‘Nunca vi situação tão crítica'

Produtor de MT diz que não cobrirá gastos com plantio

O Estado de S.Paulo

09 Junho 2016 | 23h24

O produtor Regis Porazzi, de Tapurah, no noroeste de Mato Grosso, terminou o plantio da segunda safra de milho, iniciada em fevereiro, no dia 10 de março. Choveu. Ele não sabia, no entanto, que aquela seria a última chuva que ele veria em um bom tempo.

“No resto de março, em abril e em maio foi totalmente seco”, conta o produtor, de 45 anos. “A gente sabe que a safrinha é uma atividade de risco, mas os resultados vinham sendo muito satisfatórios. Mas, neste ano, fiquei numa posição extremamente complicada. Nunca vi uma situação tão crítica”, conta.

O gaúcho de Ijuí (RS), em Mato Grosso desde 2003, esperava colher 80 sacas de milho por hectare. Não chegou nem perto: Regis deverá colher apenas 15 sacas – o que não cobre nem a metade dos gastos para o plantio.

Soja. O desempenho da soja não foi tão ruim, mas ainda ficou bem aquém das expectativas. Por ter ficado 30 dias sem chuva em meados de outubro e novembro, com altas temperaturas e sem conseguir fazer o replantio, Regis colheu 40 sacas por hectare da cultura, em vez dos 52 que esperava inicialmente.

Com tamanha quebra, puxada pela safrinha, a fatura vem alta. Mesmo que consiga os recursos do seguro rural, que já acionou, o produtor ainda fica com uma dívida em torno de R$ 300 mil. “Vendi antecipadamente 20 sacas por hectare para uma trading, mas não vou conseguir entregar, pois vou colher menos”, conta. Nesses casos, as possibilidades são duas: Regis pode ter de pagar uma multa ou então deverá comprar milho no mercado para cumprir o contrato. “O problema é que os preços do milho subiram demais, o que aumenta o muito mais o gasto”, diz. 

Caso não seja aprovado no seguro rural, o que ele considera bem difícil, já que se enquadra em todas as condições, a dívida pode até dobrar de tamanho. Ele afirma que muitos produtores da região se encontram em situação semelhante. 

“Vou ter de passar três ou quatro anos sem um fluxo de caixa favorável e pagando essa conta”, lamenta. “Com isso, eu deixo de investir na minha fazenda e talvez até tenha de perder algum funcionário, o que não quero fazer e vou evitar ao máximo”, diz ele, que conta com cinco trabalhadores na área de 1.100 hectares. 

Mesmo assim, Regis se mantém confiante: “Olha, não estou desanimado não. Tenho plena consciência da minha atividade, amo o que eu faço”, diz. “O que falta no Brasil são políticas públicas mais adequadas, capazes de proteger o produtor daquilo que não depende dele, que é o clima.”

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