Solinftec/Divulgação
Tecnologia; Solix é o primeiro robô brasileiro desenvolvido para monitorar as lavouras de grãos e fibras no campo Solinftec/Divulgação

Conheça o robô que monitora de perto tudo o que acontece em uma lavoura

Solix, da startup Solinftec, é programado para percorrer as plantações dia e noite e analisar planta por planta, detectando até pragas ainda em estágio inicial

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2022 | 10h00

SOROCABA – Os "olhos" de Solix vasculham os pés de algodão em busca de fungos quase invisíveis e observam o solo para verificar a presença de fertilizante, o teor de umidade e a quantidade de matéria orgânica. Tudo o que vê e observa, ele transmite automaticamente para Alice e segue adiante, avaliando as plantas de outros talhões. Solix é o primeiro robô brasileiro desenvolvido para monitorar as lavouras de grãos e fibras no campo, como se fosse o agrônomo ou o próprio produtor. Alice é uma plataforma de inteligência artificial que, como boa parceira, orienta as ações de Solix, interpreta os dados e toma decisões. 

Ambos são produtos da Solinftec, uma agtech fundada em 2007 em Araçatuba, interior de São Paulo, que se expandiu pelo país e avança por outras regiões agrícolas do planeta. Criado inicialmente para atender lavouras de grãos e algodão, o Solix é programado para percorrer as plantações dia e noite e analisar planta por planta, inclusive as folhas baixas, detectando até pragas ainda em estágio inicial, na fase de ovos ou larvas. Esse monitoramento permite controle mais rápido e o uso de defensivo apenas onde é necessário. O robô dispõe de ferramentas para avaliar a saúde do solo e determinar onde é preciso aplicar mais ou menos fertilizantes

A empresa aposta em seu potencial para a agricultura sustentável: por meio do sistema, a redução de insumos químicos (fertilizantes e defensivos) nas lavouras pode chegar a 30%, enquanto a economia de inseticida, com a identificação precoce das pragas, inclusive as de hábitos noturnos, pode chegar a 70%. Quanto menos insumos químicos aplicados, menor é a emissão de gases de carbono na atmosfera. Com a aplicação mais precisa do defensivo, a ação se torna mais efetiva e os inimigos naturais da praga não são eliminados, como acontece na aplicação convencional.

O robô é movido a energia solar, se move nas entrelinhas das plantas e tem capacidade de operar durante três dias na ausência de incidência de luz do sol. Sua pretensão de minimizar a compactação do solo se vale também de outros fatores, como o equipamento traçar mapas de ação com base nas condições de cada planta, o que viabiliza o uso de máquinas menores para pulverizar apenas as áreas necessárias. Além disso, entre outros dispositivos, o robô pode ser dotado de um sensor de compactação para fazer as recomendações necessárias e evitar o agravamento do problema. 

Medindo 2,5 metros por 2 metros, o Solix é equipado com sensores, câmeras com softwares que captam e analisam as imagens e trabalha de forma autônoma, cumprindo as tarefas programadas pela Alice, como explica o CEO da Solinftec, Britaldo Hernandez. "O Solix consegue andar por toda a fazenda sem precisar de controle humano. Para isso, ele utiliza dois métodos de condução: um GPS de altíssima precisão que o permite seguir linhas previamente programadas e, o outro, câmeras e visão computacional que identifica onde está a cultura e direciona o robô para andar sem pisotear as linhas de plantio." O robô é mais leve que outras máquinas agrícolas. Enquanto um pulverizador agrícola pesa cerca de 8 toneladas, a versão comercial do Solix tem peso de 200 quilos.

Sua circulação pela lavoura é direcionada pela Alice, a plataforma de inteligência artificial que identifica o trajeto mais eficiente, o momento ideal para o deslocamento e faz o robô ir apenas onde é preciso. A assistente virtual com a qual o robô mantém constante diálogo utiliza um sistema baseado em redes neurais e é treinada para analisar grandes massas de dados, sendo capaz de detectar padrões que escapam ao olho humano. A plataforma conta com uma biblioteca agro atualizada por mais de 10 bilhões de informações de campo por dia.

