Vigor juvenil chega ao mundo dos negócios

Vigor juvenil chega ao mundo dos negócios

Claudio Marques

12 de agosto de 2013 | 08h02

Os sócios Farah (esq.), Davidoff e Abdalla criaram a PagCom depois de passarem dois anos estudando o mercado

Cris Olivette
Pesquisas recentes indicam que está aumentando o empreendedorismo entre os jovens. Um levantamento feito pela empresa de pesquisa Data Popular, por exemplo, aponta a existência de 1,5 milhão de empreendedores com menos de 24 anos no Brasil.

Segundo o diretor superintendente do Sebrae-SP, Bruno Caetano, até 1997 havia cerca de 4% de empreendedores nessa faixa etária no País. “Nos últimos anos, essa taxa saltou para 13%. O interessante é que 70% dos que optaram pelo mundo dos negócios o fizeram porque identificaram uma oportunidade no mercado, os demais alegaram necessidade. Significa que a maior parte está empreendendo com mais qualidade.”

Gabriel Abdalla, de 21 anos, engrossa as estatísticas. O jovem é sócio de Thomas Farah, também de 21 anos, e de Caio Davidoff, 28 anos, na PagCom. A empresa desenvolve adaptadores que transformam aparelhos de smartphone ou tablet em uma máquina leitora de cartões de crédito e débito. Em atividade desde o final de 2012, a empresa conta com 40 pessoas na equipe e sete mil usuários.

A ferramenta é dirigida a pequenos empreendedores e profissionais liberais que têm necessidade de aceitar cartão de crédito, mas não podem usá-lo, seja pela burocracia ou pelas altas taxas.

Abdalla diz que a ideia de negócio surgiu quando ele e seu primo, Davidoff, estavam em uma loja da Apple, em São Francisco (EUA). “No caixa, tivemos o primeiro contato com o pagamento via iPhone. Ficamos malucos com aquilo. De volta ao Brasil, passamos 2010 e 2011 fazendo estudo de mercado, antes de lançar o produto.”

O curioso é que a PagCom é a terceira empresa dos primos. “Quando eu tinha 15 anos criamos a loja online Flora Flores, que será reativada em breve. E em 2008, fundamos a BRX, que produz caneta digital e faz gestão eletrônica de documentos”, conta Abdalla. 

Aos 23 anos, os fundadores da Betalabs, que desenvolve sistemas de gestão e de e-commerce, Felipe Cataldi e Luan Gabelini, são empresários há dois anos e meio. “Estávamos perto de concluir o curso de administração na Fundação Getúlio Vargas quando começamos o negócio”, diz Cataldi.

Segundo ele, o carro chefe da Betalabs é o software Gestão Já, voltado para micro e pequenas empresas. “Esse é nosso maior diferencial. Queremos que os pequenos tenham acesso ao gerenciamento de suas finanças a um custo acessível, a partir de R$ 99 por mês. Mas, para nossa surpresa, também atingimos muitos negócios de porte médio. Hoje, temos pacotes que ultrapassam os R$ 50 mil.” 

Com mais de 100 clientes no portfólio e empregando 25 funcionários, a empresa adota a meritocracia para estimular a equipe. “Nos inspiramos muito no pessoal da Ambev. Um livro que não sai de nossas cabeceiras é o Sonho Grande, que conta a história dos três sócios.”

Cataldi diz que desde o início a empresa oferece bônus. “Todos recebem até três salário de bônus por semestre de acordo com o cumprimento de suas metas. Temos um funcionário que entrou como estagiário, foi efetivado e virou sócio. Tudo ocorreu em um ano e meio”, diz. Segundo ele, a empresa deve faturar R$ 2 milhões este ano e cerca de 30% dos resultados serão distribuídos em bônus entre os melhores funcionários.

Hoje, com 32 anos, o empresário Cassiano Antequeira começou aos 20 anos. “Para iniciar a empresa de auditoria ADTR, tive de ser emancipado pelos meus pais”, relembra. Em 2007, aproveitando o conhecimento que adquiriu auditando shoppings, criou seu segundo negócio. A agência web Esperienza é especializada em criar portais e intranet para shoppings.

