Realidade virtual ganha espaço real
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Realidade virtual ganha espaço real

Disseminadas no exterior, tecnologias virtual e ampliada crescem no varejo de forma tímida; expectativa é elevar vendas e reduzir custos

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11 Junho 2018 | 07h33

Foto: Pixabay

Thaís Matos
ESPECIAL PARA O ESTADO
A realidade virtual, tecnologia que permite a imersão do usuário em um ambiente simulado e famosa no mundo dos videogames, promete melhorar a experiência de compra de clientes, atrai atenção de varejistas e cria oportunidades para desenvolvedores de soluções. O valor movimentado pelo mercado global de tecnologia de realidade virtual e de realidade aumentada deve atingir US$ 162 bilhões em 2020, segundo projeção da consultoria IDC.

Nos grandes centros do País, já é possível encontrar o uso de óculos e luvas de realidade virtual. “O cliente entra virtualmente em uma loja ou qualquer outro ambiente imaginado, navega por produtos e serviços e pode concluir uma compra ali mesmo”, diz o diretor de Desenvolvimento de negócios e novas tecnologias do PayPal Brasil, Thiago Chueiri.

Além do campo visual, há tecnologias que simulam sons, aromas e outros elementos lúdicos, expandindo a experiência de imersão do cliente. Segundo o consultor do Sebrae, Guilherme Amato, a adoção ainda é recente, mas já encontrada no turismo, hotelaria, imóveis e moda. “No geral, todos os negócios podem se beneficiar. Afinal, a visita virtual a uma linha de produção, por exemplo, mostrando ao cliente como um produto é feito, cria empatia com o público-alvo”, afirma.

Guilherme Amato. Foto: Flávio Florido/Divulgação/Sebrae

A startup Alboom criou seu próprio sistema de realidade aumentada e oferece o serviço a fotógrafos, videomakers e artistas visuais. Em apenas duas semanas do lançamento, 400 clientes criaram mais de duas mil experiências. “Os clientes de nossos clientes baixam um aplicativo gratuito e, ao apontarem suas telas do celular para uma determinada foto, a imagem ganha vida, na forma de um vídeo”, conta o CEO da empresa, Marcelo Moscato.

Para criar o serviço, a Alboom mobilizou uma equipe de 18 pessoas, entre gerentes, colaboradores e parceiros, que trabalharam por um ano. A empresa estima que os investimentos realizados irão somar US$ 1 milhão – incluindo gastos previstos para este ano e 2019. Moscato diz que o valor é alto porque a empresa desenvolveu realidade aumentada 100% integrada à plataforma da empresa, o que exigiu customizações. “Uma delas foi oferecer a tecnologia em nossa aplicação de diagramação de álbuns fotográficos. Outra foi atender os celulares Android e IOS.” Segundo ele, os serviços que a empresa oferece custam a partir de US$ 9 por mês.

Basicamente, diz Moscato, são exigidos quatro recursos para o uso da tecnologia em projetos: um objeto real para a criação do objeto virtual relacionado; câmera ou outro dispositivo para transmitir a imagem do objeto real; software para interpretar o sinal transmitido; e um dispositivo de saída da imagem, que vai devolver o sinal virtual em sobreposição ao objeto real, criando o efeito desejado.

Clientes testam óculos iGUi 3D – 360º. Foto: iGUi/Divulgação

A Igui Piscinas usa a realidade virtual para permitir que seus clientes visualizem as dimensões e modelos no local escolhido pelo comprador. Isso ajuda o consumidor a escolher o modelo desejado e auxilia o arquiteto responsável pela ambientação. A empresa, que atua no modelo de franquias, comprou dois softwares para os projetos: um de realidade virtual e um de projetos em 3D.

Segundo o fundador da Igui, Filipe Sisson, o investimento foi realizado em duas frentes: dois softwares de realidade virtual e 3D, que custam R$ 500 por mês, e uma equipe de três arquitetos para os desenhos. As lojas precisam apenas de um par de óculos e de um celular compatível, e os dois aparelhos custam cerca de R$ 6 mil. Hoje, a tecnologia usada garante 5% das vendas de projetos da rede.

Gigantes

As pequenas e médias empresas interessadas em usar a tecnologia podem se inspirar nas gigantes do setor, como a rede Via Varejo – Casas Bahia e Ponto Frio. A pesquisa com o uso da realidade virtual começou em 2017 e, no final de janeiro deste ano, a empresa abriu sua primeira unidade com ponto de venda digital, que funciona com soluções de personalização da experiência.

Na loja, há sensores de expressão facial que medem a satisfação do cliente, mapa de calor que analisa a trajetória feita durante o tempo que o consumidor permaneceu no ponto de venda e realidade aumentada, que permite aos clientes interagirem com itens do catálogo da unidade.

Seis meses após a adaptação da primeira unidade, a Via Varejo testa realidade virtual e ampliada em 25 lojas do Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil. Segundo o gerente de comunicação da rede, Fábio Araújo, o uso das tecnologias ainda é um projeto-piloto. A Via Varejo faz teste com óculos fabricados no Brasil e importados dos Estados Unidos para ver qual aparelho atende melhor às necessidades dos clientes e das lojas.

