Nem tudo o que cai sobe

Nem tudo o que cai sobe

No Brasil, o investimento é mais sensível na queda do que na alta do ciclo econômico

Zeina Latif

03 Junho 2016 | 15h49

É natural que o ciclo de investimento em um país seja mais volátil do que o ciclo do PIB, afinal as decisões de investimento são as mais impactadas pelo quadro econômico em comparação ao consumo das famílias e os gastos do governo, que têm comportamento mais estável.

O que tem de curioso no passado recente do Brasil é que o investimento cai mais na fase baixa do ciclo econômico do que sobe na fase de alta, fazendo com que o crescimento acumulado do investimento fique abaixo do crescimento do PIB. Esse retrato distingue o País dos países vizinhos que têm ciclo econômico e regime de política econômica similares ao do Brasil, ainda que com ambiente macroeconômico mais estável, como Chile, Peru e Colômbia.

Fazendo um balanço desde 2000, o que se observa é que na fase descendente do ciclo econômico, com desaceleração do crescimento ou contração do PIB, a variação anual do investimento ficou 5,3% abaixo da variação anual do PIB, enquanto na que fase ascendente, a variação do investimento ficou 4,5% acima da variação do PIB (utilizando dados trimestrais). Em outras palavras, o investimento é mais sensível na queda do que na alta do ciclo econômico.

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Construção civil é um setor que exemplifica o movimento (Foto: Reuters)

Comparando esses número com o dos “vizinhos arrumados”, as cifras são em média 4,8% e 7,7%, respectivamente. Portanto, o ciclo de investimento não é mais acidentado ou volátil no Brasil na comparação com os vizinhos, mas é menos virtuoso, principalmente pela sua baixa capacidade de reação na fase de alta do ciclo econômico.

O que se discute não é o fato de a taxa de investimento ser baixa como proporção do PIB no Brasil, ainda que este seja um corolário do quadro descrito acima, mas sim o seu ímpeto mais modesto nos momentos de crescimento econômico. Isso mesmo com o avanço do investimento público, com aumento médio de 17% ao ano entre 2006-10, um período de alta do ciclo econômico.

As taxas de juros muito mais elevadas no Brasil podem ser um fator limitante do investimento. Afinal, juros elevados significam que projetos de investimento com retorno mais modesto são descartados. É importante, no entanto, ir além dessa explicação, pois a taxa de juros elevada não é algo que se altera com voluntarismo. Cortar juros a qualquer custo não é uma opção de fato disponível de política econômica.

Para além desse ponto, três ponderações. Primeiro, mesmo com a expressiva ampliação do crédito subsidiado do BNDES (11% do PIB em abril de 2016 ante 5,9% em dezembro de 2006) e do crédito imobiliário, também subsidiado, direta ou indiretamente (9,7% do PIB em abril/16 ante 1,7% em dez/06). É verdade que o resultado pode ser reflexo de um desenho equivocado das políticas públicas. De qualquer forma, vale o registro que reduzir taxa de juros não resolve o problema do investimento.

Segundo, abrindo o comportamento do investimento (formação bruta de capital) entre consumo aparente de máquinas e equipamentos e produção de insumos da construção civil, o que se nota é que é a construção civil que produz este padrão de contrair mais na fase baixa do ciclo e subir menos na alta, o que não ocorre no consumo de máquinas e equipamentos. Esse resultado reforça que a taxa de juros é fator limitador do investimento, mas não explica sozinha a fraqueza do ciclo de investimento. Se a taxa de juros elevada tivesse papel tão central, o padrão comportamento desses dois grupos seria mais uniforme.

Terceiro, o México, assim como o Brasil, também enfrenta essa assimetria de reação do investimento a fases descendente e ascendente do ciclo econômico, apesar de ter taxas de juros muito inferiores (a taxa básica de juros está em 3,75% e a taxa real ex-ante está em 0,5%; no Brasil, 14,25% e 7,6%, respectivamente) e ambiente macroeconômico mais estável.

Assim, outros fatores concorrem para explicar a fraqueza do ciclo de investimento. E o candidato natural é o ambiente institucional do país.

No Brasil, a insegurança jurídica e regulatória estão na raiz da fraqueza do investimento, principalmente em infraestrutura. O México, por sua vez, sofre as consequências de um Judiciário fraco, com baixa aderência ao estado de direto e ao cumprimento (enforcement) de leis e regulações, além dos problemas com segurança. Esse quadro implica elevada informalidade no país e mercado de crédito muito restrito, reforçando o quadro de menor vigor do investimento.

A posição do Brasil nos rankings globais de competitividade diz muito sobre a fragilidade do país. No Doing Business, por exemplo, o Brasil está na posição 116 enquanto os “vizinhos arrumados” estão ao redor de 50.

Outro elemento que pode fazer diferença é o fato de a economia brasileira ser muito fechada, o que significa menor incentivo ao investimento e à inovação. Levando em conta não apenas a corrente de comércio, que tende a ser pequena em países com mercado interno robusto, mas também as políticas comerciais, o Brasil é considerada uma das economias mais fechadas no mundo.

Mesmo assumindo o sucesso do governo na agenda de estabilização da economia, a retomada do investimento não virá tão cedo. Há elevada ociosidade de fatores na economia (nível de utilização da capacidade instalada está em 74% ante 77% no auge da crise global de 2008/09) e há excesso de oferta no mercado imobiliário. Além disso, a capacidade de investimento do setor público, que representa algo como 18% da formação bruta total, estará comprometida por muito tempo.

Que esta dura realidade seja incentivo para avançarmos na agenda microeconômica, que daria maior capacidade de investimento ao setor privado. A saída via aumento da oferta de crédito subsidiado, demanda usual do setor produtivo, seria equivocada. Precisamos mudar o disco.

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