Já o seu parceiro tem rodas estreitas e leves, deslocando-se de forma ágil. O equipamento tem capacidade para monitorar 2 milhões de plantas por dia trabalhando de forma ininterrupta as 24 horas. Com sua planilha no campo, um técnico não conseguiria avaliar mais do que 100 plantas por dia. "O Solix nasceu com uma extensão da Alice, sendo uma espécie de 'olhos' da plataforma dentro das lavouras. Ele captura imagens do cultivo agrícola por meio de câmeras e sensores multiespectrais. A partir daí, o Solix tem condições de identificar pragas, doenças, qualidade do cultivo, analisar a nutrição da saúde da planta e entregar essas informações para a Alice, que faz uma análise e dá uma recomendação de manejo para o produtor. E, em um ciclo contínuo, após o manejo, o Solix escaneia novamente a área e informa se a operação foi bem sucedida e se trouxe os resultados esperados", detalha o empresário.

O Solix começou a ser desenvolvido há pouco mais de três anos. Lançado no final de abril, na Agrishow, em Ribeirão Preto, o robô tem potencial para se espalhar pelos campos do Brasil e de outros países. Atualmente, a companhia gere, em tempo real, mais de 11 milhões de hectares, o que representa algo acima de 3,7 trilhões de data points (unidades de informação) coletados todos os anos pela Alice. São 250 mil usuários interagindo o tempo todo com a plataforma, que se integra a todos os processos da lavoura. A Alice sabe dizer, por exemplo, qual o melhor momento para realizar cada operação, direcionando insumos, equipamentos, maquinários e mão de obra com total autonomia.

Conforme a Solinftec, as máquinas agrícolas atuais estão preparadas para trabalhar com taxa variável de aplicação de insumos, mas os dados colhidos à mão e mapas baseados em imagens de satélites que mostram a coloração das plantas não fornecem as informações necessárias. O risco é de colocar insumo onde não precisa ou em quantidade insuficiente onde é necessário. O uso da inteligência artificial e robótica na agricultura de precisão reflete uma tendência importante nas áreas mais avançadas do agro. O uso de tratores e equipamentos menores entre o plantio e a colheita, quando as plantas ainda estão em desenvolvimento, evita impactos no solo e nas plantas e reduz custos.

Carro popular

O lançamento comercial do robô ocorreu durante a Agrishow 2022, em Ribeirão Preto (SP), no final de abril, com foco em lavouras de grãos e algodão. Os primeiros locais de venda do Solix são Brasil, Estados Unidos e Canadá. A expectativa é que entre 1 milhão até 1,5 milhão de hectares de grãos poderão ser monitorados com robô em um ano. Até o final de 2022, a previsão é que ocorra a pré-venda da plataforma robótica para cana-de-açúcar. "Ainda prevemos lançar versões do robô para atender outras culturas, a exemplo da laranja e café, adaptando a plataforma de acordo com as especificidades de cada variedade e aos diferentes relevos", disse o CEO.

Ele explicou que o modelo de negócio é composto por um investimento inicial para aquisição do Solix, mais o serviço de software (SaaS), uma mensalidade por hectare. "O Solix custará o equivalente a um carro popular e a sua mensalidade estará diretamente correlacionada com a viabilidade econômica proporcionada. Nossas soluções atuais têm esse mesmo formato, com intuito de facilitar a aquisição de tecnologia para todos os produtores. Desta maneira, o produtor pode escolher e customizar o pacote de serviço contratado de acordo com sua necessidade e iniciar pelos principais gargalos. Essa flexibilidade permite um payback do investimento de forma instantânea", detalhou.

Além disso, a plataforma robótica contará com financiamento do Banco do Brasil. A formalização da parceria que inclui os produtos da Solinftec nas linhas de crédito rural do BB foi anunciada durante a Agrishow 2022. O convênio está em finalização das tratativas operacionais. 

"Avaliamos que essa parceria viabiliza que nossa tecnologia chegue a todos os produtores do país, seja ele de grande, médio ou pequeno porte", disse Hernandez. Segundo ele, a empresa está preparada para atender a demanda. O hardware será fabricado por um grupo de montadoras licenciadas. O centro de inteligência artificial da plataforma robótica fica na sede da Solinftec, em Araçatuba. "Temos um centro de tecnologia em Shenzen, na China. Entre projetos em desenvolvimento, temos um em conjunto com pesquisadores da Universidade de Pequim, na China, que deverá agregar novas habilidades ao Solix, ou seja ele receberá novas funções constantemente", acrescentou.

