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Investimentos. Ênio Fernandes Júnior, de Rio Verde (GO), afirma que região teve impulso com pesquisas e cooperativismo Arquivo Pessoal

Com receita recorde, agronegócio vai aumentar participação no PIB do País

Setor deve faturar R$ 728,6 bilhões neste ano, o que vai representar um salto de 11,8% sobre 2019; segundo CNA, resultado reflete alta do dólar e a manutenção de ‘preços’ das commodities no mercado internacional, que tiveram alta na demanda

Mônica Scaramuzzo e José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

01 de junho de 2020 | 05h00

A agricultura vai colher este ano um dos seus melhores resultados no campo. Se da porteira para fora, os impactos do coronavírus na economia se revelam desastrosos para os balanços de grandes empresas, no agronegócio o ano será de recorde de receita. Levantamento feito pela Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) mostra que o Valor Bruto da Produção atingirá R$ 728,6 bilhões, aumento de 11,8% sobre 2019, maior cifra em reais da história do setor.

Em meio à pandemia, a expectativa é que o PIB do agronegócio passe a responder por 23,6% do total do País – no ano passado, ficou em 21,4%. “O dólar alto e os preços firmes das commodities beneficiaram a agricultura”, disse Renato Conchon, coordenador econômico da CNA. A entidade prevê que o PIB nacional caia 5,8%, previsão que ainda pode ser revista para um número maior.

Com a desvalorização do real, as exportações ficaram mais atraentes ao agricultor. “Na crise, ninguém deixa de comer”, afirmou Conchon. No ano em que os produtores colheram sua maior safra de grãos – de 250 milhões de toneladas –, a expectativa é de que o desempenho possa se repetir em 2021. Mais capitalizados, parte dos produtores rurais já começou a adquirir insumos para o próximo plantio.

“Neste mês de maio, os produtores já travaram o preço de 32% da safra do ano que vem, que ainda nem foi plantada. No passado, na mesma época, apenas 8% da produção tinha sido vendida antecipadamente. Em 2017, esse volume era praticamente zero”, disse José Carlos Hausknecht, diretor da MB Agro, uma da principais consultorias de agronegócio do País.

A soja e o milho foram os grandes carros-chefes da agricultura, explicou Conchon. Da ganho previsto de R$ 728,6 bilhões, R$ 175 bilhões vão corresponder à receita com a oleaginosa (alta de 13% sobre 2019) e R$ 90 bilhões com o milho (32,9% maior que no ano anterior). Já a carne bovina vai registrar R$ 139 bilhões da receita, queda de 19,5% sobre 2019. “Veremos a soja avançando sobre outras áreas de cultivo no ano que vem”, disse Hausknecht.

Com este cenário, a cana deverá perder espaço. Dados da CNA mostram que a receita com cana-de-açúcar ficará em R$ 47,4 bilhões, estável sobre o ano anterior.

Líderes

É no Centro-Oeste que o agronegócio dá sinais de maior vitalidade. Um quarto do valor adicionado bruto (receita menos despesas) da agropecuária brasileira está concentrado em 165 municípios do País, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No topo das principais cidades com maior contribuição para o PIB do setor, estão Sapezal e Sorriso, no Mato Grosso; Rio Verde (GO); e Três Lagoas (MS). Na ponta, a cidade de São Desidério, no oeste baiano. Juntas, elas somaram 2,2% do valor adicionado bruto da agropecuária em 2017 (último dado consolidado).

“Se você for analisar friamente, Rio Verde não tem as melhores condições de solo e clima do Brasil. Os bons resultados no campo refletem o espírito empreendedor dos agricultores da região e dos migrantes que vieram do Sul e Sudeste do País, que investiram muito em pesquisa e no cooperativismo aqui na região”, afirmou Ênio Fernandes Júnior, engenheiro agrônomo e um dos principais agricultores de Rio Verde.

Em Três Lagoas, a pecuária está cedendo cada vez mais espaço para os grãos. Na fazenda Mateberi, administrada por William Costa, o plantio do grão está avançando sobre as pastagens. “Pegamos gosto pela soja, que deixa ganho de até R$ 1 mil por hectare e retorna um pasto de alta qualidade”, disse Costa. O plano é ampliar a lavoura na fazenda, que tem 31 anos de tradição em pecuária de corte. 

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Produtores de grãos negociam safra que ainda não foi plantada

Contratos ‘travam’ preço do produto e permitem antecipar receita; setor fala em bom cenário para negociações

José Maria Tomazela e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S. Paulo

01 de junho de 2020 | 05h00

Para tentar aproveitar a alta do dólar, produtores de grãos têm negociado sua safra com até cinco meses de antecipação do plantio, previsto só para outubro. Eles recebem por seus produtos agora, com o compromisso de entregar a mercadoria no futuro. “Estou com 60% da minha safra vendida até agora”, disse Ênio Fernandes Júnior, de Rio Verde (GO).

Com uma área de 2,8 mil hectares plantados com soja em parceria com um sócio, o agricultor, que também tem uma empresa de gestão de riscos, pretende avançar em áreas de pastagens e de cana para aumentar a produção em 2021. “Comecei há 25 anos plantando soja em uma área arrendada de 60 hectares e não paramos mais de crescer.”

Na fazenda Irmãos Scariotes, no Mato Grosso, o produtor Renato Scariote vendeu 75% da safra que será cultivada em área de 3.600 hectares. “Minha venda está em reais, então, depende de como vai ficar o dólar. A última safra negociei em dólar e foi terrível”, disse. Ele afirma que o dólar alto pode dar uma falsa sensação de que o produtor está ganhando dinheiro. “Quando você olha para trás, vê quantas safras vendeu a preço baixo. Este ano, felizmente, o preço do adubo está 20% menor, o que torna a safra mais barata.”

O agricultor José Guarino, que há mais de 30 anos cultiva grãos na fazenda Água Branca, em Sapezal (MT), vendeu 30% da produção de 350 hectares com o dólar “travado” em R$ 5,83. Desde que fechou o negócio, a cotação da moeda americana caiu – estava a R$ 5,37 na sexta-feira. “Alguns insumos, como semente, adubo e fertilizante, também comprei com o dólar alto”, ponderou. Ele lembra que os custos em real – óleo diesel, manutenção de máquinas e folha de pagamento – também subiram, mas reconhece o bom cenário no campo. “Já tivemos momentos piores.”

Já na fazenda Mateberi, em Três Lagoas (MS), o plantio de soja não estava nos planos da família até 2018. A mudança de estratégia veio no ano passado. Com a alta do dólar e a boa cotação do grão, William Costa já negociou a venda de 30% do que vai produzir. Com o recurso, foram comprados sementes e adubo para o plantio, em outubro. “Estamos esperando o dólar para cima para fazer novas vendas, chegando a 50% da produção futura.”

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