Paulo Whitaker/Reuters
Aumento é causado pela busca por fontes de vitamina C, para fortalecer o sistema imunológico durante a pandemia. Paulo Whitaker/Reuters

Com demanda por vitamina C, Brasil eleva exportação de frutas cítricas na pandemia

Enquanto a venda de frutas em geral para outros países caiu 5% no primeiro semestre, produtos como tangerina, laranja, limão e lima tiveram avanço de 12%

Fabrício de Castro e André Borges, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2020 | 06h00

BRASÍLIA - A crise provocada pela pandemia do novo coronavírus impulsionou a venda de frutas cítricas brasileiras para outros países. Enquanto o volume de exportação de frutas em geral caiu 5% no primeiro semestre do ano, em relação ao mesmo período de 2019, a comercialização de produtos como tangerina, laranja, limão e lima avançou 12%. Em seis meses, essas frutas foram responsáveis por US$ 57,1 milhões em exportações, o que representa uma alta de 8% no valor exportado.

Os dados fazem parte de estudo feito pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA), com base em informações do governo federal. Os números revelam que, durante a pandemia, as frutas cítricas destoaram da tendência mais geral de retração nas vendas para outros países.    

Por trás do movimento está principalmente o interesse dos países europeus, em especial Holanda, Reino Unido, Espanha e Alemanha, que compraram frutas cítricas em busca de fontes de vitamina C – vista como uma ferramenta para ajudar a fortalecer o sistema imunológico da população durante a pandemia. Com volumes menores de compras, também se destacaram Emirados Árabes e Canadá.

Se por um lado o volume exportado de melão – uma das principais frutas vendidas pelo Brasil a outros países – recuou 13% no primeiro semestre, a comercialização de tangerina subiu 158%, a de laranja avançou 132% e a de limão e lima teve alta de 12%. O destaque ficou por conta de limões e limas, que juntos somaram 71,7 mil toneladas exportadas de janeiro a junho.  

No período, o Brasil vendeu 399.804 toneladas de frutas em geral in natura (fresca, sem processamento), o que gerou US$ 312,4 milhões em divisas para o País. Deste total, 73.039 toneladas foram de frutas cítricas (18% de todas as frutas), em um montante de US$ 57,1 milhões.     

“No início da pandemia, surgiu uma demanda muito grande por vitamina C”, explica o assessor técnico da Comissão de Fruticultura da CNA, Erivelton Cunha. “A vitamina era vista como uma forma de ajudar na imunidade.”

Em função disso, as vendas de laranjas, que chegaram a cair 58% no primeiro trimestre do ano, passaram a subir no período de pandemia, encerrando o primeiro semestre com alta superior a 100%.     

Outras frutas tradicionalmente exportadas pelo Brasil tiveram desempenho pior. Conforme Cunha, itens como mamão, uva e manga foram prejudicados por não poderem utilizar os modais aéreos. “São frutas que vão para outros países juntamente com os passageiros”, explica o assessor da CNA. Com a forte redução do número de viagens aéreas, estes itens encalharam no Brasil.

“Também houve redução de demanda”, acrescenta o especialista. No caso das frutas cítricas, ocorreu justamente o contrário, com a demanda sendo impulsionada pela busca de alimentos saudáveis durante a pandemia.

Renda

Apesar dos bons resultados do primeiro semestre, há dúvidas sobre a continuidade do desempenho no segundo semestre. Além de o período de colheita das frutas cítricas se concentrar em maio, junho e julho, os exportadores terão de lidar, até o fim deste ano, com as incertezas em relação ao consumo pós-pandemia.

“Esperamos uma sensibilização maior dos consumidores quanto à alimentação e que ocorra procura maior por frutas e hortaliças, ricas em vitaminas e sais minerais”, diz Cunha. “Por outro lado, existe a questão financeira. Será que a população terá dinheiro para consumir este tipo de produto, ou será que vai preferir comprar itens básicos, como carboidratos e proteínas?”

Técnicos do Ministério da Agricultura ouvidos pelo Estadão/Broadcast Agro lembraram que a representatividade das frutas cítricas é pequeno no universo das exportações agrícolas do Brasil. Ao mesmo tempo, afirmaram que a expectativa é de que haja um aumento das vendas de frutas em geral no segundo semestre.

Eles lembraram que a segunda metade do ano é, tradicionalmente, mais favorável para a exportação de frutas brasileiras. Além disso, pontuaram que a Europa, principal mercado consumidor, já está em um estágio mais avançado na pandemia, com reabertura do comércio e processo de normalização do consumo.

Hortaliças

As exportações de hortaliças também apresentaram expansão consistente no primeiro semestre, com alta de mais de 300% no volume ante o mesmo período do ano passado, conforme a CNA. Foram vendidas no período 23 mil toneladas de produtos como cenoura, tomate, cebola e batata.  

Conforme a CNA, nesse caso o avanço deve-se à busca por mercados mais próximos, como os dos países do Mercosul, cujo acesso pode ser feito por meio terrestre. 

