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Tecnologia do bitcoin impulsiona novas aplicações e negócios

As transações com moeda virtual seguem em alta e empreendedores encontram outras formas de usar a infraestrutura do blockchain

CRIS OLIVETTE

02 Setembro 2018 | 08h11

Fernando Bresslaw. Foto: Nicolas Melgarejo/Divulgação

No rastro do advento das moedas virtuais, empreendedores estão identificando novas formas de aplicar a tecnologia blockchain – infraestrutura criada junto com o bitcoin para armazenar o registro das transações realizadas e garantir a segurança das operações –, para lançar novos negócios.

“A invenção do bitcoin quebrou paradigmas na criação de sistemas digitais autônomos e descentralizados. Operações que não tinham uma solução automatizada e segura passaram a ter. Essas novas soluções, classificadas de blockchain, estão sendo aplicadas especialmente no registro de dados auditáveis e resistentes à manipulação”, diz o professor de empreendedorismo e criptomoedas da ESPM e Fiap, Fernando Bresslau.

Diretor de inovação do Centro Universitário da Grande Dourados (Unigran), gestor de relacionamento do programa de aceleração InovAtiva Brasil e membro da Associação de Mentores do Brasil, Fabiano Nagamatsu, estudioso do tema, diz que a aplicação da tecnologia está em estudo entre diversos segmentos que exigem elevado grau de segurança.

Fabiano Nagamatsu. Foto: Jéssica Andrade/Divulgação

“O blockchain está sendo adaptado para plataformas que concentram grande fluxo de transações ou de informações. Instituições financeiras começam a adotar o sistema para ampliar a segurança das transações. É uma tecnologia importante para quem resguarda informações sigilosas”, diz.

Uma outra forma de aplicar a tecnologia está em fase de validação. Trata-se do player de vídeos Paratii, que tem entre os fundadores Felipe Pereira. A ideia do negócio começou como projeto de pesquisa e desenvolvimento dentro da produtora de cinema Bossa Nova Filmes, na qual trabalhava.
“Desde 2017, estamos escrevendo códigos e trabalhando para desenvolver a tecnologia que tem como objetivo distribuir vídeo pela internet de forma mais barata que as atuais, mantidas por grandes provedores como Google, YouTube e Amazon.”

Segundo ele, os desenvolvedores da plataforma usam o blockchain da Ethereum (moeda virtual ether), que tem infraestrutura diferente da usada no bitcoin. “Em cima dessa infraestrutura, que é pública e descentralizada, escrevemos o código do nosso produto.”

Além de dois brasileiros, o time de oito fundadores da Paratii conta com desenvolvedores da Itália, Egito e Estados Unidos. “Mais de 30 pessoas já escreveram no código que, por ser aberto, permite que qualquer pessoa contribua.”

Felipe Pereira. Foto: Tomás Xavier/Divulgação

Pereira espera que até o final do ano tenha dinheiro rodando na plataforma. “Nossa monetização não vai depender de anúncios. Queremos colocar em prática um modelo chamado redistributivo, com usuários pagando por algum serviço adicional, como o recebimento por e-mail dos melhores vídeos postados na semana.”

Segundo ele, conforme mais pessoas pagarem pelos serviços, aqueles que já são pagantes receberão parte desse dinheiro. “Todos os assinantes passam a receber um determinado valor cada vez que novos assinantes entrarem no grupo. É um jogo aberto e transparente de construção de uma comunidade, claro que parte do dinheiro será destinada a quem desenvolve os conteúdos.”

Expansão

Enquanto empreendedores exploram novas formas de aplicar o blockchain, o bitcoin, primeira criptomoeda lançada em 2008, também inspira a criação de corretoras de moedas virtuais, como a Foxbit.

“Tal como a ocorreu com a construção do bitcoin, a nossa história também começou no ambiente digital. Somos nove sócios e nos conhecemos em uma comunidade sobre bitcoin no Facebook. Consolidamos nossa amizade por Hangouts e Skype e o contrato social rodou via Correios”, conta o CEO da Foxbit, João Canhada.

