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Governança ajuda no relacionamento entre empresas e seus públicos?

29 de Setembro de 2015 | 00:00
Atualizado 01 de Outubro de 2015 | 14:16

Divulgação

O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) define Governança Corporativa  como o sistema pelo qual as organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo as práticas e os relacionamentos entre proprietários, conselho de administração, diretoria e órgãos de controle.

De acordo com o instituto, as boas práticas de Governança Corporativa convertem princípios em recomendações objetivas, alinhando interesses com a finalidade de preservar e otimizar o valor da organização, facilitando seu acesso ao capital e contribuindo para a sua longevidade.

Nesse contexto, a política de divulgação de informações de uma empresa deve ser feita de forma ampla e transparente, com diretrizes bem definidas e de conhecimento de todos, para orientar a forma de fazer negócios da compahia e o relacionamento com os públicos da organização, como a diretoria executiva, acionistas e a própria sociedade.

Mas como fazer com que a governança "saia do papel" e se transforme numa ferramenta para melhorar o relacionamento de empresas com seus públicos? Leia as análises de especialistas e dê a sua opinião!

Os altos e baixos da governança
Os altos e baixos da governança

Ricardo Garcia

IBRI

Governança corporativa é algo que permeia totalmente a nossa atividade diária. Hoje em dia, o investidor está atento a diversas variáveis, e a governança se torna cada vez mais um diferencial.
 
Infelizmente, somente as regras dos segmentos de governança da BM&FBovespa não são mais suficientes. A governança precisa estar não só no carimbo, mas também no dia a dia da empresa, deve ser sua vocação, e não ficar apenas no papel.
 
A perda do grau de investimento pela agência de classificação de risco Standard and Poor's é algo negativo por si só. Nesse contexto, as questões de governança envolvem, além da representatividade, a condição de administrar os negócios com o máximo de diligência. É importante, por exemplo, não ter uma alavancagem muito grande, olhando para os prováveis impactos que isso teria junto a fornecedores, credores, etc. Tudo entra em um pacote único.
 
Hoje em dia, todos os entes de uma empresa precisam pensar que estão no mesmo barco, todos devem trabalhar a favor da companhia como um todo. Quanto aos fornecedores, é importante que eles tenham conceitos de governança próximos aos da empresa, para que haja perenidade na parceria.
 
O tema governança corporativa tem momentos de altos e baixos nas companhias. Isso porque a própria evolução do conceito de governança faz com que as empresas se movimentem nesse sentido. Uma nova norma que estimule as companhias a melhorarem suas práticas faz com que o assunto volte à pauta. Conforme é absorvida pelas organizações, o tema tende a esfriar não porque perdeu a importância, mas porque se incorporou ao dia a dia.
Ricardo Garcia,

vice-presidente do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (IBRI)

 
Visão de longo prazo
Visão de longo prazo

Marcela Milano

Matec Engenharia

As pessoas precisam conhecer a empresa em que pretendem trabalhar, esse é um de nossos princípios. Assim, no relacionamento com colaboradores, promovemos mais transparência ao fugirmos da estrutura de comando e controle e partimos para uma outra em que todos conhecem o negócio de maneira mais profunda.
 
Por isso, temos um processo diferenciado de seleção de estagiários. Desde o início, conversamos com os candidatos e estabelecemos contato com quem tem interesse em conhecer a empresa para, a partir daí, escolhermos os perfis.
 
Como esse é o primeiro emprego de muitos candidatos, procuramos trabalhar com a visão de futuro dos estagiários, oferecendo o contato com diversas áreas da empresa. Ao final desse primeiro contato, os candidatos apresentam projetos para uma banca examinadora composta por diretores e gerentes da empresa, a etapa final da seleção.
 
Hoje, a mudança em como a companhia enxerga seus funcionários está acontecendo no mercado como um todo. O colaborador não ter a mentalidade de dono da empresa é algo que não funciona no curto prazo.
 
Em relação a fornecedores, temos melhorado nossos processos em relação à transparência. Eles são um reflexo da empresa, e por isso eles precisam pensar e agir como a companhia. Temos chamado os fornecedores para discutir conosco sobre produtos e boas práticas. Também para trocar experiências das duas partes a respeito de como melhorar esse relacionamento e como os desafios de um podem ajudar o outro a desenvolver novas soluções.
 
