Tecnologia assistiva  brasileira ganha mercado e prêmios
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Tecnologia assistiva brasileira ganha mercado e prêmios

Produtos e serviços voltados à melhoria da qualidade de vida de pessoas com deficiência têm por objetivo promover impacto social

CRIS OLIVETTE

09 Abril 2017 | 07h38

CarlosPereira com a mulher Aline e a filha Clara. Foto: Marcus Paiva

CarlosPereira com a mulher Aline e a filha Clara. Foto: Marcus Paiva

Crianças com Síndrome de Down ou doenças do Espectro de Autismo estão sendo alfabetizadas por meio da mesa digital chamada Playtable. Portadores de deficiência na fala e dificuldade motora podem se comunicar baixando o aplicativo Livox em tablets.

A população com deficiência auditiva, que no Brasil chega a 9,7 milhões de pessoas, pôde ampliar a interação com o mundo com o surgimento do ‘Hugo’, intérprete virtual criado pela Han Talk. A ferramenta é um tradutor mobile e dicionário de bolso que converte automaticamente texto e áudio em Língua Brasileira de Sinais (Libras).

O que esses produtos têm em comum? Todos foram produzidos por empresas que atuam no segmento de tecnologia assistiva – produtos e serviços que proporcionam e ampliam habilidades de portadores de deficiência –, e criados por empreendedores determinados a promover impacto social.

Outro ponto em comum, eles foram acelerados pela Artemisia, organização que fomenta negócios com potencial para transformar o País por meio da melhoria da qualidade de vida da população de baixa renda.

Gerente de relações Institucionais da Artemisia, Priscila Martins afirma que as pessoas com deficiência que estão na base da pirâmide são ainda mais desassistidas. “Elas estão impedidas de ter seu desenvolvimento pleno por falta de acesso a produtos e serviços adaptados às suas necessidades. Estão expostas a um circulo vicioso de não prosperidade e desenvolvimento”, afirma.

Dados do IBGE apontam que 24% da população brasileira têm algum tipo de deficiência e representam um mercado potencial de 45,5 milhões de pessoas. No mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a cada sete habitantes do planeta, um vive com algum tipo de deficiência.

Os números demonstram o tamanho de um mercado carente de produtos que proporcionem acessibilidade e inclusão a esse público. O proprietário da Livox, Carlos Pereira, desenvolveu o aplicativo que dá nome à empresa para que ele e Aline, sua mulher, pudessem se comunicar com a filha, Clara, que tem paralisia cerebral. “A comunicação é a necessidade mais básica do ser humano. Segundo a ONU, um milhão de pessoas têm algum tipo de deficiência. Eles formam a maior minoria do planeta e correm maior risco de exclusão”, diz Pereira.

Reconhecimento. Pela iniciativa, o empresário recebeu, na última quinta-feira (6), o Prêmio Empreendedor Social 2016 na América Latina, concedido pelo Fórum Econômico Mundial.

Pereira conta que a empresa também recebeu chancela da ONU por ter desenvolvido o melhor aplicativo do planeta, além de investimento do Google de US$ 550 mil.

No momento, vive com a família e seu time de engenheiros nos Estados Unidos. “Estamos desenvolvendo tecnologia que vai permitir que a comunicação ocorra 20 vezes mais rápida.” O aplicativo está disponível em 25 idiomas e a empresa se prepara para comercializá-lo em 22 países do mundo árabe.

Para que o produto chegue à população de baixa renda, a Livox mantém parceria com a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). “Usuários dos serviços da instituição podem comprar licença vitalícia do aplicativo com desconto de 74%. A licença normal é vendida por R$ 1.350,00.”

Mesmo não conhecendo nenhum deficiente auditivo, o fundador da Hand Talk, Ronaldo Tenório, ficou sensibilizado com o fato de 70% dos surdos terem dificuldade de compreender o português e criou o projeto do aplicativo que funciona como um intérprete para Libras.

Alcance. “O aplicativo gratuito foi lançado em 2013, após um ano de desenvolvimento. Até agora, mais de um milhão de downloads já foram feitos. Em 2014, o MEC comprou 600 mil tablets contendo o aplicativo para serem usados em escolas públicas de todo o País”, conta.

Fundadores da Hand Talk (a partir da esq.) Carlos Wanderlan, Thadeu Luz e Ronaldo Tenório com Hugo, o intéprete virtual

Fundadores da Hand Talk (a partir da esq.) Carlos Wanderlan, Thadeu Luz e Ronaldo Tenório com Hugo, o intérprete virtual

Segundo ele, o modelo de negócio da empresa gira em torno de ações corporativas. “Nosso carro-chefe é o tradutor para sites, tornando-os acessíveis em Libra. Até então, a internet era inacessível para os surdos e as empresas estavam com as portas fechadas para eles. Hoje, temos mais de cinco mil sites usando a ferramenta. Desde pequenos blogs até grandes magazines e instituições como a Pinacoteca do Estado de São Paulo.”

Segundo ele, as empresas pagam assinatura mensal. Os preços variam conforme o volume de acessos. A Hand Talk já ganhou vários prêmios, incluindo um da ONU, de melhor aplicativo social do mundo. “No final de 2016 tive a honra de ser o primeiro brasileiro a receber prêmio da MIT Technology Review, como um dos 35 jovens mais inovadores do mundo”, conta.

