Tasso Marcelo/Estadão
Vírus foi encontrado em pequena amostra retirada de um lote importado do Brasil. Tasso Marcelo/Estadão

China detecta coronavírus em frango nacional, mas setor descarta embargo

Traços da doença foram encontrados em embalagem de produto associado ao frigorífico Aurora; Ministério da Agricultura diz que fiscalização é rígida, mas não infalível, enquanto fonte do setor afirma que risco de barreira à carne brasileira é real, porém baixo

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2020 | 00h34
Atualizado 14 de agosto de 2020 | 08h41

SÃO PAULO e BRASÍLIA - A informação de que uma autoridade do município chinês de Shenzhen encontrou traços de coronavírus em uma embalagem de frango de origem brasileira, divulgada na quinta-feira, 13, acendeu a luz amarela para o mercado brasileiro de carnes, que tem a China como principal cliente. A embalagem em questão teria saído de uma das unidades do frigorífico catarinense Aurora. A notícia, que ainda não foi confirmada pelo entidade alfandegária do País, a Gaac, causou apreensão no agronegócio brasileiro. Fontes do setor descartaram um embargo no curto prazo, mas disseram que a possibilidade de uma barreira não é nula.

A apreensão tem razão de ser. Um dos dez principais itens da pauta exportadora, a venda externa de carne de frango somou, de janeiro a julho de 2020, um total de 2,47 milhões de toneladas, com alta de 0,5% em relação ao mesmo período do ano passado. Em volume financeiro, por causa da alta do dólar, o avanço foi de 11%, na mesma comparação, para mais de US$ 4,1 bilhões, de acordo com dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

O caso em relação ao setor se refletiu, por exemplo, na forte queda da ação da empresa de alimentos BRF. Os papéis da companhia despencaram quase 8% nesta quinta, fechando o dia cotados a R$ 20,93. 

O presidente do conselho da BRF, Pedro Parente, afirmou, em São Paulo, que uma notícia de contaminação traz “problemas” a todo o setor. “Tivemos um resultado sólido da BRF (no balanço do segundo trimestre, divulgado ontem), mas mesmo assim as ações da companhia caíram bastante”, disse Parente. “Não foi com a nossa companhia, mas isso não importa.” 

Cuidados para evitar contaminação

Diante da possibilidade de prejuízos às exportações, o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Agricultura, Orlando Leite Ribeiro, afirmou que os frigoríficos brasileiros seguem rígidos protocolos para evitar contaminação dos produtos durante a pandemia do coronavírus, mas que não existe “risco zero”. “É preciso sublinhar que não existem estudos científicos que sustentem o contágio por alimentos”, disse Ribeiro.

Segundo o Ministério da Agricultura, o governo brasileiro já entrou em contato para esclarecer a situação. Uma fonte do setor garantiu que a contaminação foi externa - ou seja, na embalagem - e não no produto em si. Isso reduziria os riscos de alguma sanção à carne brasileira. 

A China está acompanhando de perto traços da doença em itens alimentícios. Uma reportagem da Reuters afirmou também nesta quinta-feira que sete frigoríficos argentinos tiveram exportações suspensas por causa da covid-19. A suspensão relacionada à Argentina se refere à carne bovina, e não de frango. A China foi o destino de 75% da carne vendida ao exterior pela Argentina no ano passado.

Fontes do setor disseram que a chance de um embargo chinês ao frango brasileiro existe, embora o risco de isso ocorrer não pareça, no momento, relevante. “Certamente eles não pretendem partir para o embargo. Eles precisariam de mais evidências e fatos para chegar a esse ponto, mas há risco”, disse um especialista da área ao Estadão/Broadcast. Diante da necessidade de importar alimentos para abastecer seu mercado interno gigante, a China também tem interesse em esclarecer rapidamente a situação.

Parente, da BRF, ressaltou ontem ser “evidente” que a China vai precisar continuar comprando carnes do Brasil. “Ela não tem muitos países para suprir a redução doméstica da proteína suína”, disse, referindo-se à perda de cerca de 40% do plantel chinês de porcos por causa da peste suína africana. “A realidade tem de se impor, e a realidade é que a China precisa de nós, da proteína brasileira.”