Gestão

A Fazenda Schimidt, que cultiva 30 mil hectares de soja e algodão em Luís Eduardo Magalhães, oeste da Bahia, adquiriu um robô e já prepara o uso operacional do Solix. O diretor de produção Fernando Azambuja Andrade está animado com o impacto que o sistema deve trazer à produção. Ele já conhece o equipamento em detalhes e chamou sua atenção a autonomia com uso de energia solar, possibilidade de trabalhar em ambos os turnos e a opção de inserir outros equipamentos para amostragem de solo para análises químicas, física e estrutural. “Por meio da geração de dados confiáveis, com a mesma acurácia (valor verdadeiro da medição) desde a primeira coleta até a última, nossa gestão será mais efetiva no posicionamento dos defensivos”, disse.

Com dados confiáveis, o defensivo pode ser aplicado no momento mais adequado e apenas onde o problema foi detectado, reduzindo o gasto do insumo. “Além disso, pela identificação precisa dos nossos alvos, sejam doenças, insetos ou plantas daninhas, conseguimos fazer intervenção com o produto correto, fazendo uma boa rotação dos princípios ativos e garantindo melhor eficiência dos produtos, por não forçar a seleção de indivíduos resistentes a determinada molécula”, explicou.

Atualmente, o monitoramento das lavouras é feito de forma manual por 25 técnicos agrícolas. “Quando fazemos a amostragem visual,  a variação dos resultados é alta, porque se trata da percepção de cada pessoa, de cada olho. Quando você coloca um robô, com uma metodologia única e constante, a precisão dos dados aumenta muito. A amostragem visual por um monitor de campo se altera conforme o passar do dia. No final, depois de um dia todo de amostragem, é comum termos mais erros de identificação”, disse.

Andrade considerou o robô fácil de operar, com um único operador a partir do centro de operações já existente na fazenda. Os monitores que antes ficaram rodando o campo, vão ficar atrás das telas ajudando a processar os dados e validando as informações transmitidas pelo Solix. “Eles continuarão nos ajudando, como auditores, uma vez que nada substitui o conhecimento e a nossa percepção dos problemas a campo. Nosso capital humano será melhor aproveitado”, afirmou.

O dirigente rural explicou que os produtores em geral são adeptos da inovação e confiam no gerenciamento de suas lavouras a partir de dados coletados por máquinas. “O agro brasileiro vem ganhando escala em área e hoje, nas grandes fazendas, dificilmente conseguimos saber 100% dos problemas que ocorrem nos quatro cantos da propriedade. As tecnologias de imagens, o monitoramento agrícola por meio de softwares, a telemetria e equipamentos como o robô permitem atuar de forma mais precisa e usando as ferramentas mais adequadas que temos disponíveis”, concluiu.

Unicórnio

A Solinftec cresceu 60% no ano passado, atingindo receita de R$ 200 milhões, incluindo o aporte esperado de contratos fechados no exercício. No início de maio, a agtech anunciou o levantamento de capital de US$ 60 milhões junto ao fundo americano Lightsmith Group e o brasileiro Unbox Capital – que tem como investidores âncora os controladores do Magazine Luiza - para dar escala aos novos negócios, entre eles a plataforma de inteligência artificial.

O investimento da Lightsmith é uma credencial importante para a Solinftec. O grupo tem o compromisso de investir em empresas que desenvolvam tecnologias voltadas para o gerenciamento de riscos e impactos crescentes nas mudanças climáticas e que promovam a sustentabilidade na agricultura, energia, água, finanças e cadeias de suprimentos. Os focos são coincidentes, já que a empresa brasileira se propõe a ajudar os agricultores a aumentar a produtividade por hectare, reduzindo a aplicação de insumos e melhorando as respostas às mudanças climáticas.

A operação representou mais um passo da Solinftec em direção à Série C das rodadas de investimento, o que deve acontecer ainda este ano.Com isso, a empresa de Araçatuba se torna uma das startups do agro mais cotadas para se tornar o primeiro unicórnio brasileiro no segmento, ou seja, empresa com valor de mercado superior a US$ 1 bilhão. Fundada na cidade de Araçatuba (SP) em 2007 por engenheiros de automação cubanos, a Solinftec conta com mais de 700 colaboradores globalmente, 330 somente na área de P&D, além de unidades nos Estados Unidos, Colômbia, Canadá e China. 

