Sustentabilidade e pós-luxo no alto da serra

Sustentabilidade e pós-luxo no alto da serra

Projeto une hotel e loteamento que envolve a convivência com uma comunidade de região entre três municípios da Mantiqueira paulista

Claudio Marques

03 Abril 2017 | 08h12

Fernanda Ralston Semler. Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Fernanda Ralston Semler. Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Em operação há quatro anos, o Botanique Hotel & Spa é um dos empreendimentos que têm a marca dos empresários Fernanda Ralston e seu marido, Ricardo Semler. Ela é sócia gestora da Companhia dos Mellos, responsável pelo negócio. Mas a história desse ponto elegante na Serra da Mantiqueira, cuja área se estende pelos municípios de Campos do Jordão, onde está o Bairro dos Mellos, Santo Antônio do Pinhal e São Bento do Sapucaí, começa há 10 anos com a mudança do casal para a região. E faz parte de um projeto maior: criar um novo local de destino, sustentável, envolvendo a comunidade de cerca de 600 habitantes, nessa área que Fernanda batizou de Triângulo da Serra.

O próximo passo desse movimento é o lançamento, neste mês, do Habitat dos Mellos. Trata-se de um loteamento que se apoia em aspectos de empreendedorismo social e vai se enquadrar, assim como já ocorre com o hotel, no conceito de pós-luxo criado por ela, para valorizar a experiência, a originalidade e o bem-estar e não grifes. “É o luxo sem ostentação”, afirma.

Olhando-se para trás, todo o projeto começa, após a mudança, com a interação do casal com os moradores. Primeiro, com a implantação do método pedagógico da Escola Lumiar – os Semler são donos da instituição –, inicialmente em uma escola pública da região “adotada” por eles. Depois, com a inauguração de uma unidade particular e bilíngue da escola.

A metodologia criada por Fernanda é baseada em educação por projetos multidisciplinares, que trabalham várias habilidades e competências. O responsável pela classe é um pedagogo chamado de tutor.

“Trazemos pessoas da comunidade para ‘dar’ os projetos. Pode ser, por exemplo, um marceneiro que vem para construir uma escada ou uma rampa de skate. Assim, o projeto envolve questões de geografia, de física, matemática etc.” Fernanda, que tem quatro filhos, segue os parâmetros curriculares do MEC.

A etapa seguinte do projeto foi a construção do Botanique, resultado de um investimento de R$ 50 milhões, que tem participação minoritária dos empresários Gordon Roddick, cofundador da The Body Shop, e David Cole, fundador do AOL. Fernanda e o marido são majoritários.

Com preço médio de R$ 2,5 mil pela diária, tem 17 quartos, área construída de 17 mil m² e mais de 80 mil m² de área total. A equipe é formada por 40 funcionários, todos moradores do local. Eles estão preparados, diz ela, para atender a todas as necessidades dos hóspedes.

“A gestão do hotel é feita por times, são os meninos da região que foram treinados por nós, e todos eles sabem servir a cama, servir no restaurante. Foram capacitados em todas as áreas do hotel, para fazer o check in, fazer recepção”, conta.

“Então, desde o momento do check in, o hóspede lida com uma única pessoa, que é o âncora da experiência e sabe toda a programação do hóspede, se vai jogar tênis, qual é o horário da sua massagem etc. Cuidam da sua estadia como um todo.” Essa comodidade é uma das características do pós-luxo.

Fernanda diz que o empreendimento está consolidado e já ao fim do primeiro ano de atividade atingiu o ponto de equilíbrio.

“Como nunca acreditei nesse modelo em que a pessoa fala que depois de vender tantas casas vai fazer um hotel aqui um clube ali, dependendo das fases do projeto e do dinheiro que vai entrando, eu tentei fazer a coisa inversa. Criar o hotel, criar esse destino, gerar o emprego, tanto direto para os moradores como indireto para agricultores que fornecem insumos para o restaurante do hotel”, diz Fernanda.

Ao mesmo tempo, incentivou a criação da cooperativa de moradores de bairro, para assumir alguns micronegócios, como foi o caso do Empório dos Mellos, que vende produtos orgânicos da região e também funciona como restaurante. Com essa estrutura implantada, ela decidiu que era hora de comercializar os lofts que farão parte do empreendimento residencial.

“Assim foi se moldando o conceito do Habitat dos Mellos, o de um vilarejo com vida própria, com lofts modernos, entre 80m² e 120m², um ou dois dormitórios, sem muros, de coabitação com a população local, restaurante comunitário, horta comunitária. E que ao mesmo tempo oferece uma vivência moderna no campo. Em que as questões de segurança e de tratamento de água também uma preocupação de todos e com uma associação dos moradores atuante.”

Para ela, com o início da venda dos lofts, que têm três tipos de projetos e cujos valores ainda não estão fechados, chegou o momento de “mostrar que existe esse novo destino, apontar que há algo acontecendo aqui e trazer as pessoas que estejam interessadas nessa nova pegada”. O projeto, de acordo com os responsáveis, inclui todos os itens de desenvolvimento sustentável pregados pela ONU.