Quanto aos clientes, optamos por trabalhar com empresas que exigem de nós uma rigorosa qualificação. Isso faz com que tenhamos um posicionamento rígido quanto a governança e compliance. Assim, se temos processos organizados e transparentes, temos facilitada uma etapa no relacionamento com o cliente.
 
Marcela Milano,

diretora de Gente, Gestão e Conect da Matec Engenharia

Governança contra a crise
Governança contra a crise

Ricardo Paixão

MRV Engenharia

A MRV faz parte do Novo Mercado - classificação das empresas com o mais alto nível de governança corporativa da BM&FBovespa - desde sua abertura de capital, em 2007.

A empresa possui em seu conselho de administração sete conselheiros, dos quais quatro são membros independentes. Além disso, o presidente do conselho não acumula a função de presidente da companhia, outro ponto que está de acordo com as melhores práticas de governança. A MRV passou por uma mudança de estrutura há pouco mais de um ano e meio para alcançar essa composição.

É sempre fundamental uma boa governança para o relacionamento da empresa com todos os seus públicos. Em um momento como o que o Brasil enfrenta (mais do que uma crise econômica, uma crise de confiança), a governança ganha ainda mais importância. Ela passa uma segurança maior para esses públicos, pois eles sabem com quem estão lidando. Isso vale para clientes, fornecedores, colaboradores, acionistas, etc.

Ter um bom grau de governança gera conforto e atrai investidores, pois eles não querem estar ligados a uma companhia que é conhecida pela falta de transparência.

A MRV possui também comitês e uma área de auditoria interna que reporta diretamente ao conselho de administração. Sua atuação vai no sentido de garantir que as normas do código de conduta estão sendo cumpridas conforme o estabelecido.

Vale lembrar que todos os funcionários foram treinados para colocar esse código em prática, assim como nossos fornecedores.

Ricardo Paixão,

Diretor de Planejamento Financeiro e Relações com Investidores da MRV

A importância do RI
A importância do RI

Luís Scaglianti

RGF&Associados

Lidar com diferentes públicos como investidores, imprensa, reguladores e agências de rating são apenas algumas das funções definidas como sendo papel dos profissionais de Relações com Investidores (RI). Em tese, sua atuação deveria ser multifocada, cuidando da imagem da empresa diante dos olhos de um público-alvo tão diverso quanto específico. 

É inegável que nos últimos anos vem aumentando a percepção das companhias a respeito da importância do mercado de capitais e da adoção dos melhores padrões de governança corporativa como fonte de criação de valor, o que faz crescer o papel estratégico e o escopo do RI. Estes profissionais deveriam estar presentes nas mesas da alta administração e ampliar seu leque de atribuições. Na prática, a realidade se mostra bem diferente. 

No Brasil, os chamados RIs concentram sua atuação em apenas duas direções: atender às exigências do regulador, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), e cuidar do relacionamento com os investidores em equities. A limitação imposta por uma atuação excessivamente focada reduz o potencial de ganho para a imagem da empresa e até mesmo o aumento de valor para o acionista/dono. 

Ao definir sua estratégia de atuação, os RIs deveriam ter em mente uma abordagem mais ampla do que se limitar a atender às imposições legais ou participar de reuniões no ambiente da Apimec. No rol de atribuições que se espera serem executadas por estes profissionais, talvez a que merecesse mais atenção esteja voltada ao investidor/credor de dívida, sejam eles compradores de bonds no exterior, de debêntures ou notas promissórias no mercado local ou mesmo as instituições financeiras do relacionamento usual da empresa. A emissão de dívida é parte relevante na composição do valor da empresa e também importante alternativa na estratégia de captação de recurso sem a necessidade de usar o mercado acionário, que muitas vezes não apresenta um momento adequado para atração de novos investidores. Um bom relacionamento com este tipo de investidor ajuda na imagem da empresa e, associado a outros fatores, tem potencial para reduzir o custo da emissão dos papeis, bem como melhorar prazos e garantias.

