Economia & Negócios

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Desafios da empresa sustentável em tempos de crise

Redação,

07 de Julho de 2015 | 00:00
Atualizado 29 de Julho de 2015 | 18:51

Reprodução

A sustentabilidade é entendida como um sinônimo de responsabilidade ambiental. O meio ambiente, porém, não é o único tema que envolve o assunto. Uma das definições de "sustentável" é, não por acaso, aquilo que perdura – ou pode perdurar. No ambiente corporativo, a sustentabilidade é ameaçada em função de riscos que vão além dos ambientais, como, por exemplo, os sociais, financeiros, tecnológicos, reputacionais e regulatórios.

Como esses riscos podem crescer em tempos de crise, quais seriam os desafios de uma empresa sustentável no cenário econômico do País? Participe do fórum virtual e dê a sua opinião.

As crises e seus ciclos
As crises e seus ciclos

Thierry Fournier

Saint-Gobain

Passamos por muitas crises, seja na Europa, nos Estados Unidos, ou na América do Sul - em particular no Brasil, sabemos bem como enfrentá-las. O nosso desafio é não comprometer o futuro. O pensamento de longo prazo, quando praticado, nos ajusta aos desafios do curto prazo. E, realmente, esse equilíbrio é difícil.

Temos quatro segmentos de ação diferentes. O primeiro deles é o investimento mas, é claro, investimentos estratégicos não vão mudar. Sabemos que as crises no Brasil são de curto prazo - no longo prazo, o Brasil vai crescer e tem muitas oportunidades para nós. Mas temos que fazer alguns ajustes, como reduzir o payback e nos focar mais em projetos que vão aumentar a produtividade. 

O segundo ponto é o segmento das aquisições. Estes sempre são investimentos estratégicos e, por isso, não mudamos nossos projetos. O que fazemos, geralmente, é endurecer as hipóteses de rentabilidade, nós calculamos de uma maneira mais detalhada, mais conservadora o nosso plano de negócios. 

O terceiro segmento é o das operações. Nos tempos de crise, focamos mais do que nos tempos habituais na excelência operacional, seja em termos comerciais, industriais ou logísticos. Também focamos no cliente, pois ele é o melhor indicador da temperatura do mercado. 

No quarto segmento, os departamentos de suporte (administração, contabilidade, RH). O que nós fazemos é otimizar a utilização do dinheiro, sem cortar custos, mas fazendo investimentos de maneira inteligente em treinamento e recrutamento para melhorar a produtividade.

Para resumir, uma crise é sempre uma oportunidade para melhorarmos: otimizarmos nossa organização, reduzir custos e ajustar nossa empresa à realidade em todos os momentos. Quando o crescimento voltar, após a crise, não perdemos o que foi conquistado. Precisamos aproveitar o trabalho difícil feito nesse período, mas também nos preparar para a próxima crise, já que a realidade industrial é feita de ciclos.

Thierry Fournier,

presidente da Saint-Gobain para o Brasil, Argentina e Chile

Estratégia de todo dia
Estratégia de todo dia

Armando Valle

Whirlpool

Para nós, sustentabilidade é algo intrínseco ao negócio. Ela faz parte de processos, do dia a dia das fábricas, da qualidade. Falar em não qualidade - ou não sustentabilidade - durante a crise não faz muito sentido.

O tema evoluiu para esse patamar nas grandes empresas porque não vemos mais o pensamento: "há uma crise, então vou andar para trás no tema". Até porque se não houver cuidado com esse assunto, ele é capaz de agravar o processo, e não ajudar.

Então, sustentabilidade na crise significa qualidade. Caso contrário, a estratégia que está sendo executada não veio para ficar.

A companhia olha tudo aquilo que vem pela frente. Há preocupações, mas não há mudança na política interna.

E mais: essa estratégia já foi de longo prazo, mas hoje ela é de dia a dia. Então, resíduo zero é todo dia, redução do consumo de água é todo dia, redução do consumo de energia é todo dia, assim como a qualidade.