A Aurora, que não é listada em Bolsa, é a terceira maior empresa do Brasil em processamento e exportação de carne de frango e suína. Procurada, a companhia divulgou nota em que afirma não ter sido notificada oficialmente pelas autoridades chinesas de que a amostra testada é de uma de suas unidades. A empresa afirmou que “todas as medidas estabelecidas pelas autoridades públicas, relativas ao combate à pandemia, estão sendo integralmente seguidas” em suas fábricas.

Outros casos na China

Também na quinta-feira, amostras de outro pacote de camarões congelados do Equador vendidos na cidade de Xi'An, no noroeste da China, testaram positivo para o vírus, disseram autoridades locais.

As descobertas vieram um dia depois que traços do coronavírus que causa a covid-19 terem sido descobertas em embalagens de camarões congelados também do Equador em uma cidade na província de Anhui, ao leste do país. A China tem aumentado as análises em portos devido a preocupações com importações de alimentos. 

Autoridades de saúde de Shenzhen disseram que rastrearam e testaram todos que possam ter tido contato com os alimentos potencialmente contaminados e que todos resultados foram negativos.

Além dos testes em contêineres de carnes e frutos do mar que chegam aos principais portos nos últimos meses, a China suspendeu algumas importações de carnes de diversas origens, incluindo o Brasil, desde meados de junho.

O chefe de microbiologia do laboratório do Centro Nacional de Avaliação de Segurança Alimentar da China, Li Fengqin, disse a jornalistas em junho que a possibilidade de alimentos congelados causarem novas infecções não poderia ser descartada. / ÉRIKA MOTODA, LORENNA RODRIGUES e TÂNIA RABELLO, COM REUTERS

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Governo diz que frigoríficos brasileiros têm rígidos protocolos, mas não há 'risco zero'

Ministério da Agricultura também fez questão de ressaltar que não existem estudos sobre o risco de contaminação por covid-19 por meio de alimentos

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2020 | 18h45

BRASÍLIA — O secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Agricultura, Orlando Leite Ribeiro, disse que os frigoríficos brasileiros seguem rígidos protocolos para evitar contaminação dos produtos durante a pandemia do coronavírus, mas que não existe “risco zero”.

“Temos os mais rígidos protocolos de prevenção, mas não existe 'risco zero'. No entanto, é preciso sublinhar que não existem estudos científicos que sustentem o contágio por alimentos”, disse Ribeiro ao Broadcast.

Nesta quarta-feira, o governo da cidade chinesa de Shenzhen disse que uma amostra de asas de frango congeladas importada do Brasil teve teste positivo para o coronavírus. O vírus teria sido encontrado em embalagens e não na carne de frango.

Segundo Ribeiro, o governo brasileiro já entrou em contato com a Administração-Geral de Aduanas da China (GACC) buscando as informações oficiais, mas a própria GACC aguarda mais informações sobre o caso ocorrido em Shenzhen. Os contatos entre os governos de Brasil e China continuam ocorrendo.

Não houve nenhum comunicado oficial ao governo brasileiro nem reação ou proibição de importação dos frigoríficos do país. “Temos um diálogo fluido e transparente com a GACC. Não houve nenhuma reação. Não fomos notificados oficialmente”, afirmou.

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Argentina tem sete frigoríficos com exportação à China suspensa por covid-19

China é o destino de 75% do total de 845,9 mil toneladas exportadas pela Argentina no ano passado; país asiático afirmou que encontrou coronavírus em frango exportado pelo Brasil nesta quinta-feira, 13

Reuters

13 de agosto de 2020 | 18h01

BUENOS AIRES  - Sete frigoríficos da Argentina estão com suas exportações de carne para a China suspensas devido ao registro de casos de covid-19 entre funcionários, disse nesta quinta-feira uma fonte do departamento sanitário argentino Senasa, que acrescentou que é possível que três das unidades comecem a retomar os embarques ao país asiático nos próximos dias.

A China é a maior compradora de carne bovina da Argentina, sendo o destino de 75% do total de 845,9 mil toneladas exportadas pelo país sul-americano no ano passado.

No entanto, por causa da pandemia, os países concordaram que, caso fosse registrado um caso de Covid-19 em uma fábrica argentina, esta interromperia os embarques e solicitaria sua suspensão da lista de empresas autorizadas a exportar para a China até que o Senasa e o país asiático liberassem a reintrodução.