Como complemento, também é relevante a atuação junto às agências de rating. A aproximação apenas nos momentos de avaliação de um papel a ser emitido, processo mais comum, é insuficiente e ineficiente. No lugar de uma atuação pontual, os RIs deveriam ter em mente a necessidade de estabelecer um canal regular de comunicação com as agências de rating, pois o melhor conhecimento do business case da empresa e de sua evolução no tempo melhora a percepção de risco.

Todas estas possibilidades de ampliação do papel dos profissionais de RIs, na direção de funções que hoje são exercidas pelos CFOs, têm sim a capacidade de colaborar para uma imagem mais favorável da empresa e elevar o seu valor para o acionista. Mesmo que a decisão de colocar os profissionais de RIs como integrantes da cadeia decisória não seja do CFO (Chief Financial Officer) - iniciativa que deveria ser tomada pelo acionista majoritário - os responsáveis pelos departamentos financeiros podem colaborar para esta aproximação. A importância hierárquica e a valorização da área de RI estão vinculadas a padrões de transparência e boas práticas de governança. Os 'donos' ainda têm uma visão equivocada do papel dos RIs, destinando a eles apenas a função de cumpridores da legislação, o que compromete a imagem da empresa, sua transparência e reduz o impacto que a área teria na geração de valor. 

Luís Scaglianti,

sócio da RGF e Associados, exerceu funções executivas em diversas instituições financeiras brasileiras e internacionais, com destaque para o comando da área de investimentos do Banco Cidade, a chefia do relacionamento institucional na Itaú Corretora e a diretoria comercial no Indosuez W.I. Carr Securities e no Banif de NY.

Independência é fundamental
Independência é fundamental

Edy Luiz Kogut

ACSP

Entende-se governança corporativa como um conjunto de regras que estabelecem de que forma devem ser tratados os relacionamentos entre os stakeholders de uma organização, isto é, entre os seus sócios, conselheiros, diretores, trabalhadores, clientes e fornecedores.

O IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), no seu Código das Melhores Práticas, lista alguns princípios de Governança Corporativa e, na descrição dos mesmos, há elementos que indicam como a governança ajuda nesse relacionamento.

O primeiro grande aspecto é a transparência, que consiste em disponibilizar para as partes interessadas as informações de interesse, mesmo que isso não seja obrigatório por lei. Essa prática resulta num clima de credibilidade tanto dentro da empresa quanto nas relações desta com terceiros.

Alguns pensam que a transparência pode ser prejudicial. Se isto ocorrer, este é um fenômeno pontual, associado normalmente a informações confidenciais que possam chegar aos concorrentes. O fato é que a confiança é fundamental nos negócios de uma companhia - é preciso que seus públicos confiem nela.

O segundo elemento é a equidade: todos os sócios, bem como demais partes interessadas, devem ser tratados de forma justa, sem atitudes discriminatórias. Todos os conselheiros, independentemente de terem sido eleitos pelos sócios minoritários ou pelos sócios controladores, devem ter acesso às mesmas informações e ao mesmo tempo. Desta forma a empresa se torna mais atraente para seu público de investidores, diminuindo, portanto, seu custo de captação de capital.

A pergunta que fica é: como implementar as boas práticas?

Sabe-se que a administração de uma organização é realizada pela diretoria-executiva e pelo conselho de administração. Este último, além de ter outras responsabilidades, é o guardião do sistema de governança da empresa. Nesta função, é importante que ele seja integrado por indivíduos competentes que defendam o interesse da empresa e não o de grupos que o elegeram. Esta independência é fundamental para que as regras de boa governança sejam praticadas.

Tive a oportunidade de ler recentemente documentos de governança de empresas envolvidas na Operação Lava-Jato. No papel, está tudo bem. Na prática foi um desastre – e um dos motivos foi a falta de independência da maioria dos seus conselheiros. Além disso, certamente, se essas empresas tivessem se preocupado com a transparência de fato, se seus administradores tivessem tratado seus stakeholders com equidade, teriam evitado perda de empregos, quebra de fornecedores e deterioração da imagem da sociedade brasileira perante toda a comunidade internacional.

Edy Luiz Kogut,

PhD em Economia pela Universidade de Chicago e membro do Conselho Superior da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

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