Perto de completar quatro anos de atividade, a exchange (corretora que comercializa moeda virtual) já transacionou R$ 5 bilhões na América Latina. “Por enquanto, só trabalhamos com bitcoin, mas até o final do ano vamos incluir novas criptomoedas para negociação.”

Boom

Com 80 funcionários, a receita da Foxbit vem de taxas cobradas nas operações de compra, venda e saque de criptomoedas. “Com o boom do preço do bitcoin ocorrido no ano passado, nosso crescimento foi de 1000% (o maior valor histórico do bitcoin ocorreu em 17 de dezembro de 2017, quando uma unidade da moeda atingiu R$ 62,5 mil. Hoje, o valor está em cerca de R$ 29,4 mil).”

A meta da empresa é atrair mais pessoas para investir nesse ecossistema. “Temos mais de 400 mil clientes cadastrados e queremos chegar a um milhão até o final de 2019.”

Mesmo ainda não tendo sido regulado pelos órgãos monetários do País, ele diz que o mercado de criptomoedas não é proibido e também não é terra sem leis. “O Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já manifestaram que estão acompanhando o mercado e devem propor regras para o setor em médio prazo.”

Regulação

Além disso, a Foxbit segue as boas práticas do mercado financeiro e adota políticas antilavagem de dinheiro, por exemplo. “Neste ano, junto com outras empresas do segmento, fundamos a Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto). Natália Garcia, nossa diretora jurídica, é a vice-presidente da entidade. Com a iniciativa, começamos os trabalhos para a regulamentação do segmento.”

Como country manager da corretora Ripio Brasil, o professor Bresslau acredita que as criptomoedas vieram para ficar. “Seja como ativo financeiro ou investimento alternativo e acessível para compor as economias de cada um, ou como ferramenta para realizar transações financeiras”, diz.

América Latina

Fundado na Argentina em 2012, o negócio chegou ao Brasil no final de 2015. “Nosso objetivo é oferecer carteira mobile digital para acesso a serviços financeiros de maneira geral, entre eles, a compra e venda de criptomoedas, que é o serviço mais utilizado. Na Argentina, já é possível pagar contas, recarregar celular e, até mesmo, pegar empréstimo, conforme o histórico do usuário na Ripio.”

A receita da empresa vem da comissão de 0,5% do valor negociado em operações de compra ou venda de criptomoedas. Bresslau afirma que a empresa tem crescido no Brasil e América Latina. “Na Ripio Latam, somos por volta de 60 colaboradores. No Brasil, a equipe tem dois colaboradores, mas vamos contratar uma ou duas pessoas por mês nos próximos 12 meses. Queremos fechar 2018 com 500 mil usuários e atingir dois milhões até o final de 2019.”

O professor afirma, no entanto, que apesar de o número de pessoas expostas à criptomoeda e que compram criptomoedas como investimento ser crescente, o mesmo não vem ocorrendo com a sua utilização como meio de pagamento.

Nagamatsu diz que no Japão, Rússia e em alguns estados americanos, o bitcoin já é aceito para pagar impostos. “No Brasil, existe o aplicativo BitcoinMap, que informa os estabelecimentos que aceitam criptomoedas. Essas transações crescem de maneira surpreendente e irreversível”, avalia.

PANORAMA

Público
Blockchain é um livro de registro público que armazena todas as transações efetuadas com criptomoedas. A tecnologia é baseada em rede espalhada pela internet e tem milhares de dispositivos que trabalham em conjunto para checar se uma transação é válida. Por contar com muitos dispositivos, o risco de fraude é baixo

Confiança
A tecnologia também é conhecida como ‘protocolo de confiança’, que visa a descentralização como medida de segurança. Ele funciona como livro-razão de forma pública e compartilhada

Utilização
Finanças: protege transações e dados bancários de usuários. Propriedade intelectual: protege contra plágios. Setor jurídico: para registros de data, hora e certificações de documentações. Mídias digitais: certifica registros autênticos e combate piratarias. Emissão de documentos digitais, certificados, direitos autorais, documentos, ações, participações e títulos. Segurança de rede: bloqueia invasões em redes

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