Fernando Lopes/Arquivo Pessoal
Fernando Lopes/Arquivo Pessoal

Geada prejudica cafezais de três Estados e compromete safra de 2022

Lavouras em Minas, São Paulo e Paraná foram afetadas por duas ondas de frio consecutivas e cafeicultores calculam que as perdas podem chegar a 35% da produção

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2021 | 15h30
Atualizado 23 de julho de 2021 | 22h02

SOROCABA - Quando a meteorologia previu uma geada forte para a noite do último dia 19, o agricultor Fernando Lopes, de Mandaguari, no norte central do Paraná, foi obrigado a adotar uma medida extrema. Ele cobriu com terra, um por um, 50 mil pés de café plantados recentemente que, se ficassem expostos ao tempo, seriam torrados pela camada de gelo. Lopes salvou as mudas pequenas, desenterradas três dias depois, mas não conseguiu evitar as perdas em outros 650 mil cafeeiros de até 15 anos espalhadas por 146 hectares da fazenda. “Foram danos variáveis, mas, na média, teremos uma quebra de 30% na safra do ano que vem”, disse.  

Produtores de café arábica dos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Paraná, que abrigam algumas das principais regiões produtoras do Brasil, contabilizam os prejuízos causados por duas geadas consecutivas que atingiram as lavouras. De origem africana, o cafeeiro é sensível ao frio e, dependendo da intensidade, a geada pode até matar a planta. O governo federal está usando imagens de satélite para dimensionar o tamanho do estrago, mas já admite o impacto na safra de 2022. A geada fez subir o preço do café no mercado internacional.

Muitos produtores terão de arrancar os cafezais mais danificados. É o que pode ter acontecido em algumas lavouras de Lopes. “Ainda não temos certeza, mas é possível que tenhamos de fazer a recepa (corte baixo do tronco, com perda da copa) em alguns talhões”, disse. Ele mantém tratores e pessoal a postos para, eventualmente, enterrar outra vez os cafeeiros novos. “Há outra previsão de geada para o fim do mês.”

O pesquisador José Donizeti Alves, especialista em café da Universidade Federal de Lavras (UFLA), em Minas, disse que essa última geada foi mais severa que a anterior, na noite de 30 de junho. “Desta vez, a extensão da área foi muito maior, atingindo 15% do cerrado mineiro, 20% das lavouras do sul de Minas e 10% na região da Mogiana, com variável alta de queima, entre 50% e 100%. Ainda é preciso aguardar até duas semanas para conhecer a extensão dos danos, mas a quebra é irreversível e deve passar de 4 milhões de sacas”, disse. O Brasil produz média de 60 milhões de sacas de café por ano.

Conforme Alves, os dados já disponíveis mostram que os cafezais das baixadas tiveram perda total, assim como as lavouras novas. “O cafeicultor que estava com safra zero este ano apostando em uma grande produção no ano que vem, vai ficar dois anos sem colher”, disse.

Ele explica que muitos produtores aproveitam a bienalidade do café (em um ano produz muito, no outro não) para fazer o esqueletamento da planta (corte dos ramos laterais) que, assim, não produz naquele ano, mas acumula energia para aumentar a produtividade. “A geada pegou muito forte nesses cafezais e muitos terão de passar por recepa, mas ainda é preciso aguardar para ver como a planta reage ao estrago. Muita gente compara a intensidade desta geada com a de 1994, mas já podemos dizer que esta foi mais severa”, disse.

Prejuízos acumulados

Na região cafeeira da Alta Mogiana, que abrange sete municípios do sudoeste de Minas Gerais e 15 paulistas, a quebra na safra de 2022 poderá chegar a 35% devido às condições climáticas adversas. “Já prevíamos uma perda de 25% em função da seca e, agora, com as geadas podemos ter até 10% a mais de quebra”, disse o presidente do Sindicato Rural de Franca, José Henrique Mendonça. Ele contou que a primeira geada, mais fraca, havia atingido de 1,5 mil a 1,8 mil hectares de café, causando a queima das folhas e danos superficiais - a chamada geada de capote, que atinge mais a parte externa da planta.

A segunda, entre a noite de 19 e madrugada do dia 20, foi mais severa e deixou prejuízos de grande monta. “Infelizmente, essa última foi grave. Na região, este ano é de produção baixa, devido à bienalidade da lavoura, por isso, a maioria dos produtores usou a técnica do esqueletamento do cafezal, apostando em uma boa produção no ano de 2022. Essas lavouras foram pegas em cheio pela geada e pelo frio intenso. Houve queima dos ramos e a planta foi muito afetada, comprometendo a produção futura”, disse.