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Tese de doutorado do CEO da Solinftec trouxe ideia para abertura de empresa

Solix, da startup Solinftec, é programado para percorrer as plantações dia e noite e analisar planta por planta, detectando até pragas ainda em estágio inicial

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2022 | 10h00

SOROCABA – Os "olhos" de Solix vasculham os pés de algodão em busca de fungos quase invisíveis e observam o solo para verificar a presença de fertilizante, o teor de umidade e a quantidade de matéria orgânica. Tudo o que vê e observa, ele transmite automaticamente para Alice e segue adiante, avaliando as plantas de outros talhões. Solix é o primeiro robô brasileiro desenvolvido para monitorar as lavouras de grãos e fibras no campo, como se fosse o agrônomo ou o próprio produtor. Alice é uma plataforma de inteligência artificial que, como boa parceira, orienta as ações de Solix, interpreta os dados e toma decisões. 

Ambos são produtos da Solinftec, uma agtech fundada em 2007 em Araçatuba, interior de São Paulo, que se expandiu pelo país e avança por outras regiões agrícolas do planeta. Criado inicialmente para atender lavouras de grãos e algodão, o Solix é programado para percorrer as plantações dia e noite e analisar planta por planta, inclusive as folhas baixas, detectando até pragas ainda em estágio inicial, na fase de ovos ou larvas. Esse monitoramento permite controle mais rápido e o uso de defensivo apenas onde é necessário. O robô dispõe de ferramentas para avaliar a saúde do solo e determinar onde é preciso aplicar mais ou menos fertilizantes

A empresa aposta em seu potencial para a agricultura sustentável: por meio do sistema, a redução de insumos químicos (fertilizantes e defensivos) nas lavouras pode chegar a 30%, enquanto a economia de inseticida, com a identificação precoce das pragas, inclusive as de hábitos noturnos, pode chegar a 70%. Quanto menos insumos químicos aplicados, menor é a emissão de gases de carbono na atmosfera. Com a aplicação mais precisa do defensivo, a ação se torna mais efetiva e os inimigos naturais da praga não são eliminados, como acontece na aplicação convencional.

O robô é movido a energia solar, se move nas entrelinhas das plantas e tem capacidade de operar durante três dias na ausência de incidência de luz do sol. Sua pretensão de minimizar a compactação do solo se vale também de outros fatores, como o equipamento traçar mapas de ação com base nas condições de cada planta, o que viabiliza o uso de máquinas menores para pulverizar apenas as áreas necessárias. Além disso, entre outros dispositivos, o robô pode ser dotado de um sensor de compactação para fazer as recomendações necessárias e evitar o agravamento do problema. 

Medindo 2,5 metros por 2 metros, o Solix é equipado com sensores, câmeras com softwares que captam e analisam as imagens e trabalha de forma autônoma, cumprindo as tarefas programadas pela Alice, como explica o CEO da Solinftec, Britaldo Hernandez. "O Solix consegue andar por toda a fazenda sem precisar de controle humano. Para isso, ele utiliza dois métodos de condução: um GPS de altíssima precisão que o permite seguir linhas previamente programadas e, o outro, câmeras e visão computacional que identifica onde está a cultura e direciona o robô para andar sem pisotear as linhas de plantio." O robô é mais leve que outras máquinas agrícolas. Enquanto um pulverizador agrícola pesa cerca de 8 toneladas, a versão comercial do Solix tem peso de 200 quilos.

Sua circulação pela lavoura é direcionada pela Alice, a plataforma de inteligência artificial que identifica o trajeto mais eficiente, o momento ideal para o deslocamento e faz o robô ir apenas onde é preciso. A assistente virtual com a qual o robô mantém constante diálogo utiliza um sistema baseado em redes neurais e é treinada para analisar grandes massas de dados, sendo capaz de detectar padrões que escapam ao olho humano. A plataforma conta com uma biblioteca agro atualizada por mais de 10 bilhões de informações de campo por dia.