“Os produtores, com o comércio interno muito limitado, buscaram alternativas via Mercosul”, diz Cunha. “O tomate, por exemplo, em junho teve preço muito baixo. Então a comercialização para países vizinhos foi ampliada.”

Exceção na crise

Apesar dos impactos inevitáveis da pandemia do novo coronavírus sobre o consumo de produtos brasileiros, o agronegócio tem surgido como uma exceção. Isso porque a exportação de produtos agrícolas – em especial, de soja para a China – tem impulsionado o setor nos últimos meses.

As projeções da CNA são de que, com a pandemia, a participação do agronegócio no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro saltará de 21,4% em 2019 para 23,6% em 2020. No ano passado, 45% de tudo exportado pelo País foram do agronegócio. Este ano, o porcentual deve chegar a 55%.

A CNA calcula ainda que o Valor Bruto de Produção – indicador que mede o faturamento da agropecuária “dentro da porteira” – deve somar R$ 746,2 bilhões em 2020. O valor é 11,5% superior ao registrado em 2019.

Dentro do mercado financeiro, as projeções também são otimistas. Conforme o Relatório de Mercado Focus do Banco Central, que traz uma compilação das projeções do mercado, o PIB da agropecuária deve crescer 2,09% este ano, mesmo em um ambiente de crise. De acordo com as estimativas, o PIB da indústria deve recuar 6,93% e o de serviços tende a cair 4,85%.

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'Exportar é bom, pois há ainda ganho no câmbio', apontam produtores e exportadores

Regiões produtoras de SP comemoram o aumento do preço do limão, que tem caixa vendida por até R$ 65; em fevereiro, não passava de R$ 10

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2020 | 01h04

SOROCABA - Impulsionado pela exportação, o preço do limão taiti disparou nas principais regiões produtoras do Estado de São Paulo. Na região de Catanduva, maior produtora com 4 milhões de limoeiros em produção, a caixa de 27 quilos era vendida entre R$ 60 e R$ 65 na última terça-feira, 21. No município de Itajobi, maior produtor individual da fruta, a caixa selecionada para exportação saía a R$ 70. No fim de fevereiro, a caixa do mesmo limão era vendida a R$ 10, mas alguns produtores chegaram a comercializá-la a R$ 7 para não deixar a fruta cair e apodrecer.

Os produtores acreditam que um dos motivos para o aumento na cotação pode ser a pandemia do novo coronavírus. O alto teor de vitamina C presente na fruta ajuda no fortalecimento do sistema imunológico para enfrentar os efeitos do vírus em caso de infecção. Os médicos afirmam que a vitamina C protege as células do organismo contra o estresse oxidativo causado por infecções. Os produtores registraram aumento na demanda fora do verão, época de maior consumo.

Para o produtor e engenheiro agrônomo Maurício Agostinho, de Itajobi, a busca por alimentos mais saudáveis se tornou mais intensa durante a pandemia, sobretudo em países da Europa que tiveram alta disseminação do vírus. O mercado europeu é o principal destino da fruta brasileira. “Já tínhamos a vantagem do setor não ter sido afetado pela pandemia, como aconteceu com produtores de outras frutas e legumes, agora tem esse preço bom. Estamos com uma demanda incomum para essa época do ano e, realmente, o limão só traz benefícios para quem produz e para quem consome.”

Ele acredita que a oferta menor nesse período, que é de entressafra, também colabora para a alta. “O pico da produção acontece de janeiro a março, depois há queda tanto na produção quanto no consumo, que só volta a crescer a partir de agosto e setembro, com a chegada do verão. Este ano, o aumento na demanda aconteceu mais cedo e se refletiu nos preços. Nesta época, seria normal vendermos a caixa do limão entre R$ 20 e R$ 30. Estamos vendendo a mais que o dobro.”

Além de produtor, com 5,5 mil plantas em 16 hectares, Agostinho também é proprietário de uma empresa de insumos agrícolas e dá assistência a outros produtores de limão. Ele pondera que o preço elevado não significa que o produtor está “nadando” em dinheiro. “É preciso considerar o preço médio ao longo do ano. O valor de hoje está ajudando a compensar o preço baixo do início do ano, quando o limão foi vendido abaixo do custo. A gente não pode negar que exportar está sendo um bom negócio, pois há também o ganho no câmbio, já que exportamos em dólar ou euro.”

O produtor Osmar Fernandes de Jesus, também de Itajobi, está nas duas pontas da cadeia do limão. Ele é grande produtor, com 50 mil limoeiros cultivados, e dono de uma exportadora de limões. Além da produção própria, ele processa e exporta o limão de outros produtores da região. “Não é todo limão que tem padrão para exportar. A fruta precisa ter bom tamanho e estar bem verde, com a casca consistente, para aguentar a viagem”, diz. As frutas passam por um processo de seleção no “packing house” da empresa. O limão que não vai para o exterior é vendido para empresas processadoras de suco ou para consumo in natura.

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