Kiko Sierich/Estadão
Na fronteira entre Brasil e Paraguai, apenas caminhões de carga estão liberados para ir e vir. Kiko Sierich/Estadão

Ministério da Agricultura busca ‘corredores sanitários’ para manter exportação com vizinhos

Decisão do governo brasileiro de fechar as fronteiras, gerou um enorme efeito colateral para a entrada e saída de alimentos; ministra Tereza Cristina diz que Brasil vai discutir soluções com países

André Borges, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 06h00

BRASÍLIA - A decisão tomada na quinta-feira, 19, pelo governo brasileiro, de fechar as fronteiras terrestres do País com seus vizinhos latinos, para ampliar a proteção contra a pandemia do novo coronavírus, gerou um enorme efeito colateral para a entrada e saída de alimentos entre os países.

O fechamento engloba Argentina, Bolívia, Colômbia, Guiana Francesa, Guiana, Paraguai, Peru e Suriname. Embora a medida não tenha o propósito de afetar o transporte de cargas, mas sim de restringir a entrada de estrangeiros oriundos desses países, é grande a preocupação do Ministério da Agricultura, sobre os desdobramentos dessa restrição.

“Estamos tratando disso, estamos preocupados”, disse ao Estado a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que vai discutir o assunto com os ministros da Agricultura dos países vizinhos. “Devemos instituir corredores sanitários, porque tem coisas que saem do Brasil, passam pela Argentina e depois vou lá para o Chile. Estamos discutindo isso para ver onde estão os gargalos”, disse Cristina.

Uma reunião sobre o assunto está marcada para a próxima segunda-feira, 23. “Eu devo fazer uma videoconferência na segunda-feira com os ministros da agricultura, do Conselho de Agricultura do Sul (CAS), que reúne Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile. Vamos, inclusive, chamar o Peru, que não faz parte desse grupo.”

Teresa Cristina admitiu que, por enquanto, não há uma solução clara para o problema, mas a postura de todos é não atrapalhar a entrada e saída de insumos básicos e necessários para todos. “Nesse momento, isso ainda não tem uma resposta, mas nós já começamos as conversas com os empresários, para que eles nos passem quais são as rotas principais de problemas. Vamos começar a trabalhar isso nesta sexta-feira e, na segunda, nos reunimos com os demais ministros”, disse a ministra.

Segundo o Ministério da Justiça, o fechamento vale para fronteiras físicas, terrestres, e não atinge quem viaja de outros países de avião. O governo vai editar uma portaria específica em relação às fronteiras terrestres com o Uruguai, que ficaram de fora, por ora, das restrições anunciadas.

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Não vai faltar arroz, feijão e carne na mesa do brasileiro, diz Tereza Cristina

Em entrevista ao 'Estado', ministra da Agricultura diz que gesto dos brasileiros de estocar alimentos é compreensível, mas que não há razões para se preocupar

André Borges, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 06h00

BRASÍLIA - Os alimentos básicos da mesa do consumidor brasileiro não correm nenhum risco de desabastecimento. A afirmação é da ministra da Agricultura, Tereza Cristina. “Nem o arroz, nem o feijão, nem a carne, nem o frango faltarão. O Brasil é uma potência que está colhendo a melhor safra dos últimos tempos. Não vai faltar. Não existe risco de desabastecimento. O que pode haver, e estamos trabalhando para que não ocorra, é apenas problemas de fluxo de mercadoria”, disse Cristina, em entrevista ao Estado.

As imagens recorrentes de mercados com prateleiras vazias têm deixado por parte da população preocupada, que passou a estocar, em grande volume, alimentos básicos consumidos pela população. Tereza Cristina diz que é um movimento compreensível, porque as pessoas agem por impulso e tensão, mas que não há razões para se preocupar.

“A questão é a logística. As pessoas devem ficar calmas. É uma crise complicada e a tendência das pessoas é a de ir ao supermercado comprar excesso de comida para estocar, porque não sabem quantos dias vão ficar em casa. Mas é ter responsabilidade e não se alarmar. Nós estamos vivendo um momento difícil, mas vamos transpor isso da melhor maneira difícil”, comentou.

Nos dois últimos dias, a ministra da Agricultura se reuniu com as associações de supermercados, Ceasas, produtores, representações de caminhoneiros, de frigoríficos de boi e cooperativas de aves e suínos. “Estamos monitorando. O que pode haver é descontinuidade no fluxo dos produtos. É nisso que a gente está trabalhando, para que não aconteça. Temos que garantir a entrega do alimento, para que não tenha descontinuidade e chegue até as prateleiras do supermercado”, disse Cristina.

Hoje, 85% dos alimentos consumidos pelo Brasil são comprados nos supermercados, segundo os dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras). São 90 mil lojas em todo o País, se consideradas aquelas que possuem dois caixas ou mais. Semanalmente, 25 milhões de pessoas vão aos supermercados fazer compras. 

“Estamos vivendo uma história sem precedentes, é verdade, mas não estamos vendo movimentos inflacionários desses alimentos”, diz João Galassi, primeiro vice-presidente da Abras. “A cadeia produtiva do País tem contado com a cooperação governamental, há uma continuidade do transporte, uma condição para que os funcionários e os produtos possam chegar aos locais. Então, hoje não há risco.”

Na avaliação de Galasso, a corrida das pessoas não está atrelada a uma preocupação de risco com desabastecimento, mas sim com a necessidade de ter que ficar retido em casa, em quarentena. “A população está se precavendo pelo fato de ter que ficar em casa, e não pelo desabastecimento.”

Grandes redes de supermercado têm feito campanhas de publicidade para pedir ao cidadão que não estoque alimentos, além de reforçarem que todos os produtos estão com suprimento garantido. Para Galasso, a situação tem exigido responsabilidade social e, fora casos específicos, não há inflação no preço dos produtos.

“O que posso garantir é que o setor está sendo extremamente responsável em abastecer o País, da mesma forma anterior ao coronavírus. Na mesa do cidadão, o setor segue responsável. O momento é de trabalho e respeito mútuo. Temos um papel nesse momento trágico e vamos cumpri-lo”.  

Henrique Lian, diretor de relações institucionais da organização Proteste, afirma que ainda não há estatísticas que apontem aumento abusivo de preço nos itens básicos da alimentação, além dos casos conhecidos como álcool, álcool em gel e papel higiênico. Ele registra, porém, que tem havido alta nos preços do leite de caixinha e do leite em pó. “São itens mais fáceis de serem armazenados”, diz.

 

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