“Há sete (estabelecimentos) temporariamente suspensos”, disse à Reuters uma fonte do Senasa, que explicou que nos próximos dias três deles poderão voltar a ser incorporados pela China à lista de companhias autorizadas.

Segundo a fonte, desde o início da pandemia um total de 11 frigoríficos se autoexcluíram de exportar para a China após a detecção de casos de coronavírus, de um total de 96 estabelecimentos que integram a lista de empresas permitidas a enviar carnes e pescados à potência asiática.

Frango brasileiro 

Uma amostra de asas de frango importado do Brasil pela cidade chinesa de Shenzhen, ao sul do país, testou positivo para o coronavírus, disse o governo local nesta quinta-feira, 13, gerando temores de que embarques de alimentos contaminados possam causar novos surtos.

Centros locais de controle de doenças testaram uma amostra de superfície tirada das asas de frango congeladas como parte de análises de rotina realizadas sobre carnes e frutos do mar importados desde junho, quando um novo surto em Pequim foi associado a um mercado atacadista de alimentos na cidade de Xinfadi.

Por meio do número do lote citado no comunicado do governo chinês, identificou-se que o produto é da Aurora Alimentos, de Santa Catarina. A empresa divulgou nota em que afirma não ter sido notificada oficialmente pelas autoridades chinesas de que a amostra testada é de uma de suas unidades. Diz ainda que "todas as medidas estabelecidas pelas autoridades públicas, relativas ao combate à pandemia, estão sendo integralmente seguidas e cumpridas" pela empresa.

O Ministério da Agricultura também informou na tarde desta quinta-feira que “até o momento não foi notificado oficialmente pelas autoridades chinesas” sobre a suposta detecção de traços de coronavírus em lote de asas de frango brasileiro importado pelo país.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) avalia ao lerta da China sobre coronavírus, mas nega transmissão por carne. 

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Não há evidências de que covid-19 pode ser transmitida pela comida, diz OMS

A entidade se pronunciou frente à detecção do vírus em frango brasileiro importado pela China

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2020 | 15h24

Frente à detecção do novo coronavírus (Sars-CoV-2) em frango congelado do Brasil importado pela China, o diretor de emergências da Organização Mundial da Saúde (OMS), Michael Ryan, afirmou que não há evidência de que a doença pode ser transmitida através da comida.

“Nossos alimentos, de uma perspectiva relacionada à covid-19, são seguros”, disse durante coletiva de imprensa nesta quinta-feira, 13. Ele acrescentou, no entanto, que cuidados devem ser tomados no manejo e preparo da alimentação por conta de outras doenças, mas que o Sars-CoV-2 não representa um risco nesta área.

A líder técnica da resposta à pandemia da OMS, Maria Van Kerkhove, acrescentou que a China tem testado alimentos para checar se há presença de coronavírus e que, até o momento, encontraram menos de dez casos. 

“Não temos exemplos de transmissão do vírus pela comida, mas ele pode ser morto, como em outros casos, se a carne for cozida”, explicou Maria.

Ela afirmou que existe chance da doença ser transmitida por superfícies mas que, nessas situações, é possível se livrar do coronavírus com a higienização adequada das mãos.

Ryan também declarou que, embora as evidências científicas precisem ser levadas em conta onde forem encontradas e que identificações do tipo continuarão a ser realizadas, a população não deve relacionar a doença à alimentação."Pessoas não devem ter medo de comida, da embalagem ou do processamento. Odiaria criar a impressão de que há problema com a nossa cadeia de alimentos".

Nesta quinta-feira, além de amostras do vírus em asas de frango levadas do Brasil para a cidade chinesa de Shenzen, presença de Sars-CoV-2 foi detectada também em camarão importado do Equador para Xiam, no noroeste do país asiático. 

Autoridades de saúde de Shenzhen disseram que rastrearam e testaram todos que possam ter tido contato com os alimentos potencialmente contaminados e que todos resultados foram negativos.

Na China, análises de rotina tem sido realizadas sobre carnes e frutos do mar importados desde junho, quando um novo surto em Pequim foi associado a um mercado de alimentos na cidade de Xinfadi.

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