada um.

Feito o diagnóstico, era preciso apresentar uma solução. Por isso, dois anos mais tarde, desenvolveu o software Carelink, que usa um banco de dados dinâmico para apresentar possíveis caminhos e produtos para a melhor gestão dos recursos referentes ao benefício saúde.

O database, alimentado com informações geradas por empregadores, planos de saúde e usuários, têm no smartphone uma poderosa ferramenta de acompanhamento médico. O uso de todos esses dados resulta no que ele chama de logística de informações.

“Começo a monitorar o indivíduo em casa. Através do celular, consigo mensurar peso, pressão arterial, glicemia, oxigênio… Com isso e um call center de apoio, posso ter uma visão médica de prevenção, promoção e correção, e ainda adotar um posicionamento ativo nesse processo.”

Nos primeiros anos, porém, a própria tecnologia foi um desafio. “Não foi fácil, nem barato”, diz ele, que investiu ao longo dos anos cerca de R$ 5 milhões na ferramenta. “Uma das armadilhas da tecnologia é a rápida obsolescência. Então, é preciso entrar com a tecnologia rapidamente, popularizá-la para o custo baixar e, assim, implantá-la.”

Tecnologia. A evolução tecnológica contribuiu para o bom desempenho da empresa. “Não adiantava ter celular e mandar SMS. Eu precisava ter uma relação melhor. Quando surge o smartphone, passo a conseguir tratar os dados individualmente. Agora, temos as ferramentas para brincar legal.”

Na atual etapa do negócio, porém, o obstáculo é outro: há resistência em pensar em logística de informação no meio médico. Ele mesmo, no início, recusou o uso da expressão.

“É necessário convencer o mercado de que é preciso uma postura nova, já que a medicina tem sofrido, nos últimos anos, uma revolução. Porém, esse processo está desorganizado. Por exemplo, existem tratamentos de câncer cada vez mais eficientes, mas muito caros. Então, dar diagnósticos precoces é muito importante. A sociedade não pode se dar ao luxo de desperdiçar dinheiro sabendo que vai precisar de aporte financeiro pesado para situações mais importantes.”

De acordo com Vignoli, o desperdício que existe nesse mercado chega a ser de 50%, no sentido de mal-uso, abuso, redundância e fraude.

Para garantir resultados aos clientes, a remuneração da Carelink é dada de acordo com as metas de economia de gastos alcançados e a compra de produtos pelo cliente, como acompanhamento de hipertensos ou de grávidas. Mas ele garante: “No primeiro ano, fazemos uma redução de 20% nos custos da contratante”.

Para lidar com tantas variáveis e seguir crescendo, diz o fundador, o segredo é estar realmente disponível para o atendimento. “Ser próximo e acessível de fato. Tem de ter vontade de atender e entender as necessidades dos clientes, individual e coletivamente.”

Num período em que troca de mensagens entre médicos e pacientes se tornou tão frequente, reconhecer a tecnologia como ferramenta de aperfeiçoamento do atendimento é crucial. “Ninguém (no meio médico) sabe ainda se comportar nesse mundo novo que está se abrindo entre a realidade e o digital. E talvez seja essa a minha pretensão: ser uma lanterninha nesse novo mundo.”

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