Já o seu parceiro tem rodas estreitas e leves, deslocando-se de forma ágil. O equipamento tem capacidade para monitorar 2 milhões de plantas por dia trabalhando de forma ininterrupta as 24 horas. Com sua planilha no campo, um técnico não conseguiria avaliar mais do que 100 plantas por dia. "O Solix nasceu com uma extensão da Alice, sendo uma espécie de 'olhos' da plataforma dentro das lavouras. Ele captura imagens do cultivo agrícola por meio de câmeras e sensores multiespectrais. A partir daí, o Solix tem condições de identificar pragas, doenças, qualidade do cultivo, analisar a nutrição da saúde da planta e entregar essas informações para a Alice, que faz uma análise e dá uma recomendação de manejo para o produtor. E, em um ciclo contínuo, após o manejo, o Solix escaneia novamente a área e informa se a operação foi bem sucedida e se trouxe os resultados esperados", detalha o empresário.

O Solix começou a ser desenvolvido há pouco mais de três anos. Lançado no final de abril, na Agrishow, em Ribeirão Preto, o robô tem potencial para se espalhar pelos campos do Brasil e de outros países. Atualmente, a companhia gere, em tempo real, mais de 11 milhões de hectares, o que representa algo acima de 3,7 trilhões de data points (unidades de informação) coletados todos os anos pela Alice. São 250 mil usuários interagindo o tempo todo com a plataforma, que se integra a todos os processos da lavoura. A Alice sabe dizer, por exemplo, qual o melhor momento para realizar cada operação, direcionando insumos, equipamentos, maquinários e mão de obra com total autonomia.

Conforme a Solinftec, as máquinas agrícolas atuais estão preparadas para trabalhar com taxa variável de aplicação de insumos, mas os dados colhidos à mão e mapas baseados em imagens de satélites que mostram a coloração das plantas não fornecem as informações necessárias. O risco é de colocar insumo onde não precisa ou em quantidade insuficiente onde é necessário. O uso da inteligência artificial e robótica na agricultura de precisão reflete uma tendência importante nas áreas mais avançadas do agro. O uso de tratores e equipamentos menores entre o plantio e a colheita, quando as plantas ainda estão em desenvolvimento, evita impactos no solo e nas plantas e reduz custos.

Carro popular

O lançamento comercial do robô ocorreu durante a Agrishow 2022, em Ribeirão Preto (SP), no final de abril, com foco em lavouras de grãos e algodão. Os primeiros locais de venda do Solix são Brasil, Estados Unidos e Canadá. A expectativa é que entre 1 milhão até 1,5 milhão de hectares de grãos poderão ser monitorados com robô em um ano. Até o final de 2022, a previsão é que ocorra a pré-venda da plataforma robótica para cana-de-açúcar. "Ainda prevemos lançar versões do robô para atender outras culturas, a exemplo da laranja e café, adaptando a plataforma de acordo com as especificidades de cada variedade e aos diferentes relevos", disse o CEO.

Ele explicou que o modelo de negócio é composto por um investimento inicial para aquisição do Solix, mais o serviço de software (SaaS), uma mensalidade por hectare. "O Solix custará o equivalente a um carro popular e a sua mensalidade estará diretamente correlacionada com a viabilidade econômica proporcionada. Nossas soluções atuais têm esse mesmo formato, com intuito de facilitar a aquisição de tecnologia para todos os produtores. Desta maneira, o produtor pode escolher e customizar o pacote de serviço contratado de acordo com sua necessidade e iniciar pelos principais gargalos. Essa flexibilidade permite um payback do investimento de forma instantânea", detalhou.

Além disso, a plataforma robótica contará com financiamento do Banco do Brasil. A formalização da parceria que inclui os produtos da Solinftec nas linhas de crédito rural do BB foi anunciada durante a Agrishow 2022. O convênio está em finalização das tratativas operacionais. 

"Avaliamos que essa parceria viabiliza que nossa tecnologia chegue a todos os produtores do país, seja ele de grande, médio ou pequeno porte", disse Hernandez. Segundo ele, a empresa está preparada para atender a demanda. O hardware será fabricado por um grupo de montadoras licenciadas. O centro de inteligência artificial da plataforma robótica fica na sede da Solinftec, em Araçatuba. "Temos um centro de tecnologia em Shenzen, na China. Entre projetos em desenvolvimento, temos um em conjunto com pesquisadores da Universidade de Pequim, na China, que deverá agregar novas habilidades ao Solix, ou seja ele receberá novas funções constantemente", acrescentou.