Acreditamos muito no tripé da sustentabilidade (o lado econômico, o social e o meio ambiente). Não há como descuidar dessas esferas, com crise ou sem crise. 

Armando Valle,

vice-presidente de Comunicação e Relações Institucionais, Sustentabilidade e Manufaturas da Whirlpool Latin America

 
'Oportunismo' de negócio
'Oportunismo' de negócio

Hamilton Quirino

Vivante

Do ponto de vista do negócio, a maioria das empresas normalmente mostra sua verdadeira vocação em época de crise. Poucas são as que efetivamente continuam trabalhando a sustentabilidade sob o ponto de vista do valor e do conceito do seu próprio negócio.

Nesses momentos também surgem oportunidades. Em 2001, por exemplo, quando houve o apagão elétrico, veja a quantidade de novas ideias, soluções e alternativas que surgiram naquele momento. Guardadas as devidas proporções, é mais ou menos o que está acontecendo agora, com a escassez de água.

As empresas acabam criando mecanismos para sobreviver, mas poucas são as companhias que efetivamente colocam a sustentabilidade como valor do seu negócio. A maioria considera o tema relevante, mas normalmente, na hora em que precisam ser tomadas decisões de cortes de custos - porque a crise está batendo à porta de todo mundo -, muitas dessas ações são cortadas (áreas de qualidade, certificações, controles, etc.). Uma série de projetos não essenciais acabam relegados ao segundo plano.

Por isso, com crise ou sem crise, as empresas que têm a sustentabilidade como um valor para o seu negócio vão tomar as atitudes necessárias para manter essa questão como algo prioritário.

Prestamos serviços para diversos clientes: indústrias, hospitais, prédios comerciais. Conseguimos observar claramente quais são as empresas que têm premissas muito rígidas e não se abalam nesses momentos de crise, versus aquelas que têm a sustentabilidade como um discurso, chamariz ou marketing. Isso porque essas últimas, por estarmos em um momento de crise, acabam abrindo mão dessa "sustentabilidade" - que já não é tão sustentabilidade assim, mas um "oportunismo" de negócio.

Hamilton Quirino,

diretor da Vivante, empresa prestadora de serviços nas áreas de facilities, manutenção e gestão de utilidades

Sustentabilidade e governança
Sustentabilidade e governança

Luiz C. Angelotti

Bradesco

Estamos aperfeiçoando continuamente nosso sistema de gestão com o objetivo de estarmos alinhados com as melhores práticas de Governança Corporativa, agindo com transparência e respeito com acionistas, clientes, colaboradores e demais públicos de relacionamento. Além de integrar os aspectos econômico-financeiros, sociais e ambientais na prestação de contas.

Nossos processos de tomada de decisão contribuem com o alinhamento de interesses entre as partes e garantem ações efetivas e independentes na gestão de riscos, de controles internos e de auditoria interna, contribuindo para a longevidade da Organização.

Para nós, a sustentabilidade consiste justamente na capacidade de gerar valor no longo prazo e a governança corporativa demonstra-se uma forte aliada na difícil tarefa de incorporar essa visão de futuro no dia a dia dos negócios. Seja pelo envolvimento da alta liderança neste processo, por meio do Comitê de Sustentabilidade, que se reporta diretamente ao Conselho de Administração; seja pelo empenho na adoção de referências que buscam explicitar a importância dos aspectos não financeiros para os resultados da Organização e para a sua perenidade, entre outros exemplos.

Nosso Planejamento Estratégico de Sustentabilidade dos Negócios, diretriz norteadora dos objetivos e iniciativas que o banco pretende empreender nos próximos anos, prevê o fortalecimento e o aprimoramento das práticas de Governança Corporativa. 

Luiz C. Angelotti,

diretor-executivo do Bradesco

Ganho sustentável
Ganho sustentável

Linda Murasawa

Santander Brasil

Para as empresas, é preciso esclarecer, em primeiro lugar, o que significa sustentabilidade. O conceito é amplo e é diferente para cada tipo de negócio. A companhia precisa fazer alguns questionamentos, tais como: Qual é o papel da minha empresa na sociedade? Como estou conduzindo meus negócios para que ela cumpra sua função?

