José Henrique Mendonça/Sindicato Rural de Franca
Cafezal atingido pela segunda geada em menos de um mês, em julho, na região de Franca (SP): pés de café ficaram cobertos por camada de gelo. José Henrique Mendonça/Sindicato Rural de Franca

Agricultores relatam perdas de até 70% da produção após geada do fim de julho

Produtores de São Paulo e de Mato Grosso dizem que fenômenos climáticos, como muito sol e pouca chuva, vêm ditando ‘um ano muito difícil' para o setor

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 05h00

Quando a geada cobriu de branco os campos de Capão Bonito, no interior de São Paulo, no dia 20 de julho deste ano, o agricultor Edson Sukessada tinha 275 hectares de trigo soltando cachos. A expectativa era de uma produção de 75 sacas por hectare. Na terça-feira, 10, 20 dias depois, ele contabilizava a perda total da produção em 200 hectares. 

“Houve dano na estrutura da planta, e os cachos estão morrendo. Não vai dar colheita”, disse. A perda é de 15 mil sacas, prejuízo superior a R$ 1 milhão.

A geada atingiu também os 600 hectares cultivados com milho safrinha pelo produtor na mesma região. “As áreas mais velhas, que já estavam bem formadas, tiveram quebra de 5%. Já as mais novas, que plantamos até o limite da janela (período ideal para o cultivo), em 20 de março, tiveram perdas maiores, que vão de 50% a 70%. Creio que, na média, vamos fechar a colheita do milho safrinha com perda de 30% ou mais”, disse Sukessada. 

Conforme o agrônomo Nélio Uemura, da Cooperativa Agrícola de Capão Bonito, a região tem um bom regime de chuvas e é menos sujeita à estiagem, mas sentiu bastante os efeitos das geadas deste ano. “Nossos cooperados cultivaram cerca de 6,5 mil hectares de trigo e 70% dessa área estão condenados e não haverá colheita.” 

Em Gaúcha do Norte, Mato Grosso, o agricultor Ari Baltazar Langer, produtor de grãos, sofreu prejuízo dobrado em razão das condições climáticas. Em fevereiro, quando colhia a soja cultivada em 3,4 mil hectares, a chuva incessante causou a perda do grão pronto para a colheita.

Do início ao fim da colheita, que durou 50 dias, choveu em 48 dias. Teve carga de soja com perda de 99% devido ao excesso de umidade. Ele esperava média de 55 sacas por hectare e colheu 35.

Langer contava com a safra do milho para se recuperar do prejuízo. Ele caprichou na escolha das sementes, usou toda a tecnologia disponível para o manejo das lavouras, porém, outra vez São Pedro não ajudou. Agora, foi a seca que atingiu os 950 hectares de milharal. 

“Foram dias e dias de sol sem um pingo de água. A lavoura não desenvolveu”, disse. Ele esperava uma média de 80 sacas por hectare e só conseguiu 35. “Para o produtor rural, está sendo um ano muito difícil.”

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Frio e estiagem prejudicam produção no campo, e brasileiro vai pagar mais caro por carne e leite

Depois de dois anos de recorde, a Companhia Nacional de Abastecimento projeta queda de 1,2% para a atual safra brasileira de grãos; entre os produtos mais afetados está o milho, usado em outras cadeias de produção de alimentos

Lorenna Rodrigues e Vinícius Neder, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 05h00
Atualizado 11 de agosto de 2021 | 14h55

BRASÍLIA e RIO - Os consumidores brasileiros não deverão ter trégua nos próximos meses. A prolongada estiagem e, mais recentemente, as ondas de frio registradas em várias regiões do País afetaram a produção de milho, café, hortaliças e laranja, o que deve elevar ainda mais o custo desses produtos nas prateleiras dos supermercados. Como o milho é usado na ração de bovinos, suínos e, principalmente, frangos, o preço desses itens também seguirá pressionado.

Depois de dois anos de recorde, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projetou na terça-feira, 10, uma queda na safra de grãos brasileira 2020/2021. A expectativa é de que sejam produzidas 254 milhões de toneladas, 1,2% a menos do que na safra anterior.

