Rede social promove empreendedorismo

Rede social promove empreendedorismo

Plataformas são criadas com o objetivo de aproximar donos de ideias, bons profissionais e investidores a fim de criar negócios

CRIS OLIVETTE

23 de novembro de 2014 | 07h05

Gonçalo Avillez (à esq.) da rede social wePinch eGabriel Berti, criador do aplicativo Sozinho Não

Gonçalo Avillez (à esq.) da rede social wePinch eGabriel Berti, criador do aplicativo Sozinho Não

Cris Olivette
“O ecossistema das startups depende de três componentes básicos que fazem o negócio acontecer. Em primeiro lugar, os empreendedores com suas ideias. Em segundo, bons profissionais com suas expertises que ajudam a desenvolver ideias. E, em terceiro, os investidores, responsáveis por dar apoio financeiro para que o produto ou serviço chegue ao mercado”, diz o criador da rede social wePinch, Gonçalo Avillez. Ele conta que a rede foi criada para aproximar esses três elos da cadeia.

Em operação há dois meses no Brasil, a rede social wePinch foi lançada em Portugal no começo do ano. “Ela pode ser acessada de qualquer lugar do mundo, mas estamos divulgando apenas nestes dois países. A partir de 2015, vamos divulgar em toda a América Latina.”

Segundo Avillez, a rede social ajuda a dar uma arrancada nos projetos ao fornecer capital humano e financeiro. “Quem busca investimento anuncia que está aberto à captação de recursos e aguarda o contato dos investidores, cujo perfil fica escondido na rede. Investidores veem todo mundo, mas não são vistos. Quando se interessam por um projeto entram em contato com o empreendedor.”

A obtenção de receita do wePinch virá de publicidade. “Mas neste momento, esta não é a nossa preocupação, queremos aprimorar nossa proposta que tem bastante valor nesse ecossistema”, diz Avillez.

O engenheiro da computação Gabriel Berti usou o wePinch para formar uma equipe e desenvolver o aplicativo Sozinho Não. A ideia surgiu de uma necessidade sua.

“Sempre joguei tênis com três amigos, que infelizmente deixaram de morar em São Paulo. Depois disso, quando marcava para jogar com alguém, a pessoa furava na última hora.”

Cansado de ficar frustrado, certo dia ele pensou que devia existir alguém no mundo com vontade de jogar tênis naquele momento. “Foi assim que tive a ideia do Sozinho Não.”

Berti afirma que o aplicativo ajudará o usuário a encontrar alguém para fazer algo com ele. “Coloquei meu projeto no wePinch e rapidamente quatro pessoas com os perfis que eu precisava se habilitaram.”

Ele buscava um desenvolvedor de interfaces e um de aplicativos para IOS e Android. Depois de avaliar os perfis, fechou com dois profissionais.

Aplicativo. “Até meados de dezembro devemos ter o aplicativo rodando. No momento, estamos melhorando as interfaces para entregar um bom produto para os usuários e clientes, que são cinemas, restaurantes, quadras esportivas etc.”, explica.

Eduardo Monteiro, da The Game Wall,

Eduardo Monteiro, da The Game Wall,

Outro usuário do wePinch é o fundador do The Game Wall, Eduardo Monteiro. Ele criou o negócio para impulsionar desenvolvedores de jogos. “Selecionamos os games que tenham o perfil que o público está procurando. Investimos em seu desenvolvimento e o lançamos no mercado. Entre eles está o ApocalipZ, que foi exposto no wePinch. Com a colaboração da rede social obtivemos US$ 200 mil”, diz.

Pioneira. Criada em 2010, a Socioteca, rede social idealizada por Victor Yves, foi precursora desse modelo de negócio no País. “Nossa proposta é fazer com que empreendedores encontrem investidores, ou outros empreendedores para se tornarem sócios, e assim, tirar as ideias do papel.”

Vitor Yes, da Socioteca

Vitor Yes, da Socioteca

 

A receita da Socioteca vem de publicidade. “No início, não havia nenhum modelo parecido no Brasil. Agora, há propostas semelhantes. Acho legal, porque a iniciativa de fazer esse público se encontrar é nobre.” Segundo Yves, no primeiro ano de atividade o número de usuários cadastrados foi superior a dez mil. Hoje, a cada seis meses a adesão cresce cerca de 150%.

O fundador da plataforma de financiamento coletivo Broota, Frederico Rizzo, diz que muitos empreendedores têm medo de que sua ideia seja roubada ao compartilhá-la em uma rede social. “Eu digo que o modelo traz mais competição, porque poderão surgir ideias parecidas e o investidor poderá compará-las mais facilmente.”