Gestão

A Fazenda Schimidt, que cultiva 30 mil hectares de soja e algodão em Luís Eduardo Magalhães, oeste da Bahia, adquiriu um robô e já prepara o uso operacional do Solix. O diretor de produção Fernando Azambuja Andrade está animado com o impacto que o sistema deve trazer à produção. Ele já conhece o equipamento em detalhes e chamou sua atenção a autonomia com uso de energia solar, possibilidade de trabalhar em ambos os turnos e a opção de inserir outros equipamentos para amostragem de solo para análises químicas, física e estrutural. “Por meio da geração de dados confiáveis, com a mesma acurácia (valor verdadeiro da medição) desde a primeira coleta até a última, nossa gestão será mais efetiva no posicionamento dos defensivos”, disse.

Com dados confiáveis, o defensivo pode ser aplicado no momento mais adequado e apenas onde o problema foi detectado, reduzindo o gasto do insumo. “Além disso, pela identificação precisa dos nossos alvos, sejam doenças, insetos ou plantas daninhas, conseguimos fazer intervenção com o produto correto, fazendo uma boa rotação dos princípios ativos e garantindo melhor eficiência dos produtos, por não forçar a seleção de indivíduos resistentes a determinada molécula”, explicou.

Atualmente, o monitoramento das lavouras é feito de forma manual por 25 técnicos agrícolas. “Quando fazemos a amostragem visual,  a variação dos resultados é alta, porque se trata da percepção de cada pessoa, de cada olho. Quando você coloca um robô, com uma metodologia única e constante, a precisão dos dados aumenta muito. A amostragem visual por um monitor de campo se altera conforme o passar do dia. No final, depois de um dia todo de amostragem, é comum termos mais erros de identificação”, disse.

Andrade considerou o robô fácil de operar, com um único operador a partir do centro de operações já existente na fazenda. Os monitores que antes ficaram rodando o campo, vão ficar atrás das telas ajudando a processar os dados e validando as informações transmitidas pelo Solix. “Eles continuarão nos ajudando, como auditores, uma vez que nada substitui o conhecimento e a nossa percepção dos problemas a campo. Nosso capital humano será melhor aproveitado”, afirmou.

O dirigente rural explicou que os produtores em geral são adeptos da inovação e confiam no gerenciamento de suas lavouras a partir de dados coletados por máquinas. “O agro brasileiro vem ganhando escala em área e hoje, nas grandes fazendas, dificilmente conseguimos saber 100% dos problemas que ocorrem nos quatro cantos da propriedade. As tecnologias de imagens, o monitoramento agrícola por meio de softwares, a telemetria e equipamentos como o robô permitem atuar de forma mais precisa e usando as ferramentas mais adequadas que temos disponíveis”, concluiu.

Unicórnio

A Solinftec cresceu 60% no ano passado, atingindo receita de R$ 200 milhões, incluindo o aporte esperado de contratos fechados no exercício. No início de maio, a agtech anunciou o levantamento de capital de US$ 60 milhões junto ao fundo americano Lightsmith Group e o brasileiro Unbox Capital – que tem como investidores âncora os controladores do Magazine Luiza - para dar escala aos novos negócios, entre eles a plataforma de inteligência artificial.

O investimento da Lightsmith é uma credencial importante para a Solinftec. O grupo tem o compromisso de investir em empresas que desenvolvam tecnologias voltadas para o gerenciamento de riscos e impactos crescentes nas mudanças climáticas e que promovam a sustentabilidade na agricultura, energia, água, finanças e cadeias de suprimentos. Os focos são coincidentes, já que a empresa brasileira se propõe a ajudar os agricultores a aumentar a produtividade por hectare, reduzindo a aplicação de insumos e melhorando as respostas às mudanças climáticas.

A operação representou mais um passo da Solinftec em direção à Série C das rodadas de investimento, o que deve acontecer ainda este ano.Com isso, a empresa de Araçatuba se torna uma das startups do agro mais cotadas para se tornar o primeiro unicórnio brasileiro no segmento, ou seja, empresa com valor de mercado superior a US$ 1 bilhão. Fundada na cidade de Araçatuba (SP) em 2007 por engenheiros de automação cubanos, a Solinftec conta com mais de 700 colaboradores globalmente, 330 somente na área de P&D, além de unidades nos Estados Unidos, Colômbia, Canadá e China. 

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