Mesmo com o aumento de 4% na área plantada, a redução na produção se deve à queda na produtividade por causa da estiagem nas principais regiões produtoras e das geadas. Economistas alertam que parte desses eventos climáticos ainda não estava no radar e ainda poderá ter efeitos negativos nos preços.

O café foi uma das lavouras mais atingidas pela recente onda de frio, que prejudicou também a produção de milho, que já tinha sofrido com problemas climáticos no início do ano. No segundo semestre do ano passado, produtores de soja atrasaram em cerca de um mês o plantio do grão por falta de chuvas. Isso não prejudicou a safra do principal produto agrícola exportado pelo País, que registrou produção recorde, mas adiou o cultivo da segunda safra do milho, que é plantada na entressafra da soja.

Com isso, a Conab projetou uma quebra de 15,5% nas colheitas de milho. A primeira safra, de verão, está projetada em 24,9 milhões de toneladas, 11% abaixo da safra anterior. A segunda safra, tradicionalmente chamada de “safrinha”, deve ser de 60,32 milhões de toneladas, 19,6% abaixo da de 2020.

 

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“O milho foi a principal questão que levou a Conab a reduzir a projeção da safra. Os preços já vinham em alta, e teremos uma oferta apertada, muito ajustada à demanda, até maio de 2022, que é quando se colhe a safrinha 2022”, afirmou o assessor técnico da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Fábio Carneiro.

O clima também levou o IBGE a revisar sua estimativa para a safra de grãos. O IBGE ainda estima ligeiro aumento, de 0,8%, mas fez revisões para baixo pelo quarto mês seguido – e a perspectiva é de continuar rebaixando as previsões.

O analista de Agropecuária do IBGE, Carlos Antônio Barradas, disse que as estimativas do órgão para a segunda safra de milho poderão piorar porque os efeitos negativos das geadas ainda não foram totalmente captados. Além disso, há a possibilidade de novas ondas de frio chegarem, o que, assim como a estiagem prolongada, pode afetar a safra de trigo.

Carneiro, da CNA, compartilha da preocupação. Ele explica que o produto é usado como substituto parcial do milho na ração animal, principalmente para bovinos, e o tamanho da colheita pode definir o comportamento do preço das carnes nos próximos meses. “Nosso medo é haver geada em agosto e atingir as plantações de trigo, principalmente no Paraná. Hoje, há uma perspectiva de crescimento de área, mas pode haver perda de produtividade”, afirmou.

Inflação

Os problemas na oferta de commodities (matérias-primas com cotação internacional) agrícolas, como milho, soja, café e leite, puxaram a aceleração da inflação medida pelo IGP-DI em julho, quando registrou alta de 1,45%. De acordo com o pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) André Braz, os impactos da seca já estavam no radar, mas as frustrações causadas pelas geadas ainda terão efeitos nos preços. “Isso pode frustrar a expectativa de desaceleração da inflação no segundo semestre”, afirmou.

Além de pressionar os preços finais das carnes, o aumento no custo do milho tem efeito sobre o ovo e o leite, que, mais caro, também tende a encarecer laticínios em geral. Além disso, as ondas de frio afetam a produção de alimentos in natura, como hortaliças e legumes, integrantes da cesta básica da maioria das famílias.

Para o diretor da consultoria MB Agro, José Carlos Hausknecht , a frustração de novos recordes na produção agrícola em 2021 confirma ainda uma expectativa de estabilidade no PIB da agropecuária no fechamento do ano. No primeiro trimestre, o PIB da agropecuária avançou 5,7% ante os três últimos meses de 2020, em desempenho impulsionado pela safra recorde de soja. Com isso, no início do ano, as expectativas apontavam para um avanço de 2% a 3% no PIB da agropecuária, alta que foi minada pelos efeitos do clima sobre a produção.

Ainda assim, ele acrescenta que o quadro ainda é favorável para o produtor. Com as cotações das commodities elevadas e o dólar alto, os produtores agrícolas nacionais ainda têm um impacto positivo em sua renda. Isso sinaliza para renovação de investimentos para a próxima safra.

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