“Atualmente, quatro mil lojistas de 11 shoppings usam a Intranet Mall, ideal para reduzir a burocracia e a utilização de papéis na comunicação interna. Até o momento, contabilizamos a economia de mais de 230 mil folhas de papel.” Antequeira conta que é adepto do crescimento orgânico. “Não pretendo dobrar de tamanho rapidamente, porque não terei estrutura para atender bem meus clientes.” 

Segundo ele, para se manter no mercado é preciso evoluir a ferramenta. “A cada novo cliente que conquistamos, implantamos novos recursos para atender suas necessidades.”

‘Empreendedorismo se aprende na escola’

O diretor-geral da Endeavor, Juliano Seabra, afirma que a percepção de que o empreendedorismo pode ser uma opção a ser seguida pelos jovens vem aumentando. “Fizemos uma pesquisa com mais de 600 universitários de doze instituições de ensino. O resultado mostra que 64,6% dos estudantes se consideram potenciais empreendedores, ou já possuem seu próprio negócio.” A Endeavor é uma instituição que estimula o empreendedorismo.

Seabra ressalta, no entanto, que metade dos que demonstraram essa vontade não estão fazendo nada para transformar o desejo em realidade. “As universidades estão muito atrasadas na formação empreendedora dos estudantes.” 

O diretor superintende do Sebrae-SP, Bruno Caetano, concorda que existe um vácuo na educação empreendedora no País. “Temos alertado as instituições de ensino de que é preciso preparar melhor esse jovem desde o ensino fundamental, estimulando o despertar de um comportamento empreendedor, que deve se tornar mais complexo à medida que ele vai amadurecendo.”

Caetano afirma que o Sebrae incentiva que todos os cursos universitários tenham pelo menos um semestre de empreendedorismo. “Nós temos uma parceria com a Unesp onde isso já funciona. Não basta ser um bom profissional e ser um fracasso na gestão de seu consultório ou escritório. Defendemos que o empreendedorismo se aprende na escola.”

Para suprir essa lacuna, as duas instituições oferecem algumas opções de capacitação. A Endeavor, por exemplo, tem o programa de educação à distância ‘Como criar uma startup de sucesso com poucos recursos’, que aponta os principais erros e acertos que jovens empresários podem cometer.

“Temos também um programa em parceira com algumas universidades que é o Bota pra Fazer. Trata-se de uma plataforma criada para turbinar a educação para o empreendedorismo nas instituições. No próximo ano o programa deve atingir mais de 35 mil alunos de graduação de todo o Brasil”, afirma o diretor do Endeavor.

Já Caetano diz que a grande novidade é o lançamento da Etec e Fatec Sebrae, em parceria com o Centro Paula Souza. “A partir de fevereiro, nossa escola de negócios de nível técnico e tecnológico estará funcionando em um prédio localizado na região da Nova Luz.”

Segundo ele, os cursos serão voltados à gestão de pequenos negócios. Inicialmente, serão oferecidos cinco cursos. Três de nível técnico, com duração de um ano e meio, que pode ser integrado com o ensino médio. E dois de nível superior, nas áreas de marketing e administração, com duração dois anos e meio e três anos, respectivamente. “Também teremos uma incubadora de startups e cursos de especialização. Quando todas as turmas estiverem em atividade teremos dois mil alunos”, conclui. 

Caetano afirma que os cursos serão gratuitos e que o processo seletivo vai ocorrer em outubro, integrado ao processo seletivo do Centro Paula Souza.

Seabra e Caetano dizem que a falta de preparo condiciona ao erro. “O principal é pecar pela ingenuidade e por não acreditar que precisa entender bastante do negocio”, avalia Seabra.

Já para Caetano, é preciso romper com mitos. “Não é verdade que eles têm mais chance de quebrar. As taxas de mortalidade de empresas lideradas por jovens são muito semelhantes às de empresas chefiadas por pessoas mais maduras.”

Segundo Caetano, o erro maior é a falta de capacidade de gestão. “Mas o que considero mais importante é que o mundo do empreendedorismo já é o principal sonho dos jovens”, ressalta.

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