Site registra e divulga últimos desejos do usuário

Site registra e divulga últimos desejos do usuário

Plataforma "Meu Último Desejo" armazena orientações e palavras de conforto que são liberadas para parentes e amigos após a morte do assinante

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03 Outubro 2018 | 12h29

Foto: Jan Kahanek

Victor Ohana, especial para o Estado

Imagine a possibilidade de registrar suas últimas mensagens para serem lidas, ouvidas ou vistas por quem você ama, somente depois de sua partida. Essa é a ideia do “Meu Último Desejo”, uma plataforma online em que usuários armazenam orientações e palavras de conforto, que são liberadas para parentes e amigos depois da sua morte.

Lançado há dois meses, o site tem 500 cadastrados, de acordo com o criador do projeto, Mário Cássio Maurício, de 48 anos. Cada cliente tem direito a, no mínimo, 500 mb de memória, para guardar mensagens de texto, áudio ou vídeo. Depois do óbito, o material é divulgado para endereços de e-mail inscritos.

A plataforma pede que o usuário registre pelo menos duas mensagens. A primeira deve conter seus últimos desejos, como a orientação sobre a cerimônia de enterro, ou mesmo informações de caráter burocrático. A segunda seria uma mensagem de cunho emocional para pessoas próximas.

O cliente também pode escolher uma data específica para sua mensagem ser enviada. Uma possibilidade é agendar para, por exemplo, seis meses após sua passagem. Outra alternativa é informar datas como, por exemplo, a formatura dos filhos, entre outros momentos especiais sem previsão exata no calendário. Para isso, é necessário cadastrar no sistema dois “tutores” – pessoas próximas que alertarão o aplicativo quando as datas chegarem.

O serviço é gratuito nos primeiros 30 dias. Em seguida, cobra-se o valor mensal de R$ 2,99. Planos família e modelos adicionais também estão disponíveis. Com foco no público mais velho, o site já recebeu mais de oito mil visitas em dois meses, segundo o empresário.  Temos uma boa taxa de visitação e de permanência no site. A média é de dois minutos e meio de navegação de cada internauta”, conta ele.

Maurício trabalha em um coworking na cidade de Atibaia, junto com duas pessoas: um gestor de negócios e um especialista em marketing. Além disso, ele conta com um serviço de assessoria que o auxilia a divulgar a marca. O investimento foi de R$ 250 mil, e a expectativa é de que os lucros apareçam em dois anos. O administrador teve gastos iniciais na contratação da equipe, no desenvolvimento do sistema, na locação e nos registros da marca e do domínio.

Segundo pesquisa da Ebit, companhia que estuda dados do mercado online, a idade média do consumidor virtual em 2017 foi de 42 anos. Para a consultora de marketing do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-SP) Ariadne Mecate, apostar no público acima de 35 anos pode ser uma boa estratégia, porque ele está mais presente na internet a cada ano.

“O jovem está 24 horas conectado, mas quem tem o cartão de crédito são as pessoas de mais idade. E eles estão ainda mais presentes na internet. Cabe ao empresário identificar em quais redes seu público está, para que seu produto chegue a ele”, recomenda.

 Ariadne afirma ainda que mexer com o emocional é uma tônica presente nos negócios digitais.

“Comprar é um ato emocional. Quando um modelo de negócio trabalha com a emoção das pessoas, elas ficam mais propensas a gastar mais, porque aquele produto tem um valor inestimável”, explica a especialista.

Perda de pai motivou idealizador

De acordo com o criador da plataforma, “Meu Último Desejo” ajuda familiares e amigos do usuário, tanto no âmbito emocional quanto burocrático. A ideia surgiu após perder seu pai, há 14 anos. Com as dificuldades em resolver trâmites jurídicos, Maurício percebeu que ter orientações de seu ente após o óbito faria toda a diferença.

“Pensei em como um pai poderia gostar de deixar uma mensagem ao filho, tanto para confortá-lo, mas também para orientá-lo. Vi o quanto é complexo perder alguém, porque há uma lista de coisas para organizar. Percebi também que esse problema não era só meu”, conta o executivo.

O coordenador de projetos do ramo automotivo Leandro Pimentel de Araújo, de 35 anos, é um dos usuários da plataforma. Pai de um menino de 1 ano, Araújo vê no aplicativo a oportunidade de deixar uma mensagem para quando ele estiver crescido.

“Quero deixar um ensinamento para quando meu filho for mais velho. Quero que ele se lembre sempre do quanto mudei com seu nascimento, o quanto ele me ensinou e o quanto eu o amo”, afirma.