Fernando Lopes - 02/6/2021
No interior de São Paulo, um produtor de café enterrou as produções para evitar perdas maiores. Fernando Lopes - 02/6/2021

Geadas afetam produção de legumes e frutas no interior de São Paulo

Segunda geada forte no Estado, em menos de dez dias, resultou em perdas generalizadas em praticamente todo o interior, apesar das tentativas de proteger a produção

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 05h00

SOROCABA – A segunda geada forte em menos de dez dias atingiu produções de legumes, frutas e pastagens, na madrugada desta quinta-feira, 28, no interior de São Paulo. Os agricultores, que já tiveram lavouras afetadas pelo fenômeno climático no último dia 20, ainda não conseguiram estimar os prejuízos. Houve perdas generalizadas em praticamente todo o interior. As secretarias municipais de agricultura alertam para novas ocorrências de geadas.

Em Piedade, produtores de morango protegeram parte das plantações cobrindo os canteiros com plásticos, mas não evitaram o prejuízo. Em algumas regiões, a geada foi tão forte que atingiu os pés de morango que estavam sob a lona. “Houve queima de frutos e principalmente de flores, mas a maior parte escapou da geada”, disse o agricultor Claiton Silva, que cultiva 30 mil pés do fruto. Outros produtores não tomaram medidas preventivas e tiveram perdas maiores.

Plantações de verduras e legumes a campo também sofreram com a geada. O produtor Antônio de Moraes viu o frio intenso queimar dois hectares de chuchu. O prejuízo não foi maior porque outros oito hectares tinham sido colhidos e cortados para um novo plantio, programado para o mês de agosto. O lavrador José Roberto de Moura encontrou a plantação de repolho coberta por uma camada de gelo na manhã desta quinta. “Estou numa região mais alta e esperava estar fora de risco, mas pegou em geral, terrenos baixos e altos”, disse.

A Secretaria de Desenvolvimento Rural e Meio Ambiente do município havia alertado os agricultores para a adoção de medidas preventivas. Como há previsão de nova geada, a pasta voltou a distribuir alertas para que os produtores irriguem as lavouras antes do nascer do sol. De acordo com a secretaria, a geada atingiu lavouras de alface, couve e outras folhosas, além de abobrinha, chuchu, couve-flor, tomate, morango e batata. Cerca de 80% da economia do município vem da produção agrícola. Os prejuízos causados pelas geadas ainda estão sendo contabilizados.

Em Itapetininga, a geada terminou de ‘queimar’ vinte hectares de pasto cultivados pela criadora Maria Cândida Soares Silva, no bairro Varginha. Ela se viu obrigada a alimentar com ração no curral as vacas de leite da raça Jersey. “No preço em que está o leite, não compensa. É uma pena, pois o pasto foi adubado e estava muito bom. Na geada passada, ressecou o capim mais alto, mas agora pegou até a raiz”, lamentou. Produtores de leite de Sarapuí, Conchas e Pereiras também registraram perdas de pastagens, queimadas pelas geadas.

Em Apiaí, plantações de banana foram fortemente atingidas pelas geadas. Alguns produtores salvaram parte da produção ensacando os cachos. Houve prejuízos também em bananais de Sete Barras, Juquiá e Eldorado, cidades do Vale do Ribeira, maior região produtora de bananas do Estado. Até a tarde desta quinta não tinham sido estimados os danos da segunda geada que atingiu a região em menos de dez dias.

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Com geadas prejudicando a produção, estimativas de inflação já superam os 7%

Preços dos alimentos podem levar o IPCA de 2021 ao ponto mais alto desde 2015, quando chegou a 10,67%; até o momento, as produções de café, hortaliças e frutas foram as que tiveram as maiores perdas

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 05h00

As geadas da semana passada e as esperadas até amanhã vão pressionar o preço dos alimentos e se somar a um cenário já complexo para a inflação, que está fazendo economistas reverem as projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2021. As estimativas começam a ultrapassar os 7%, quase dois pontos porcentuais acima do teto para a inflação perseguido pelo Banco Central. Se isso se verificar, o País registrará neste ano a maior inflação desde 2015, quando foi de 10,67%.

O Santander, por exemplo, prevê hoje um IPCA de 6,7%, mas, diante da alta esperada nos alimentos e da crise hídrica – que deve pressionar os preços em geral –, os economistas do banco já falam em patamares mais elevados. “Com todos os riscos atuais, a cara do IPCA é mais para 7,3%”, diz o economista Daniel Karp.

A consultoria Tendências projeta atualmente 6,1%, mas, segundo o economista Marcio Milan, esse número será revisto nos próximos dias. “Claramente, o viés é de alta”, diz. 

A XP, que ainda projeta 6,7%, divulgou um relatório ontem em que afirma ver a possibilidade de que o aumento dos preços ultrapasse os 7%. Segundo a economista Tatiana Nogueira, autora do documento, a empresa deve esperar o início da semana que vem para analisar o impacto das geadas que devem ocorrer até amanhã e, então, mudar oficialmente sua estimativa para a inflação.

As projeções atuais contrastam com o que se esperava no início do ano, quando se tinha a expectativa de que os preços aumentassem por volta de 3,5% em 2021. Até agora, a principal alavanca da inflação foi a gasolina, que, segundo a Tendências, deve subir 24,5% com o aumento da demanda global decorrente do reaquecimento econômico.

Nos últimos meses, a crise hídrica também passou a ser motivo de preocupação. Diante da falta de água e dos consequentes reajustes na conta de luz, a alta na energia já acrescentou 0,68 ponto porcentual ao IPCA e poderá adicionar mais 0,13 ponto caso um novo reajuste seja aprovado – como é esperado –, de acordo com o Santander. 

Agora, é a vez de a geada dar mais um impulso à inflação. Por enquanto, as produções de café, hortaliças e frutas foram as que tiveram as maiores perdas. Com a redução da oferta, os preços devem subir rapidamente. A XP calcula que esse efeito possa significar mais 0,1 ponto porcentual ao IPCA. “Apesar de ser um aumento menor, esse risco é o mais provável. Os agricultores já estão reportando perda na produção. Isso vai bater provavelmente nos preços coletados na semana que vem”, diz Tatiana, da XP. O outro risco no radar da economista é uma elevação maior nos preços dos serviços em decorrência da reabertura da economia. Segundo ela, esse movimento pode acrescentar mais 0,2 ponto porcentual à inflação.

Prejuízo no campo

No Santander, o impacto da geada fez os economistas elevarem a projeção do IPCA de alimentos de 7% para 8,2% neste ano. Só no Estado de São Paulo, a perda na produção deve ficar, em média, entre 15% e 20%, de acordo com a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado (Faesp). O vice-presidente da entidade, Tirso Meirelles, classificou a geada da semana passada como a pior desde 1975 para o setor.

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