Eduardo Monteiro/Divulgação
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Na contramão de Bolsonaro, agronegócio quer construir pontes com Biden

Em evento sobre comércio exterior, representantes do setor disseram que o País precisa aproveitar a eleição nos EUA e 'virar o disco', revertendo a imagem negativa de desmatamento e baixa proteção ambiental

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2020 | 15h31

O presidente Jair Bolsonaro pode até não ter reconhecido o democrata Joe Biden como o governante eleito dos Estados Unidos e ainda chamar o futuro mandatário de "candidato a chefe de Estado", mas os representantes do agronegócio não pensam assim.

Eles aproveitaram o Encontro Nacional do Comércio Exterior (Enaex) para ressaltar que o setor do País precisa reverter a imagem negativa de desmatamento e baixa proteção ambiental. O evento, que acontece nesta quinta e sexta-feiras, 12 e 13, é organizado pela Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB).  

"Estamos no limiar de uma mudança de comando na maior economia do mundo, os Estados Unidos, com a eleição de Biden. O Brasil é eficiente e competitivo em sua produção e não temos o que temer com essa nova gestão. Além do que, um país não é amigo de pessoas, mas tem negócios com outros países", afirma o ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Cesario Ramalho, atual representante da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho).  

Ele diz que o setor é responsável por cerca de 23% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e que os produtos nacionais são competitivos no exterior, também quando comparados às exportações dos Estados Unidos. "Biden deve colocar os Estados Unidos novamente no Acordo de Paris (de combate às mudanças climáticas), o que é muito importante para termos um debate equilibrado sobre essa questão."

Os representantes do agronegócio avaliam que é preciso ressaltar que o produtor rural brasileiro cumpre as regras ambientais e se enquadra no que é estabelecido pelo Código Florestal. Para eles, a vitória de Biden significa, ainda, um retorno do multilateralismo, com o fortalecimento de organizações, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), que foi desprestigiada pelo governo do atual presidente, o republicano Donald Trump.

"O Brasil precisa aproveitar que Biden entrou para virar o disco. São duas safras por ano, que evitam desmatamento, essa é uma agenda que deve ser atacada de frente, com muito diálogo. A gente não pode confrontar o mundo nessa área (ambiental)", diz Marcos Jank, professor sênior de agronegócio no Insper e coordenador do centro Insper Agro Global.

Ele ressalta que as preocupações sanitárias mudaram de patamar com a crise causada pelo novo coronavírus, mas que o Brasil tem um sistema integrado de produção muito superior ao de qualquer outro emergente. "A entrada do Biden traz os Estados Unidos de volta para os trilhos em que eles sempre estiveram."

Os representantes também ressaltaram que não faz sentido manter um discurso de confronto em relação à China, principal parceira comercial do País. "É burrice segregar alguém, países não têm amigos. Temos de ter uma relação cordial tanto com a China quanto com os Estados Unidos e devemos estar juntos para enfrentarmos os desafios do protecionismo", diz Francisco Turra, ex-presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e ex-ministro da Agricultura.

Na mesma linha, o diretor presidente do Sebrae, Carlos Melles, lembra que o importante é deixar claro para o mundo que o Brasil consegue aumentar sua produção agropecuária, sem aumentar a área necessária para as atividades, mas com ganho de produtividade.

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