Cláudio Dell Agnolo/ Arquivo Pessoal
Cláudio Dell Agnolo/ Arquivo Pessoal

Agricultores protegem cafezais à espera de onda de frio com novas geadas

Instituto Nacional de Meteorologia prevê uma onda de frio entre esta quarta-feira, 28, e domingo, 1º, nas regiões Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste; com o deslocamento da frente fria, pode haver chuva, vento e formação de geada

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2021 | 05h00

SOROCABA - Na manhã de terça-feira, 27, o movimento de tratores com pulverizador acoplado era intenso nas lavouras de café na região de Piraju, no interior de São Paulo. Com medo da nova grande geada que deve atingir a região nas próximas horas, os cafeicultores aplicavam nitrato de potássio e aminoácido para aumentar a resistência das plantas ao frio intenso. “O potássio reduz o ponto de congelamento da seiva do cafeeiro, que fica mais resistente aos efeitos da geada”, explicou o engenheiro agrônomo e consultor Marcus Dell Agnolo.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) prevê uma onda de frio entre esta quarta-feira, 28, e domingo, 1º, nas regiões Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste. Com o deslocamento da frente fria, pode haver chuva, vento e formação de geada. As regiões cafeeiras do Paraná podem ser atingidas pela friagem entre a noite desta quarta e a manhã de quinta. Lavouras da Alta Mogiana, em São Paulo, e do sul de Minas Gerais estarão sujeitas ao fenômeno entre a tarde de quinta e a manhã de sexta-feira, quando as temperaturas mínimas podem chegar a dois graus negativos.  

O serviço de monitoramento de geadas do Ministério da Agricultura aponta risco alto no sul e sudoeste do Paraná, com menor intensidade na região noroeste do estado, além do sul de Mato Grosso do Sul. Na madrugada de sexta, a previsão de geada se estende a todo o estado de São Paulo; ao sul, oeste, Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, em Minas Gerais, podendo atingir de forma mais isolada o sul de Goiás. A geada se amplia também no Mato Grosso do Sul.

Plantas fragilizadas

A nova onda de frio vai pegar as plantas já fragilizadas pela forte geada do último dia 20. Os cafeicultores se viram como podem na tentativa de reduzir o potencial dos estragos. O agricultor Fernando Lopes, de Mandaguari, no norte central do Paraná, já retomou o enterramento de 50 mil pés de café ainda pequenos para protegê-los da geada. Os cafeeiros são enterrados um por um, em um trabalho que demanda o esforço de homens e tratores durante ao menos três dias.

A máquina encosta a terra nas linhas do cafezal e os homens, com enxadas, cobrem a planta com terra. “As mudas novas, com menos de seis meses, têm o caule flexível que se dobra sob a terra. Quando a gente desenterra, a planta recupera o formato original”, contou. Lopes já fez o chamado ‘enterrio’ antes da geada do último dia 20 e salvou as plantas, que têm custo estimado em R$ 8 cada uma. “Compensa cobrir. Já para os cafezais mais velhos, só mesmo oração e fé para nos ajudar”, disse.  

Na região de Piraju, o cafeicultor Claudio Dell Agnolo, pai do agrônomo Marcos, concluía na terça-feira a pulverização de 90 hectares de cafezal - cerca de 270 mil plantas. A técnica já deu resultado na última geada, quando apenas os cafezais das baixadas foram atingidos, mas de forma leve. Marcos deu a fórmula da prevenção: aplicar na planta toda solução de nitrato de potássio a 2%, mais aminoácido. “É como a vacina contra a covid-19 que, se não impede totalmente a doença, pelo menos evita a hospitalização. No caso do café, evita a perda da planta”, comparou. Mesmo que a geada não venha, a planta se beneficia com o nutriente.

No sul de Minas Gerais, onde a última geada causou muitos estragos, os cafeicultores também estão se prevenindo, como conta o agrônomo Douglas Braga, da Cooperativa dos Cafeicultores de Campos Gerais e Campo do Meio (Coopercam). “Para reduzir o impacto da geada, recomendamos a limpeza de toda a lavoura com o uso de trincha (roçadeira com triturador) para deixar o solo exposto. Assim, o solo absorve mais calor e minimiza os efeitos das geadas.” Alguns produtores da região também praticam o “enterrio” das mudas mais novas para reduzir o impacto causado pelo frio intenso.

Conforme o pesquisador Vinícius Andrade, do Consórcio de Pesquisa Café da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), a cafeicultura é uma indústria a céu aberto e o produtor precisa avaliar os riscos dos eventos climáticos, como a geada, que ocorre com determinada frequência. Uma geada severíssima, como a de 1994, acontece a cada 30 anos. Já uma severa, que causa danos parciais ou totais, pode se repetir a cada seis anos. “O produtor deve se perguntar e consultar seus técnicos sobre o grau de risco que sua lavoura tem de ser afetada pela geada e pelo frio para tomar decisões”, explicou.

A primeira opção é não cultivar mais café no local afetado, pois se trata de local de risco. “Plantios foram realizados abaixo da linha da geada (locais sem ocorrência do fenômeno), que foi estudada e respeitada no passado. Dessa forma, a geada reforça a necessidade de uma criteriosa escolha da área para o plantio do café.” A segunda alternativa, conforme o técnico, é arborizar as lavouras intercalando as linhas de cafeeiros com árvores como o abacateiro, por exemplo. Essas árvores ajudarão a proteger o café das geadas, auxiliando a manter a temperatura mais alta nas noites frias e servindo de quebra-vento, além de gerar lucro extra.

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