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Startups crescem com inteligência artificial

Pequenos negócios que vendem soluções baseadas nessa tecnologia ganham mercado no País

CRIS OLIVETTE

22 Abril 2018 | 07h05

Igor Chalfoun. Foto: Luis Carlos Fernandes

O Brasil está perdendo posição para países da América Latina no uso de novas tecnologias. A informação consta de relatório que será divulgado nesta semana pela Gartner, empresa global especializada em pesquisas na área de tecnologia da informação. “Os cortes de orçamentos feitos pelas empresas a partir 2015 estão impedindo o avanço tecnológico no País”, diz o vice-presidente de pesquisa da companhia, Cassio Dreyfuss.

“Após muitos anos acompanhando a evolução do País sou obrigado a dizer que México, Colômbia, Peru e Argentina estão à frente do Brasil em termos de liderança no uso de tecnologia. Eles usam mais inteligência artificial (IA) e analítica avançada, entre outras novas tecnologias, que o Brasil”, afirma.

Cassio Dreyfuss. Foto: Larissa Satir

Dreyfuss diz que o relatório serve de alerta para que as empresas invistam em tecnologia. “Esse cenário ainda não é um desastre, porque a diferença não é tão grande, mas é limitador. Líderes de empresas devem construir programa de avanço tecnológico, mesmo que limitado por conta do baixo orçamento, para que tenham alguma iniciativa de avanço.”

A boa notícia, segundo ele, é que esse cenário beneficia pequenas empresas e startups, que usando inteligência, criatividade e percepção de negócios estão criando soluções pontuais de grande atratividade. “Vemos grandes empresas indo atrás dessas soluções específicas”, diz.

Ele lembra que as grandes organizações não têm agilidade, flexibilidade e, muitas vezes, nem conhecimento específico para criar solução inovadora. “Não é por outra razão que grandes bancos e empresas de seguros estão criando suas próprias incubadoras de startups, porque não conseguem fazer o que as startups conseguem.”

Explorando essa brecha está a Tbit Tecnologia, de Igor Chalfoun, que aplica inteligência artificial em equipamento que classifica sementes e grãos.

“Antes, a classificação era feita por pessoas e era um ponto de geração de desconfiança por parte dos produtores. Com o sistema automatizado levamos transparência para esses processos comerciais.”

De acordo com ele, o sistema também acelera o processo, ajuda a padronizar a classificação em todo o Brasil e valoriza os produtos.

A empresa está no mercado desde 2012. “Nesse período, construímos um posicionamento muito bom que trazemos como herança. Já temos nove produtos no mercado e atendemos várias grandes empresas e multinacionais que atuam no Brasil.”

Chalfoun conta que o próximo passo da Tbit é expandir a solução para classificar verduras, frutas e legumes. “Nossa expectativa é de que, em um futuro próximo, todas as transações que envolvam commodities agrícolas possam ter uma inspeção de qualidade. Lembrando que o equipamento não aceita propina, não briga com a mulher e não fica de mal humor.”

 

O empresário conta que está desenvolvendo novas soluções para atender pequenos produtores. “Aos poucos, estamos expandindo nossa atuação. Queremos direcionar nossos produtos para um público maior, por ser muito mais estratégico.”

Unindo inteligência humana e artificial a Nama, de Rodrigo Scotti, chegou ao mercado para resolver comunicações complexas. “Criamos uma plataforma de chatbots (programa que simula um ser humano na comunicação com pessoas via chat e SMS) que é capaz de automatizar em até 90% o processo de atendimento ao público, gerando economia de 70% a 90% nesse setor”, afirma.

Ele destaca que a ferramenta usa linguagem natural por meio da tecnologia machine learning que, basicamente, permite aprender com os padrões e com o que as pessoas vão ‘falando’ (escrevendo). “Automatizamos mensagem de chat entre consumidores e empresas que querem manter atendimento rápido e escalável, proporcionando melhor experiência para os consumidores.”

O empresário diz que a tecnologia da Nama é ideal para negócios que têm grande tráfego de atendimento ao público, como empresas de Telecom ou órgãos governamentais, como o Poupatempo.

“Criamos o Poupinha, robô que desde o início de 2017 conversa com o público que acessa o portal do Poupatempo. Até o momento, ele já trocou mais de 100 milhões de mensagens. Esse é um caso muito legal e que comprova que a população consegue usar esse tipo de tecnologia sem problemas”, ressalta.

