O timing do Brexit

Estourou a bomba e vai demorar para se ter clareza quanto às consequências deste evento, que por si só não está claro

Zeina Latif

24 Junho 2016 | 19h30

O resultado do referendo no Reino Unido de abandonar a União Europeia traz mais incertezas ao já delicado cenário global. A lista de perguntas sobre as consequências do Brexit é extensa e será impossível saber a dimensão do seu efeito tão cedo. Uma coisa é certa: o momento do Brexit é bastante infeliz.

As consequências na política, na economia e no quadro social no Reino Unido, em ambiente de maior insegurança institucional, e seus impactos dentro e fora da Europa, inclusive nos Estados Unidos, são grande interrogação. Enfim, estourou a bomba e vai demorar para se ter clareza quanto às consequências deste evento, que por si só não está claro. Não se sabe ao certo que tipo de ruptura ocorrerá. Haverá um meio do caminho no rompimento das relações com a União Europeia? Qual será o cronograma de ajuste? Que solução será negociada?

O que está em jogo é o risco de o Brexit ganhar dimensão de uma crise global. O Reino Unido tem papel importante na dinâmica global, pelos canais comerciais e, principalmente, financeiros. Além disso, poderá acarretar instabilidade política em outros países nesses tempos de mudanças de crenças e valores nas sociedades. Países europeus em que a sociedade se sente pouco beneficiada por participar da União Europeia e que sofre com taxas elevadas de desemprego poderão se inspirar no Reino Unido e desafiar seus governantes.

É prematuro dizer que os emergentes serão pouco afetados, por possível avaliação de que se trata de uma crise localizada em países avançadas. Essa mesma percepção ocorreu em 2009, passado o susto inicial da concordata da Lehman Brothers em setembro de 2008. Mas lá o quadro era diferente. Naquele momento, os países emergentes, contando com fundamentos mais sólidos, embarcaram em políticas anticíclicas de peso, que sustentaram as economias. Com preços de commodities em alta e recuperação do comércio mundial, os países emergentes ficaram mais blindados da crise global. Não é o caso agora.

A economia mundial está frágil, tanto para economias avançadas, como para emergentes, podendo potencializar o efeito perverso do Brexit. Temores de recessão mundial tendem a ser alimentados. A exaustão do uso de estímulos monetários nos países avançados e o ajuste nas políticas econômicas nos emergentes sugerem que são escassos os instrumentos anticíclicos. Agendas estruturais se impõem, o que exige maior esforço dos governantes. O quadro global é delicado e não aceita desaforos.

No quadro de enfraquecimento econômico mundial, a China é destaque. Seu ciclo de desaceleração não se completou, enquanto provavelmente o potencial de crescimento está encolhendo. Não se trata, portanto, apenas de movimento cíclico, mas também estrutural. Os mais pessimistas, como Michael Pettis, falam em algo como 3%-4% de crescimento na próxima década. O consenso entre analistas está mais para 5%. De qualquer forma, haveria mais desaceleração adiante.

A China sofre a reversão de movimentos da década passada – demografia favorável e investimentos acelerando – que reduz seu potencial de crescimento. Este último dependerá muito mais de ganhos de produtividade do que no passado, que poderão vir de reformas estruturais. O problema é que a agenda estrutural não deverá ser rapidamente entregue. A agenda econômica da China parece hoje mais comprometida em sustentar algum crescimento de curto prazo e encontrar solução para problemas de crédito no país.

O mundo emergente desacelera, em parte pela própria contaminação da China, em parte por correção de excessos de políticas anticíclicas do passado. Paralelamente, o enfraquecimento das moedas dos emergentes desencadeou uma queda importante nas importações (-1,7% em volume na média dos últimos 12 meses até abril), enfraquecendo o comércio mundial, que já vinha perdendo fôlego. O comércio mundial está praticamente estagnado, enquanto o risco de protecionismo se eleva.

O mundo emergente, que hoje tem peso ligeiramente maior no PIB mundial, acaba contaminando o desempenho das economias avançadas. É isso que revelam os testes de causalidade entre o desempenho de emergentes e avançados. O Brexit é tremendo agravante. O risco de recessão na Europa cresceu, bem como no Japão, com implicações para o mundo emergente. Círculo vicioso.

Crescimento mundial mais modesto e desacelerando e comércio mundial estagnado, enquanto a capacidade de reação dos países parece limitada. Este é o retrato do mundo atualmente. O risco de uma crise global aumentou. O Brexit é tudo que o mundo não precisava agora.