A responsabilidade dos sindicatos

A responsabilidade dos sindicatos

Comportamento dos salários e negociação de reajustes serão fundamentais para o sucesso no combate à inflação

Zeina Latif

23 de outubro de 2015 | 16h00

Foto: Divulgação

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Uma variável chave para o sucesso no combate à inflação é o comportamento dos salários. Quanto mais indexados à inflação passada, pior. Alimenta-se a espiral inflacionária e, de quebra, compromete-se a geração de empregos. As duas coisas ao mesmo tempo: inflação e desemprego mais elevados. No final, todos perdem, empregados e empregadores. É só uma questão de tempo. Pouco tempo, considerando o quadro atual da economia brasileira, com inflação já bastante elevada e quadro recessivo.
Os ajustes salariais, portanto, precisam ser monitorados de perto.

A PNAD trimestral do IBGE mostra que o ajuste salarial médio nos últimos quatro trimestres finalizados em junho foi de 7,9% na variação anual. Na PNAD mensal, a cifra foi de 11,1% em julho. Cifras elevadas e em aceleração. Em junho do ano passado, o aumento chegou a 4,6% anual.

Na abertura por regiões, centro-oeste, norte e nordeste registraram aumentos mais contidos, em torno de 6% nos quatro trimestres até junho. No outro extremo, o sudeste, a alta foi de 9,3%, e no sul, 7,7%. Pode-se notar que regiões mais sindicalizadas exibem ajustes mais robustos.

Porém, isso não é necessariamente bom para o trabalhador. As regiões com ajuste salarial mais modesto apresentaram maior crescimento do emprego. Em torno de 1,8% no eixo NO-NE e 0,3% no SU-SE. Esse resultado não surpreende. As empresas precisam, de alguma forma, ajustar a folha de pagamento em função da queda da produção. Se o ajuste não for via salários reais, será via cortes na ocupação, o que, por sua vez, pode prejudicar a operação eficiente da empresa.

É crucial que os aumentos salariais sejam compatíveis com os ganhos de produtividade da economia. Como há sinais de que a produtividade vem encolhendo, em função das baixas taxas de investimento passadas e do intervencionismo estatal desastrado dos últimos anos, o quadro preocupa.

No nível da empresa, isso significa mais encolhimento de margens e menos incentivo à produção. O setor produtivo já vinha sendo impactado desde 2010 pela inflação de salários, decorrente dos estímulos excessivos à demanda no passado. Este ano, mais um golpe, que é a pressão de custos advinda da expressiva depreciação cambial. Os indicadores de inadimplência da pessoa jurídica não deixam dúvidas quanto às dificuldades financeiras enfrentadas pelas empresas.

É neste contexto que sindicatos buscam ganhos salariais em termos reais (acima da inflação). E a resposta das empresas tem sido demitir ou substituir trabalhadores mais caros.

Os empregos com carteira recuaram 2,2% em agosto em relação a agosto de 2014, segundo o MTE. Na média de 12 meses o recuo foi de 0,1%, o que mostra que o quadro vem se agravando ao longo deste ano.
Uma válvula de escape tem sido o aumento do emprego informal. A PNAD, que engloba mercado formal e informal, indica aumento de 0,3% da ocupação total em julho na variação anual e 0,9% na média de 12 meses.

Consolidando as informação de PNAD e Caged (uma aproximação apenas, pois são metodologias diferentes, sendo a primeira uma pesquisa amostral e a segunda registros efetivos no MTE), conclui-se que o emprego sem carteira cresceu em julho 2,8% na variação anual e 4,6% na média de 12 meses, mas já está desacelerando com o agravamento da crise.

A troca de trabalhadores mais caros por outros mais baratos é indicada pela razão entre salário de admissão e demissão, que está em queda, segundo o MTE. Essa troca pode significar trabalhadores menos produtivos, o que também prejudica as empresas.

Há uma rigidez de salários reais (salários descontando a inflação) no Brasil. Uma evidência disso é que as variações de rendimentos nominais de trabalhadores sem carteira têm sido mais modestas do que dos com carteira assinada. Pela PNAD, a variação média foi de 5,3% e 7,8% nos últimos 12 meses até julho, respectivamente. A inflação média no período foi de 7,6% pelo IPCA. Houve, portanto, indexação plena de salários com carteira, apesar de fatores pontuais estarem afetando a inflação este ano.

A rigidez de salários reais é fonte de preocupação. Ainda que sindicatos e trabalhadores celebrem no curto prazo, no médio e longo prazos isso é má notícia para todos. Este é um preço relativo importante na economia, e sua rigidez traz consequências para o funcionamento do setor produtivo.

Por outro lado, a baixa resistência de empregadores em aceitar o ajuste salarial pedido pelo trabalhadores não demostra apenas o poder dos sindicatos e o risco de judicialização – os tribunais com frequência determinam o repasse pleno da inflação a salários, independente das condições da economia -, mas a intenção de repassar a preços finais o ajuste salarial.

Nos últimos anos, o repasse a preços no setor manufatureiro foi mais limitado, em função da concorrência do importado. O mesmo não vale para o setor de serviços, que têm mais graus de liberdade para ajustar preços. Não à toa a inflação de serviços é mais elevada.

De qualquer forma, no quadro atual de pressão cambial e após anos de não cumprimento da meta de inflação, é crucial monitorar a capacidade de repasse de custos aos preços finais. Os sinais não são muito animadores. A inércia inflacionária aumentou nos últimos anos e os repasses do câmbio parecem estar aumentando.

Quanto mais a memória inflacionária influenciar a formação de salários e preços ao consumidor, com as empresas se arriscando mais a repassar custos, pois enxergam taxa de inflação elevada, mais difícil será o trabalho do Banco Central para trazer a inflação de volta para a meta.

Todos têm uma parte neste latifúndio.

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