Fabio Araújo. Foto: Gustavo Ribeiro/Divulgação

Segundo Araújo, a realidade virtual torna as lojas físicas mais competitivas ante as compras online, embora ela não sirva para substituir, mas para complementar a experiência. “Hoje, a jornada do cliente passa por diversas plataformas. Pode começar online e ser finalizada em uma loja física ou fazer o caminho contrário. A realidade virtual fornece mais informações e segurança para o consumidor no processo de decisão da compra”, diz.

“Com a tecnologia, o cliente monta combinações próprias. Quando se trata de compras maiores, é imprescindível para harmonizar produtos”, afirma Araújo. Além disso, o consumidor consegue ter noção da exata do tamanho do produto em relação ao espaço que dispõe. A rede ainda não possui dados consolidados sobre o impacto do uso da tecnologia nas vendas, mas o retorno recebido pelas lojas que já implantaram a tecnologia tem sido positivo.

Para as micro e pequenas empresas que pensam em investir neste serviço, é preciso ter uma análise do comportamento de seus clientes para mensurar o quanto o investimento melhoraria a experiência do consumidor, destaca Moscato, da Alboom. É preciso, também, olhar o fluxo de caixa da empresa e ver se gasto terá retorno real – seja pelo alta das vendas ou pela economia de aluguel com a redução de estoques.

Lá fora. Embora versões mais rebuscadas demandem altos gastos, formas simples da tecnologia são acessíveis para pequenas empresas. “Nos Estados Unidos, centenas de varejistas usam algum tipo de realidade virtual”, diz Chueiri, da Paypal. Segundo ele, há lojas de roupas que substituíram provadores físicos por virtuais, varejistas que criam um mapa de calor de usuários, colhendo dados de quais foram os corredores percorridos pelos clientes para melhorar a exposição de produtos e diagnosticar os mais procurados e até mesmo playground virtual em lojas de brinquedos.

Empresas oferecem serviço para incorporadora usar em estandes

A oferta de produtos de realidade virtual e ampliada para o segmento de construção está crescente. Um das empresas que atuam no setor é a Construtivo, especializada em soluções tecnológicas para empresas do segmento. Tudo começou quando a empresa desenvolveu um projeto para criar um produto para a Rumo Logística. “Nos aperfeiçoamos e passamos a atender o mercado de incorporadoras. Para tanto, criamos uma nova área dentro da companhia. Começamos com uma pessoa ,hoje, são cinco”, conta o CEO, Marcus Granadeiro.

Marcus Granadeiro. Foto: Jô Capusso/Divulgação

Segundo ele, antes de sua empresa entrar nesse mercado, as incorporadoras adotavam um modelo de realidade virtual no qual o cliente usava óculos V-Gear e ficava parado, tendo somente a visualização de imagens 3D em 360º.

“A nossa tecnologia usa os óculos Acer Mixed VR que são mais imersivos e permitem que o cliente caminhe e interaja nos ambientes virtuais, tendo a noção real do tamanho dos ambientes. Funciona muito bem para quem quer vender um projeto de empreendimento imobiliário”, afirma.

O empresário cita como exemplo um empreendimento que será construído no bairro da Aclimação e que adotou a tecnologia no estande de vendas. “Em um mês após o lançamento, o empreendimento atingiu 30% de unidades comercializadas. Segundo ele, o índice indica que a solução gera vantagem competitiva aos negócios. Granadeiro diz que seus clientes podem aplicar a realidade virtual nos estandes de vendas ou levá-la para divulgar o empreendimento em outros locais, como shoppings ou aeroportos.

Nesta semana, o empresário está em Las Vegas (EUA) participando de evento sobre o assunto. “Nosso objetivo é aplicar a tecnologia em projetos de engenharia, permitindo que duas pessoas, em locais remotos, possam visualizar e discutir o projeto, desde que tenham o software e os óculos de realidade virtual. O hardware está avançando muito. Vi aqui nos Estados Unidos modelos mais avançados de óculos que permitem fazer mais coisas.”

Segundo ele, o interesse pela solução é crescente entre as incorporadoras. “Temos recebido várias consultas. Quando o mercado melhorar e apresentar crescimento no número de lançamentos imobiliários, teremos muito trabalho”, aposta.

Zé Guilherme Trivellato. Foto: Maína Vasconcelos/Divulgação

Outra empresa que oferece soluções para o setor é a Reddream. Segundo o diretor José Guilherme Trivellato, a ideia inicial era atuar no segmento de jogos, mas depois de estudar programação e modelagem 3D, ele resolveu apostar na produção de conteúdo para que o uso de realidade virtual pelas empresas. O negócio criado em 2016 oferece três produtos distintos.

“Fazemos fotos e vídeos em 360º, gamefication para desafios e treinamentos usando realidade virtual e renderização – criação de produto final por meio de processamento digital, aplicando programas de modelagem 2D e 3D, áudio e vídeo. Essa produção é voltada para construção civil, arquitetura e apresentação de projetos.” O preço dos serviços partem de R$ 700, dependendo da complexidade do projeto. A empresa espera crescer 40% neste ano.