A sociedade está em plena transformação e isso afeta as tecnologias que lhe causam impacto. Além disso, também há cada vez mais a consciência de direitos e deveres. Na prática, se a sociedade pede cada vez mais a transparência e a empresa deve disponibilizar informações nos mais diferentes canais e de forma cada vez mais clara. No mais, só se divulga informação sobre aquilo que se faz, não adianta ter um excelente relatório se não há nenhuma ação para colocar nele. 

O que acontece quando uma empresa começa a analisar essas mudanças? É preciso se antecipar aos novos valores para criar produtos e serviços que atendam a essas necessidades. Além do desempenho financeiro, é preciso ver desafios se tornando oportunidades de negócio. 

Quando há a consciência de que os recursos naturais são escassos e finitos, sabe-se que é preciso economizar. Logo, uma coisa simples e tangível, como economizar água, pode gerar redução no consumo desse recurso, que é um custo direto para qualquer companhia. Assim, a gestão eficiente traz benefícios econômicos para qualquer empresa, de qualquer porte. 

Entretanto, muitas empresas têm boas práticas, mas não atentam para o fato de a sociedade não conhecer essas práticas - a empresa nunca se preocupou em divulgá-la em um site, por exemplo. As pequenas empresas têm mais dificuldade ainda em fazer esse tipo de comunicação.

A sustentabilidade precisa estar presente em todos os processos da corporação. Ela não é um processo paralelo. Ela faz parte das rotinas de cada organização. 

A empresa sustentável precisa olhar cada vez mais as decisões de seu dia a dia, observando os riscos sistêmicos (de falta de água, mudanças climáticas, questões sociais, etc.). A questão que fica é: como ampliar a visão para abarcar esses grandes riscos e transformá-los em oportunidades de negócio? 

A prática da sustentabilidade não é uma utopia. Pelo contrário. Quando ela é compartilhada com seus stakeholders, o coletivo traz inovação, boas práticas, engajamento. A produtividade e o lucro vêm como consequência.

Linda Murasawa,

superintendente de sustentabilidade do Santander Brasil

Permanência no tempo
Permanência no tempo

Júlia Machado

Silveiro Advogados

Com frequência, sustentabilidade é entendida como um sinônimo perfeito de responsabilidade ambiental. É um equívoco. Sustentável é aquilo que perdura ou pode perdurar. São temas de sustentabilidade aqueles cuja duração nos preocupam. Daí por que o meio ambiente seja uma das primeiras questões a vir à mente, porém está longe de ser a única.
 
No contexto corporativo, a permanência da empresa no tempo é ameaçada a todo instante por riscos ambientais e sociais, sim, mas também por riscos financeiros, tecnológicos, reputacionais e regulatórios. E esses riscos não diminuem magicamente em épocas de crise. Se é que se alteram, é certamente no sentido contrário: aumentam.
 
A falha na sustentabilidade corporativa pode, então, ser devastadora. Lembre-se que é em situações de crise que a insatisfação da sociedade atinge o seu ápice, e a busca por “culpados” exalta-se. E à medida em que aumenta a pressão social sobre as empresas e o governo, a reação do governo é de somar ainda mais à pressão sobre as empresas. O descuido pode levar facilmente à bancarrota.
 
A contrapartida, a sobrevivência da empresa está amarrada ao contínuo monitoramento, prevenção e mitigação dos riscos empresariais, tarefa que se alinha às melhores práticas de governança corporativa e que não pode ser interrompida em períodos de baixo orçamento. Permitir a ruptura significaria não apenas um retrocesso ao conhecimento corporativo acumulado até o momento, cujo custo de retomada é com certeza maior, como também uma ameaça à própria existência empresarial.
 
Como verdadeira guardiã da sustentabilidade corporativa, compete à administração promover e manter a gestão efetiva dos riscos e a atividade da empresa no interesse do acionista, mesmo — e até com maior afinco — em épocas de crise.
Júlia Machado,

especialista em Direito Público da Silveiro Advogados

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