Quanto pesa a inflação de alimentos?

Zeina Latif

16 Junho 2016 | 18h16

A inflação de alimentos não dá trégua. Seu custo social é indiscutível e sua influência no comportamento das taxas de inflação pode tirar o sono do Banco Central. Para piorar, como alimentos são bens essenciais (a demanda é mais inelástica, no jargão dos economistas), seus preços são particularmente sensíveis às condições de oferta e a pressões de custos, o que limita a capacidade do Banco Central de combater a inflação de alimentos.

Além de pesar no índice cheio de inflação, a inflação de alimentos, por sua maior “visibilidade”, exerce influência na formação de outros preços da cesta de consumo das famílias, notadamente serviços. Ao gerar uma percepção de inflação alta, a inflação de alimentos tende a fortalecer a indexação informal da economia. Um prestador de serviço ou empresa tende a avaliar da seguinte forma: ora, se tudo está subindo, por que eu não posso ajustar os preços dos meus serviços ou produtos?

Cabe ao Banco Central uma postura vigilante para que a inflação de alimentos não seja mais sensível a choques (efeitos primários) do que o usual e não contamine de forma mais acentuada os demais preços da economia (efeitos secundários), em função de excesso de demanda agregada na economia. Quando a economia está mais aquecida e as condições monetárias relaxadas, efeitos primários e secundários de choques tendem a ser mais exacerbados.

A inflação de alimentos tem apresentado comportamento mais rígido desde 2011, tendo acelerado ao longo do ano passado, atingindo dois dígitos em meados do ano. Será difícil vislumbrar uma queda das taxas de inflação (índice cheio) em direção à meta de 4,5% sem a devida descompressão na inflação de alimentos.

Eventos climáticos, como El Niño, certamente têm importante parcela de culpa na pressão de preços em alimentos, pois o fenômeno em 2015 foi um dos mais fortes nos últimos 50 anos e o mais forte desde 1997-98. Além disso, e mais importante, a pressão cambial do ano passado, superando o movimento de queda de preços de commodities agrícolas (o índice de commodities agrícolas do BC, calculado em reais, subiu 27% no ano passado) teve influência direta sobre a inflação de alimentos.

El Niño e aumento da cotação do dólar foram os principais condicionantes da inflação de alimentos recentemente. Todos esses choques (liquidamente) adversos não são exclusivos ao Brasil. Os países vizinhos da América Latina sofreram com este quadro, tornando, portanto relevante uma análise comparativa. A ponderação a ser feita é que o El Niño não impacta igualmente a produção de alimentos dos países. Peru e Chile, por exemplo, foram preservados, ao contrário de Brasil e Colômbia.

Mas não é só nesse quesito que Colômbia e Brasil estão em posição semelhante. Ambos sofreram acentuada depreciação de suas moedas. Em 2015, a depreciação do peso colombiano foi de 38%, e a do real, 46%. Enquanto isso, Chile e Peru tiveram suas moedas depreciadas em 15% e 14%, respectivamente, praticamente em linha com a queda de preços de commodities agrícolas (17%, segundo o FMI).

No caso da Colômbia, a razão para a pressão cambial foi a acentuada queda da cotação do petróleo, uma commodity bastante importante para o país, e que foi uma das que mais sofreu no ano passado. Já no Brasil, a razão foi principalmente de ordem interna. A crise política e econômica produzida pelo governo, refletida no diferencial do risco-Brasil em relação ao dos demais países (CDS do Brasil em torno de 500 pontos-base ao final de 2015, contra 240 da Colômbia), penalizou bastante o real.

Desta forma, com dois choques adversos relevantes – depreciação cambial e evento climático -, tanto Colômbia como Brasil sofrem com a elevada inflação de alimentos, em ambos na casa de 13% ao ano. As expectativas inflacionárias também se descolaram. A expectativa inflacionária para os próximos 12 meses está em 4,4% (a meta é 3%) na Colômbia e 5,9% no Brasil (meta de 4,5%).

Adicionalmente, na Colômbia, o núcleo de inflação que exclui alimentos e preços administrados está em 6,1%, depois de ter fechado 2014 em 2,8%. Restam poucas dúvidas de que a culpada é a depreciação cambial. No Brasil, esta mesma medida de núcleo está em 7% ante 5,6% em 2014. Assim, comparado à Colômbia, a aceleração do núcleo de inflação no Brasil foi mais contida.

É razoável afirmar que os efeitos primários e secundários dos choques adversos têm sido relativamente mais contidos do que em episódios de choques no passado recente, como em 2013. Ou seja, a inflação de alimentos poderia estar ainda mais elevada, bem como sua contaminação sobre outros preços, não fosse a crise econômica e as condições monetárias mais apertadas ajudando a conter o impacto de choques.

Assim, a inflação de preços livres, atualmente em torno de 9%, não pode ser tomada em sua totalidade como medida adequada do enfraquecimento do regime de metas e da credibilidade do Banco Central, ainda que o passado recente nos condene. A comparação com a Colômbia ajuda nesta avaliação. Até mesmo um país com regime de metas de inflação com credibilidade tem sofrido com a elevação da inflação.

Superados os choques citados acima, é esperado, portanto, o recuo da inflação de alimentos. Não há sinais de “patologias” inflacionárias, ainda que esta se mostre mais rígida. Mas as boas notícias ficam por aqui. Não parece provável que a inflação anual de alimentos volte a um dígito até o final do ano, inclusive porque os preços de commodities agrícolas voltaram a subir – a inflação agrícola no atacado atingiu 28% a.a., com sinal de mais aceleração. A inflação de alimentos continuará a limitar a ação do BC por algum tempo ainda, gerando incertezas sobre a velocidade de convergência da inflação à meta.

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