‘Sou jovem, mulher, e herdeira, o combo perfeito para julgar’

Presidente da Intermarine, Roberta Ramalho, conta como é estar à frente de um dos maiores estaleiros de luxo do Brasil

blogs

11 Dezembro 2017 | 07h12

Roberta Ramalho. Foto: Ricardo Toscani/Divulgação

Mariana Agati
ESPECIAL PARA O ESTADO
A economista Roberta Ramalho tinha apenas 19 anos quando entrou na administração da Intermarine, um dos maiores estaleiros de barcos e iates de luxo da América Latina. Ela assumiu o empreendimento quatro anos após a morte de seu pai, Gilberto Ramalho, vítima de um acidente de helicóptero. Em 2013, Roberta iniciou seu percurso na companhia, passando por todos os setores durante um ano. Após esse período de aprendizagem, assumiu a presidência da empresa, tornando-se uma das mais jovens CEOs do Brasil.

Fundada em 1973, a Intermarine pertence à família Ramalho desde 1985, ano em que Gilberto comprou a fábrica de um amigo. Com o tempo, a pequena fábrica na capital paulista migrou para Osasco, numa área de 50 mil metros quadrados. Atualmente, mesmo diante da crise econômica, a Intermarine vende, em média, de 30 a 40 barcos de luxo por ano.

Desde que assumiu a presidência da empresa, Roberta tem tocado novos projetos e prepara a Intermarine para a internacionalização. Na sua gestão, a rede de distribuição comercial foi reforçada; houve um reposicionamento da marca e também o aumento de campanhas de marketing. “O mais importante é que a empresa se profissionalizou muito nesse período. Não só porque eu priorizei isso, mas também por uma necessidade de atualização.”

Um dos pontos principais nessa nova administração da Intermarine é o lançamento de produtos. Hoje a empresa projeta os barcos de acordo com as necessidades do mercado e dos clientes, o que torna possível as adaptações na embarcação a necessidades específicas dos clientes.

Gestão familiar. Roberta enxerga com bons olhos o fato da Intermarine ser um negócio da família. “Essa proximidade torna a burocracia muito menor e o processo produtivo bem mais dinâmico. A gente se profissionalizou, mas mantendo essa simplicidade que a empresa familiar tem”, afirma.

Desafios. “O maior deles (desafios) é você conseguir reconhecer o que cada um tem como ponto forte e aproveitar isso dentro de cada departamento, colocar as pessoas trabalhando com a mesma linha que você. É fazer com que todos os colaboradores comprem as suas ideias e vistam mesmo a sua camisa.”

Jovem e mulher. “Esse é um mercado bem masculino. Eu participo de muitas reuniões em que, entre doze homens, sou a única mulher da mesa. Logo que entro, percebo um certo receio, do tipo: ‘o que é que esta menina está fazendo aqui?’ Mas, conforme eu me coloco, vou conseguindo provar que estou lá por competência, não por idade e nem por sexo. Eu sou jovem, mulher e herdeira – o combo perfeito para as pessoas julgarem ou terem algum tipo de preconceito. Mas não adianta você herdar e não ter comprometimento, determinação e competência para estar naquela posição.”

Crise. “Sem dúvidas, nós fomos afetados. Acho que pouquíssimos segmentos passaram imunes. Mas a gente sente muito mais nas vendas dos barcos menores. Nos barcos maiores, a crise que faz com que esse investimento retraia; é muito mais uma crise de confiança do que uma crise financeira. Não posso falar que a gente não sentiu, mas nos mantivemos estáveis. Permanecemos com os lançamentos, com marketing ativo, promoção de eventos, contato com todos os nossos clientes. Isso é importante: quem não é visto, não é lembrado.”

Ansiedade. “Se teve um ponto que eu consegui evoluir ao longo do tempo na presidência, foi o controle da ansiedade. Pela minha idade, naturalmente tenho um ritmo diferente, sou extremamente acelerada. Mas aprendi que energia e ansiedade são coisas diferentes. Hoje em dia, eu tenho mais domínio sobre isso.”

Perfil. “Sou de uma geração com ideias novas. É lógico que também é muito importante a experiência dos colaboradores que estão aqui há anos e que trabalharam com meu pai, mas acho que essa energia nova, aliada com essa mesma cultura que ele enraizou aqui, foi uma combinação de muito sucesso. Assim, a gente tem a experiência com a agilidade e a dinâmica do mundo de hoje.”

Futuro. “Nos últimos anos o faturamento se manteve constante. Mas tenho expectativas de crescimento para o ano que vem. O Bolt Show (evento do setor) é um bom termômetro para isso e já senti um aquecimento no mercado, comparado com os último ano. Não deve ser rápido. Mas começamos a ver sinais de melhora. Existe uma luz no final do túnel que não enxergávamos faz tempo.”