Com o esqueletamento, a planta fica mais exposta às intempéries. De acordo com Mendonça, quando o cafeeiro é atingido pela geada, mesmo que recupere a parte vegetativa, pode haver o abortamento da florada. “Só vamos saber o grau dos danos em outubro ou novembro, mas as previsões gerais do setor indicam uma perda de 20 milhões de sacas na safra de 2022. Isso sem considerar que temos previsão de uma nova geada nas regiões produtivas antes de virar o mês, com temperatura que pode chegar a 0,4ºC.” A região da alta Mogiana produz em média 5 milhões de sacas de café arábica por ano.

Danos irreparáveis

O produtor Luís Clóvis Gonzaga, de Pedregulho (SP), conta que, depois de uma colheita abaixo da esperada em 2020, devido à estiagem e ao calor intenso, ele e outros cafeicultores da região decidiram preparar a lavoura este ano para uma boa produção em 2022. Só não contavam com geadas tão fortes. “Tivemos uma geada em 1994 que afetou bastante os cafezais, mas tenho certeza que esta foi muito mais forte e mais intensa”, disse.

Ele também tem lavouras de café no município de Serra do Salitre, no cerrado mineiro. “Aqui em Pedregulho foi mais tranquilo, porque o cafezal está em cima do morro e ficamos protegidos, pois a geada pegou mais as baixadas. Em Minas, são 90 hectares e 90% da área foi atingida. Temos um vizinho que teve 500 hectares muito afetados”, contou.

Segundo Gonzaga, é preciso esperar mais alguns dias para avaliar a resposta de cada lavoura à agressão pelo frio intenso. “Acredito que as mais novas, no baixo, terão de ser replantadas. Os danos da geada são irreversíveis. Como a temperatura veio extremamente baixa, onde não queimou, o botão floral vai sofrer abortamento e a planta não frutifica”, explicou.

No Paraná, a primeira geada havia atingido a região central do estado, enquanto a segunda pegou com mais força os cafezais do chamado norte pioneiro, segundo o especialista em café do Departamento de Economia Rural (Deral), Paulo Sérgio Franzini. “Estamos com quase 50% da safra atual já colhidos, então o impacto será pequeno, com perda na qualidade do café. Já a safra de 2022 terá um comprometimento maior, porém ainda é cedo para quantificar”, disse. Segundo ele, a geada pegou as plantas estressadas pela seca e pela colheita, o que pode potencializar os danos. “Mais de 50% da nossa área do café foram atingidos, mas só a partir de agosto é que aparece o efeito canela, então precisamos aguardar.”

A chamada geada de canela é provocada pelo vento que sopra morro abaixo em noites de frio intenso, congelando a seiva que passa pelo caule do cafeeiro, que são necrosados e ficam escuros. A planta precisa ser cortada. “Nessa geada mais recente, a temperatura mínima perdurou por mais tempo e, com mais horas de frio intenso, o dano foi maior”, disse. O Deral, vinculado à Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Paraná, já emitiu alerta aos agricultores para a previsão de nova geada no fim do mês.

Conab calcula perdas

Equipes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura, enviou equipes ao campo para avaliar os estragos das geadas na cafeicultura. “Pelo que já sabemos entre 150 mil e 200 mil hectares de cafezais foram afetados. Agora, resta saber qual a intensidade do dano”, disse o diretor de Política Agrícola e Informações, Sérgio De Zen. Segundo ele, também estão sendo usadas imagens de satélite para acompanhar os efeitos do fenômeno. “Em 15 dias vamos ter a certeza do que teremos de fazer para ajudar principalmente o pequeno produtor”, disse.

De acordo com o dirigente, a cafeicultura nacional é representada por 700 mil cafeicultores, a maioria com área de até 20 hectares. “O custo para formar um cafezal gira em torno de R$ 20 mil por hectare, o que dá uma ideia do possível prejuízo. Tem muita gente que depende do café e vamos analisar o que pode ser feito. A geada agravou uma situação que já era difícil, pois o produtor já enfrentava problemas com a seca. A crise hídrica com certeza agravou os efeitos das geadas.”

O fenômeno fez o preço do café arábica disparar no mercado internacional. A saca de 60 kg que era vendida a R$ 606 em dezembro de 2020, atingiu R$ 960 nesta sexta-feira, 23, em São Paulo - alta de quase 60%.

O serviço de monitoramento das geadas criado pela Conab detectou danos causados pelo fenômeno também em outras culturas. Nos estados de Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná, foram atingidas as lavouras de milho safrinha (segunda safra), que estavam em fase de enchimento de grãos. No Paraná e em Mato Grosso do Sul, já há previsão de quebra na produtividade entre 22% e 30%. Lavouras de trigo também foram afetadas, com queima da parte vegetativa da planta, em Mato Grosso do Sul, São Paulo e oeste do Paraná.

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