A volta da normalidade

É preciso avançar em reformas para superar crise e reverter o clima de pessimismo entre empresas e consumidores

Zeina Latif

05 de maio de 2016 | 16h43

O estresse econômico vivido desde 2014, que se agrava a cada dia, gera um anseio da sociedade pela volta da normalidade no País. Empresas e consumidores querem poder voltar a planejar o futuro, deixando para traz o cenário de inadimplência, quebras e desemprego.

A normalidade pressupõe equilibrar a macroeconomia, o que significa vislumbrar no horizonte a estabilização da dívida pública como proporção do PIB, a convergência da inflação para a meta de 4,5%, a Selic em trajetória de queda e o País crescendo em linha com o potencial.

A meta pode não parecer ambiciosa, mas é. Tendo em vista o quadro atual da economia, o desafio é grande. Significa interromper o processo de piora, garantir que os próximos meses ao menos não sejam piores do que os atuais. A frase “mudar para continuar o mesmo”, ainda que batida, reflete de forma adequada o momento atual. A volta à normalidade exige avanço na agenda de reformas. O velho receituário de controle de despesas pela “boca do caixa” e aumento da carga tributária não funciona mais.

Os primeiros passos importam. O primeiro desafio do provável próximo governo será o desenho de uma agenda econômica corajosa e crível, de forma a recuperar a confiança dos agentes econômicos. Propósitos claros, prioridades bem definidas, policy makers competentes e articuladores políticos hábeis e com reputação.

A melhora da confiança poderá trazer benefícios já no curto prazo. Além do recuo das expectativas de inflação e das taxas de juros no mercado, é possível, por exemplo, ter sinais mais positivos no mercado de trabalho e no mercado de crédito privado, apesar do quadro macroeconômico frágil.

A confiança de consumidores e empresários parece ter estabilizado após longa sequência de quedas. Mas é cedo para celebrar. São patamares recordes de pessimismo, que podem, por si só, ajudar a conter novos recuos da confiança. Alguns fatores de curto prazo podem também estar ajudando a estancar a sangria da confiança, como o fim do ajuste de estoques e de custos/despesas de empresas/consumidores, e o impulso (ainda que modesto) do setor externo. Não se pode descartar a expectativa de impeachment impactando a confiança. No entanto, os fundamentos ainda são frágeis e, na ausência de reformas, a melhora da confiança poderá não se concretizar.

Os indicadores do mercado de trabalho, como o número de horas trabalhadas na indústria e a razão entre ocupados e PIB, sugerem que há mais demissões por vir, principalmente do setor de serviços, que é o que mais emprega. Há muitas pessoas empregadas, porém ociosas. Ocorre que demitir é uma decisão difícil e cara. Além do elevado custo monetário, a empresa abdica de uma mão-de-obra treinada e mais experiente, principalmente em estágio mais avançado do ajuste da folha, quando trabalhadores menos qualificados já foram dispensados. Há indicações nesse sentido com o aumento de demissões de chefe de família, que são trabalhadores geralmente mais experientes.

Isso dito, se empresários, mais confiantes, resolverem tirar o dedo do gatilho das demissões, dando o benefício da dúvida ao novo governo, isso contribuirá para a recuperação cíclica da economia adiante. Desnecessário dizer que medidas adicionais são necessárias para que essa recuperação ocorra de forma sustentável.

Sobre o mercado de crédito, é possível que bancos privados, aos poucos, comecem a afrouxar as condições de crédito, após expressivo recuo, com a perspectiva de uma agenda econômica crível que reduza o grau de incertezas econômicas. Não haveria razão para volta rápida do crédito, pois as taxas de inadimplência estão em alta, sem sinais, por ora, de acomodação. No entanto, ainda que conservadores – o que é compreensível à luz da insegurança jurídica do País -, os bancos tendem a ser zelosos em preservar seu market share. Medidas que reduzam os riscos e custos no mercado de credito são bem-vindas.

Vale mencionar que os atuais patamares de concessão de crédito livre para pessoa jurídica remontam a 2004, descontada a inflação, enquanto para pessoa física voltou-se ao patamar de 2008. Quando descontada a concessão de crédito via cheque especial e cartão de crédito rotativo, que são as linhas com menos restrições impostas pelos bancos, o retrato é ainda mais severo. Em outras palavras, o crédito sumiu.

A luz do expressivo recuo recente, a oferta de crédito privado poderá ser uma das primeiras variáveis a voltar à normalidade. E a oferta de crédito menos restritiva ajudaria a conter a inadimplência de empresas com problema de liquidez e dificuldade de acesso ao crédito.

Os acertos na largada são, portanto, essenciais. Encurtam o caminho para a normalidade e aumentam suas chances. O lado bom disso tudo é que, aparentemente, o time de Temer compreende isso.

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