Lúdico. A Playmove, de Marlon Souza, comercializa a PlayTable, mesa digital adaptada para ajudar na alfabetização e sociabilização de crianças com Down e Autismo. Fundada em 2013, encerrou 2016 com 3,5 mil unidades comercializadas.

“Estamos em mais de 800 escolas do País, sendo 60% públicas, também aumentamos presença em clínicas de reabilitação e de psicopedagogos, em unidades da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) e da Apae”, diz.

Marlon Souza

Marlon Souza

Segundo Souza, a mesa possibilita trabalho cognitivo e ajuda a desenvolver coordenação motora, atenção, percepção e socialização, por meio dos jogos.

Outro objetivo é ser usada como reforço escolar tanto na alfabetização quanto em operações matemáticas e demais disciplinas do ensino regular. Ela tem mais de 40 jogos, cada um com um objetivo.

Temos distribuidores na Europa, Emirados Árabes e Estados Unidos.”

CIENTISTA CRIA PRÓTESES INTELIGENTES

Desde 2010, a cientista Michele Souza, usa recursos próprios para desenvolver projetos de próteses inteligentes e um exoesqueleto que permite ao cadeirante levantar, andar e sentar.

Seu objetivo é popularizar a tecnologia e torná-la mais acessível. “Passei os últimos anos trabalhando na área de medicina de reabilitação para obter receita para criar a Cycor”, conta.

Fundada em 2013, a empresa se mantém com recursos próprios desde janeiro, quando começou a comercializar placa eletrônica que possibilita a integração entre uma pessoa e uma máquina, que é vendida por R$ 928. “Com ela é possível fazer qualquer mecanismo funcionar obedecendo comandos dados pelo corpo humano.”

Sua intenção é que a partir dessa placa, universidades, centros de pesquisa e outras empresas criem equipamentos. “É a única placa no mundo disponível no mercado para integrar o ser vivo à uma máquina. Ela possibilita o desenvolvimento de cadeiras de rodas e exoesqueletos para tetraplégicos.

Como temos a expertise e já investimos no desenvolvimento, colocamos o produto no mercado para que, a partir dele, pequenas empresas desenvolvam artigos para pessoas de baixa renda, a custo mais acessível”, afirma.

Michele de Souza.

Michele de Souza.

Michele conta que a Cycor também está transformando suas tecnologias em kits educacionais. “O kit contém uma prótese de mão completa em acrílico 4 milímetros, incluindo parafusos, sensores, motor e bateria, para que o produto possa ser montado para fins didáticos.”

Segundo ela, o kit também inclui uma placa Argedon Robotics, hardware de inteligência artificial da Cycor, capaz de ler os sinais emitidos pelo cérebro e transformá-los em um sinal mecânico para efetuar controles diversos.

“O preço previsto para o kit é de R$ 1.860,00. Esse valor não chega nem perto do preço de uma prótese mecânica simples de membro superior. Está é a prótese de mão inteligente mais barata do mundo”, garante.

A empresária diz que para tornar seus produtos mais acessíveis, também está homologando as próteses inteligentes de membros superiores para que possam ser distribuídas pelo SUS.

“Em janeiro, concluímos o desenvolvimento do exoesqueleto. A princípio, está entrando no mercado por R$ 30 mil, mas podemos fazer com que custe 1/3 menos. Para isso estamos firmando parcerias para que seja possível subsidiar parte do custo.”

Michele diz que pessoas de baixa renda poderão usar o crédito acessibilidade, oferecido pelos bancos desde 2012, para comprá-lo. “Inclusive, o nosso voluntário de testes vai ganhar um.”

‘Falamos de negócios escaláveis e que resolvam problemas de milhares’

Priscila Martins, gerente de relações institucionais da Artemisia

Foto: Felipe Gabriel Barboza

A quantidade de pessoas com deficiência é um incentivo a novos empreendedores?
Em um mercado de 45 milhões de pessoas, que representa quase 24% da população brasileira, achamos necessário que o empreendedorismo crie soluções de produtos ou serviços que aumentem ou propiciem o desenvolvimento das habilidades funcionais dessa população, de forma a incluí-la dando mais autonomia. É uma base concreta de oportunidade de negócio, além de ser um setor promissor e de grande impacto.
Além do mercado interno há espaço no exterior?
As soluções brasileiras são inovadoras e disruptivas. Pensando do ponto de vista de negócios, o mercado global é uma grande oportunidade para empreender.
De que forma esses produtos causam impacto social?
Cada solução tem o seu modelo de negócio. No geral, não são focadas na venda ao consumidor final. Este é o enfoque que a Artemisia tenta fomentar nos negócios. O ideal é que sejam oferecidas de outras maneiras. O governo é um canal de venda, para que os produtos sejam oferecidos nas escolas. Mas tem o mercado B2B, porque as empresas sabem que essa parcela da população também consome e que os seus canais de comunicação precisam estar adaptados para essa população. Não só por uma questão de cidadania mas também pela questão de mercado.
O ideal é que sejam negócios tecnológicos?
A tecnologia tem um ponto muito importante que é a escala, um dos pilares do conceito de negócios de impacto social. Não estamos falando de filantropia, falamos de negócios que sejam escaláveis e alcancem e resolvam o problema de milhares de pessoas. Temos muitos empreendedores trabalhando para conciliar a questão financeira com um propósito, são pessoas realmente motivadas com as causas, que tentam desenvolver alguma solução.