Frederico Rizzo, do Broota

Frederico Rizzo, do Broota

Segundo ele, o empreendedor deve estar seguro de si e aberto ao compartilhamento. “Ao dividir a sua ideia haverá mais pessoas que irão comentá-la e dar feedback. Assim, terá um ganho maior. Acho que isso é melhor do que esconder o projeto e perder a oportunidade de acessar esses conhecimentos que estão disponíveis na rede.”

Rizzo diz que é possível ao empreendedor captar recursos pela internet e offline. “As duas formas não são incompatíveis. A vantagem é ter uma vitrine de alto alcance como é a internet, podendo atrair mais demanda, captar recursos de forma rápida, agilizando todo o processo.” Segundo ele, a parte burocrática é toda facilitada pela plataforma. “Ajudamos a organizar a rodada de negociação e a fechar os contratos”, diz.

AMBIENTE TORNA A NEGOCIAÇÃO MAIS ÁGIL

Lançada há seis meses, a plataforma Broota foi idealizada por Frederico Rizzo. “Minha ideia foi juntar no mesmo ambiente pessoas dispostas a contribuir com conhecimento (crowdsourcing) e com capital (crowdfunding).

A ferramenta já tem 13 mil pessoas cadastradas, cerca de 160 empresas listadas e enviou cinco ofertas públicas para captação de recursos à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Ele diz que quando uma empresa anuncia que quer captar recursos, é necessário fazer esse procedimento porque são ofertas públicas que estão na internet. “Nós ajudamos o empreendedor a obter a liberação da CVM, que demora até dez dias. Só então é possível anunciar a captação.”

Rizzo afirma que muitas empesas que estão na plataforma ainda não estão maduras para buscar investimento. “A captação tem um momento específico para ocorrer. Mas quanto antes o empreendedor se relacionar com os investidores é melhor, pois poderá ser questionado por outros usuários. Ao ser desafiado, vai amadurecendo o seu plano de negócio.”

Segundo ele, o Broota já tem 230 investidores listados. “Mas estimamos que cerca de 500 pessoas que estão na plataforma têm interesse em investir.”

A receita da plataforma é obtida quando uma empresa alcança os 100% do valor esperado de captação. “Ao atingir o valor total desejado, a empresa paga uma taxa de serviço de cerca de 7,5% sobre o valor captado.”

Usuária do Broota, a sócia da TimoKids, Fabiany Lima, conta que está no meio de uma rodada para captar R$ 200 mil. “Já conquistamos 50% desse valor.”

Ela foi convidada a se associar ao negócio durante um networking de startups. “Como tive uma startup voltada ao público infantil, já tinha conhecimento sobre esse mercado.”

Fabiany Lima, da TimoKids

Fabiany Lima, da TimoKids

Fabiany conta que a TimoKids é uma plataforma de entretenimento para crianças de até 12 anos. “A versão oficial foi lançada em março deste ano. De lá para cá, recebemos o selo internacional de aplicativo seguro para crianças Kids Seal. Ganhamos alguns prêmios e chegamos a 89 países.”

Segundo ela, a área tecnológica permite esse rápido crescimento. “O Broota foi a solução perfeita para o estágio atual do negócio. Com ele, não precisamos esperar o tempo normal de mercado para iniciar a captação. No processo offline, o investidor acompanha a empresa por cerca de seis meses até se decidir. Nesse exato período, nosso negócio explodiu. Agora, temos de aumentar a estrutura para atender a demanda.”

Ela diz que além de rápido, o Broota é ideal para encontrar sócios estratégicos interessados no negócio, sem ter de centralizar o networking em um só investidor.

Fabiany conta que o TimoKids já opera em português, inglês e espanhol, e que será expandido para outros idiomas. “Obtivemos a certificação internacional justamente por não haver no mercado opções de conteúdo ligando entretenimento com educação. Tivemos muita visibilidade porque os pais buscam ambientes úteis às crianças, uma vez que todas já têm contato com a tecnologia.”

Para ela, iniciativas como a do Broota cobrem uma necessidade enorme dos empreendedores. “Dependendo do produto, ele não consegue chegar a um ponto de equilíbrio com recursos próprios para que possa buscar investimento no formato tradicional. A maior parte das startups morrem antes de atingir esse ponto.”

Fabiany diz que plataformas de crownfunding cobrem esse período delicado, permitindo que o trabalho continue por meio da captação de recursos. “Além disso, cria uma nova classe de investidores em startups, com pessoas físicas comuns.”

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