Felipe Rau/Estadão
Em 2020, das 63 milhões de sacas de café produzidas no País, 14,3 milhões eram do conilon. Felipe Rau/Estadão

Investimento em tecnologia dá força a 'patinho feio' do café brasileiro

Variedade conilon, ‘prima pobre’ do arábica, agora tem seu selo de Indicação Geográfica; para presidente de instituto, conquista torna o café 'reconhecido nacional e internacionalmente'

José Maria Tomazela , O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 05h00

SOROCABA - Diante do charmoso arábica, o café conilon sempre foi o “patinho feio” da cafeicultura brasileira. Relegado a um papel de coadjuvante, ele é usado para agregar peso ao protagonista ou como blend em misturas dominadas pelo grão principal. Essa realidade começa a mudar. 

Investimentos em tecnologia e práticas sustentáveis de produção estão levando o conilon a um novo patamar. O “primo pobre” do arábica já ingressou na restrita categoria de cafés especiais, e sua principal área de produção, o Espírito Santo, acaba de receber o selo de Indicação Geográfica (IG).

Para o diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic), Celírio Inácio, esse é o melhor momento da longa trajetória da espécie no Brasil. “Pela primeira vez o conilon entra na categoria de cafés especiais e com notas sensoriais muito elevadas. Esse conceito de que conilon só servia para ‘blendar’ o café não é mais verdade.”  A mudança de patamar, segundo ele, é resultado do esforço de órgãos de pesquisa do governo, da indústria e das cooperativas e associações de produtores para melhorar a qualidade da espécie. “Quando o produtor começou a tratar melhor o cafeeiro, colher no tempo certo e secar da forma correta, o conilon passou a mostrar qualidades que não era identificadas e a ser reconhecido pelo mercado.”

Maior produtor mundial, o Brasil cultiva duas espécies de café, o arábica e o robusta, do qual o conilon é a principal variedade. Em 2020, o país produziu 63 milhões de sacas (de 60 quilos), sendo 14,3 milhões do conilon, que produz 30% mais, porém é vendido a preços até 40% mais baixos. Neste ano, mesmo com a bienalidade – o cafeeiro carrega em um ano, em outro não –, a variedade deve produzir até 15,5 milhões de sacas, compensando parte da queda de 31,5% prevista para o arábica. “É um café cada vez mais valorizado aqui e no exterior e só não exportamos mais porque o mercado brasileiro consome quase toda a produção. O setor industrial já percebeu que o conilon não é mais o ‘patinho feio’”, disse Inácio.

Em 11 de maio, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) concedeu o selo IG para o café conilon produzido em todo o Espírito Santo. Do Estado saem 10 milhões de sacas, respondendo por 66% da produção nacional. “A conquista inédita promove o protagonismo do Estado e torna o café conilon reconhecido nacional e internacionalmente”, disse o presidente do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), Abraão Carlos Verdin. O grão é cultivado também em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Rondônia.

Luiz Claudio de Souza, de Muqui (ES) é um exemplo da mudança no conceito do conilon. “As portas estão se abrindo”. 

Mudança

A melhora na qualidade levou a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) a romper uma tradição. Até recentemente, apenas o arábica podia ser classificado como café especial. “Há cinco anos iniciamos um trabalho de redefinição do que é um café especial e, em consulta aos filiados, não se falou em exclusividade para o arábica. Fomos atrás e descobrimos cafés conilon fantásticos”, conta a dirigente Vanusia Nogueira

A BSCA já emitiu laudos de qualidade para o conilon da Nescafé, do grupo Nestlé, e, em abril, deu o primeiro certificado para uma propriedade, a Fazenda Venturim, em São Domingos do Norte (ES). A certificação leva em conta as boas práticas, a sustentabilidade socioambiental e a qualidade como bebida.

A indústria já detectou o potencial do conilon e investe para dar apoio aos seus parceiros capixabas. Em abril, a Nescafé lançou uma edição limitada de café em grão a partir de um conilon especial. “Quebramos um paradigma”, disse a diretora Raquel Muller. Segundo ela, o conilon casacom o paladar brasileiro, pois é um café mais encorpado.

O engenheiro agrônomo Pedro Malta, do departamento de agricultura da Nescafé, conta que esse trabalho foi iniciado há dez anos no norte do ES, onde produtores migraram para a produção sustentável. “As fazendas adotaram novas tecnologias”, afirmou. 

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Produtor de café conilon se destaca com prêmios em concursos nacionais

Produtor Luiz Claudio de Souza venceu cinco campeonatos estaduais e nacionais de qualidade do café

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 05h00

SOROCABA - O produtor Luiz Claudio de Souza, de Muqui, região sul do Espírito Santo, é um exemplo da mudança no conceito do conilon. Por dois anos consecutivos, em 2018 e 2019, ele venceu cinco campeonatos estaduais e nacionais de qualidade, entre eles o Melhor Café do Ano, o 6.º Torneio do Melhor Café Fair-Trade do Brasil e o 16.º Concurso Nacional Abic de Qualidade do Café-Origens do Brasil, sempre com o conilon. 

Em seu Sítio Grãos de Ouro, Luiz Claudio mantém com os filhos uma lavoura pequena, mas de excelência. São 12 mil cafeeiros de conilon, visto como "patinho feio" da cafeicultura brasileira, cultivados em 30 mil metros quadrados a 550 metros de altitude. 

A família Souza tem tradição de várias gerações na cafeicultura, mas a produção de café especial é coisa recente. “Sou sócio fundador da Cafesul, cooperativa que tem feito um excelente trabalho na busca da qualidade, portanto tenho conseguido preço bastante interessante em se tratando de conilon, que nunca foi considerado bom para bebida. Cada vez mais consumidores estão interessados em nosso café. As portas estão se abrindo.”

Souza trabalha na companhia dos filhos Talles, gerente e degustador de cafés da Cafesul, e Tassio, extensionista do Incaper. “Em parceria com a Embrapa, o Incaper tem desenvolvido pesquisa e mudado o cenário da cafeicultura, principalmente do conilon”, diz o produtor.

O cafezal da família é sustentável desde o plantio até a comercialização. “Conseguimos colocar em prática nosso conhecimento porque meu pai nunca resistiu às novas tecnologias, às melhores práticas de produção e pós-colheita que trouxemos para o sítio. O segredo está em acreditar na pesquisa e colocar em prática com amor”, disse o filho Talles Souza.

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