Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

CNA diz que Brasil não pode ter 'ideologia e bandeira' em comércio com outros países

João Martins, presidente da entidade, declarou durante coletiva que a CNA "é a representante dos produtores rurais de todas as ideologias"

Lorenna Rodrigues e Augusto Decker, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2020 | 12h37
Atualizado 02 de dezembro de 2020 | 07h31

BRASÍLIA E SÃO PAULO - O presidente da Confederação Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, disse nesta terça-feira, 1º, que o Brasil não pode ter “ideologia nem bandeira” no comércio exterior. “Exportamos para mais de 170 países. Não são os Estados Unidos que vão determinar o que produzimos ou para quem vamos vender”, afirmou.

Em coletiva para fazer um balanço de 2020 e projeções para 2021, Martins foi questionado sobre a visão do setor dos recentes embates do entorno de Bolsonaro com a China.

Na semana passada, a embaixada da China em Brasília reagiu à acusação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Bolsonaro, de que o país praticaria espionagem por meio de sua rede de tecnologia 5G. “Ele não é o presidente da República, os filhos do presidente  são apenas deputado e senador”, afirmou Martins. “O presidente é o Jair Bolsonaro, é ele que quando fala temos que ouvir”, completou.

Martins disse que seu relacionamento no governo é com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que disse ter “constantemente contornado rompantes”. Ele ressaltou ter uma “relação profissional” com o presidente Jair Bolsonaro. “A CNA tem que se portar com profissionalismo, é a representante dos produtores rurais de todas as ideologias”, completou.

O presidente da CNA disse que conversou com o embaixador da China no início da pandemia, com quem disse ter relação de “amizade pessoal” para garantir que não haveria problemas de abastecimento.

“A CNA procura sempre se afastar de ideologia. Somos produtores rurais e precisamos exportar o que produzimos, o consumo interno não é suficiente. É mercado, quem paga melhor, quem quer vender produto”, completou.

A superintendente de Relações Internacionais da confederação, Lígia Dutra, defendeu o pragmatismo nas relações comerciais e disse que o produtor brasileiro é hoje um grande parceiro do comprador chinês.

“Claro que existem tensões geopolíticas, que não são exclusivas do Brasil. Por isso é preciso fortalecer negociações multilaterais e a Organização Mundial do Comércio (OMC), que é onde podemos questionar se as políticas feitas pela China estão ou não de acordo [com as regras de comércio]. Temos que usar esses caminhos”, completou.

Lígia lembrou que houve redução de comércio do Brasil com os Estados Unidos neste ano, mesmo com a aproximação dos presidentes dos dois países. “Comércio é pragmatismo. Podemos ter um alinhamento com o governo para questões políticas, mas para as comerciais, precisamos trabalhar o mercado, conhecer o consumidor. São coisas técnicas que temos que fazer cada vez mais”, explico.

Ela disse ainda esperar, mesmo com a eleição do democrata Joe Biden para a presidência dos EUA, a continuidade de uma política “bastante intensa” daquele país em relação à China. “Não é porque entrou o novo presidente que vai acabar a guerra comercial”, ponderou.

Lígia disse ainda que o Brasil deve ficar atento ao Brexit – a saída do Reino Unido da União Europeia – que representa uma oportunidade para o Brasil. “Os principais exportadores para o Reino Unido são europeus.  Com a saída deles do mercado comum, temos oportunidade de aumentar nossas exportações”, afirmou.

Exigências ambientais

Martins disse que o setor vem tomando medidas para fazer frente às exigências ambientais de países  europeus e que também devem ser feitas no governo do democrata Joe Biden nos Estados Unidos.

“O Brasil não está de braços cruzados sobre as questões ambientais e as dificuldades que teremos lá fora”, afirmou.

Ele citou que o País está desenvolvendo sistemas de rastreabilidade e tem uma lei ambiental bastante rigorosa no Código Florestal. “Temos tudo para cumprir as exigências ambientais. Não vejo nenhum problema nessa área”, acrescentou.  

Inflação

A inflação de alimentos não deve ser, em 2021, um problema tão grande quanto foi este ano, de acordo com a CNA. A expectativa é de que o País aumente a produção e que não haja um aumento da demanda tão súbito quanto houve com o pagamento do auxílio emergencial pelo governo.

 "Este ano, tivemos variáveis que intensificaram tanto a demanda quanto a queda na produção", disse o superintendente técnico da entidade, Bruno Lucchi. "E esse cenário foi intensificado com a pandemia. Depois da pandemia, deve haver aumento da produção de todas as proteínas animais e todos os grãos, mesmo com a questão climática, então o lado da oferta será beneficiado. Em relação à demanda, o aumento momentâneo que veio no ápice da pandemia vai ser diluído ao longo do ano", completou. O presidente da entidade, João Martins, destacou que os preços de carne, leite e arroz já caíram.

 Para explicar os altos preços este ano, os executivos afirmaram que o dinheiro do auxílio emergencial no Brasil foi usado, em grande parte, na compra de alimentos, e, por causa da pandemia, muitos países tiveram problemas de desabastecimento. Além disso, a desvalorização do real estimulou exportações. "E, no começo da pandemia, não sabíamos como seria o consumo de alimentos no Brasil, então escoaram a produção para a exportação."

Projeções

O PIB do agronegócio brasileiro deve continuar crescendo em 2021, embora em menor ritmo do que em 2020, segundo projeção da CNA. A estimativa para o próximo ano é de aumento de 3% no PIB do setor, para R$ 1,8 trilhão; já para 2020, a entidade projeta avanço de 9%, para R$ 1,75 trilhão.

 De acordo com a CNA, o setor agropecuário ajudou o País durante a pandemia e deve seguir fazendo o mesmo no ano que vem. "Foi uma estratégia de guerra que nós adotamos, e que, de certa forma, teve êxito" afirmou Lucchi. "Muitos produtores se prejudicaram, mas acreditamos que saldo final seja positivo." Entre janeiro e outubro, o setor criou 102.911 empregos formais. Nos dez primeiros meses deste ano, o País exportou US$ 85,8 bilhões, o que representa um avanço anual de 5,7% em valor e de 12,4% em volume.

 Para o ano que vem, Lucchi diz que o País deve manter uma safra recorde, mas que o clima deve influenciar a produção brasileira. "O La Niña já atrasou a safra de soja, vai atrasar a safrinha de milho. A safra verão de milho também já foi afetada", disse. "Não deixaremos de ter safra recorde, mas a safra poderia ser maior se não fosse a questão climática." O milho, de acordo com Lucchi, é uma preocupação. "A nossa produção deve estar bem ajustada ao consumo doméstico e a China vai voltar a comprar muito. Nós não vendemos diretamente para a China, mas a China compra de outros países e esses outros países podem vir comprar do Brasil."


 

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