Rodrigo Scotti. Foto: Julio Boaventura/Divulgação                                                      Scotti diz que o equipamento pode ser calibrado para realizar agendamentos, tirar dúvidas, receber reclamações etc. “O Poupinha é capaz de realizar o trabalho de mais de 70 pontos de atendimentos ao mesmo tempo. Mas a ferramenta pode ser calibrada para atender quanto for necessário, esse volume não tem limite.”

Preferência. Segundo ele, chat é o meio de comunicação preferido entre empresas e consumidores. “Pesquisa da Sage aponta que 66% dos brasileiros enxergam os benefícios do uso de bots (robôs) na organização da vida profissional e dos negócios.”

Ele diz que a IA representar grande vantagem para empresas menores. “Mas é importante não atropelar as etapas. Antes de investir em IA é preciso identificar qual é o problema. As soluções de IA só serão úteis se a empresa tiver um problema claro para resolver”, diz.

Segundo ele, a meta da empresa é entregar mais ferramentas ao mercado e continuar aprendendo com o comportamento do usuário.

Há cinco meses, a gerente da empresa de automação financeira Iugu, Michele Pines, conta com a ajuda do sistema automático de recrutamento e seleção desenvolvido pela Gupy, para conduzir os processos seletivos na empresa.

Michele Pines. Foto: Thamirys de Melo

“Já realizei dez contratações por meio do sistema. Ter uma ferramenta desse tipo proporciona grande diferença no gerenciamento de currículos e no ranqueamento dos candidatos. Otimiza muito todo o processo e proporciona embasamento estratégico”, diz.

Ela afirma que a escolha da solução levou em conta o fato de não ser apenas uma ferramenta de gestão. “Há toda uma inteligência por trás. A solução indica, por meio de ranking, quais são os melhores candidatos que devemos abordar. Também tem teste para avaliar o quanto o candidato é engajado com o perfil da empresa e outro para avaliar raciocínio lógico.”

Michele diz que quanto mais o usuário utiliza a ferramenta, mais eficiente ela fica, porque gera insumos que alimentam o sistema de aprendizagem automático (machine learning). “Assim, o usuário ganha agilidade e inteligência, porque a ferramenta aprende quais são as características das contratações.”

Completa. CEO da Gupy, Mariana Dias afirma que a empresa desenvolveu ferramenta que faz a gestão do processo de recrutamento do começo ao fim.

“Além da gestão dos currículos e do ranking dos concorrentes, toda a comunicação com os candidatos  ocorre dentro da plataforma, o que inclui  testes e entrevistas.”

Quando o processo seletivo  é feito  por humanos, ela diz que a escolha dos  candidatos que serão entrevistados tende a ser  subjetiva e  envolver um viés inconsciente. “A nossa solução  facilita a vida dos recrutadores, porque ela é capaz de  identificar os melhores talentos para cada vaga. Assim, o recrutador tem mais tempo para se dedicar às entrevistas, dar retorno aos candidatos e atuar de forma mais estratégica.”

Mariana Dias (blusa rosa). Foto: Guilherme Henrique

Mariana conta que a empresa foi criada em 2015 e que as perspectivas para 2018 são positivas. “Neste ano, o mercado de recrutamento está ficando mais aquecido. As empresas estão tomando consciência de que existem novas tecnologias nessa área. Também estão entendendo que a inteligência artificial não vai eliminar a figura de recrutador, mas sim ajudá-lo. Tudo isso tem feito a demanda aumentar.”

A empresária diz que a vantagem competitiva das empresas cada vez mais serão as pessoas. “Tecnologia elas podem comprar, mas os melhores talentos é difícil encontrar. Por isso, elas estão investindo na área de RH para atrair e reter talentos”, avalia Mariana.

Segundo ela, a solução também é interessante para as pequenas empresas, porque, nesses casos, normalmente é o dono quem faz a seleção.

“O pagamento pelo uso da nossa ferramenta funciona por meio de mensalidade fixa no valor de R$ 850. Para o pequeno empresário pode ser interessante, porque se tiver de contratar uma pessoa para cuidar dessa área irá gastar muito mais.”

Mariana conta que a pequena empresa, apesar de ser responsável por 60% das vagas abertas hoje no Brasil, costumam ter dificuldade para atrair interessados, porque a massa de candidatos é atraída pelo nome da companhia.

“Quando o negócio é muito pequeno, a dificuldade maior é conseguir atrair pessoas para a vaga. Quando a empresa tem mais de 100 funcionários, a dificuldade é outra. Ao abrir uma vaga costuma atrair tantos interessados que não consegue fazer a gestão e seleção.”