Captura de tela/PronaSolos
Captura de tela/PronaSolos

Nova plataforma virtual detalha informações sobre os solos do Brasil

Ministério da Agricultura lança site com nível de detalhamento inédito no País; ferramenta vai ajudar tanto os produtores rurais, por exemplo, na avaliação da melhor época de plantio, quanto os governos, na definição de políticas públicas

Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 13h50

Um plataforma virtual que reúne informações sobre os solos do Brasil será lançada nesta quinta-feira, 3, pelo Ministério da Agricultura. Na ferramenta interativa, é possível observar os variados tipos de solo que compõem o território nacional com nível inédito de detalhamento, sua condição hídrica, os minerais, dados sobre erosão e até mesmo o armazenamento de carbono. Além disso, é possível sobrepor uma informação com outra, comparar sua evolução ao longo do tempo e obter detalhes por regiões, biomas e Estados, entre outros recursos.

O mapa, que pode ser acessado neste link, é uma das iniciativas do Programa Nacional de Solos do Brasil (PronaSolos), instituído pelo governo federal em 2018 e com duração de 30 anos para mapear os solos de 1,3 milhão de quilômetros quadrados que compõem o território nacional. Ele surgiu justamente para sanar a carência de informações detalhadas sobre os solos brasileiros, conta com exclusividade ao Broadcast Agro a diretora de Produção Sustentável e Irrigação do Ministério da Agricultura, Mariane Crespolini.

Para abastecer este mapa interativo, o Ministério da Agricultura reuniu, na primeira etapa do programa, informações que já estavam disponíveis, porém dispersas, na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, no Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e em outras estatais e em várias universidades do País. Somente na segunda fase do PronaSolos o levantamento será in loco, para captar informações que ainda não foram inseridas no mapa. "Aí os pedólogos (especialistas em solos) vão a campo para coletar solo, fazer a análise e aplicar na plataforma", adianta.

"O PronaSolos é um programa de 30 anos, mas tínhamos de começar de algum modo esse grande desafio que é mapear, identificar os solos brasileiros e centralizar todas as informações", continua Mariane. "Então, antes de sair cavando buracos no território nacional, preferimos reunir o que já existia de dados e inserir tudo num lugar só; foi uma forma de adiantar os trabalhos e poupar recursos públicos", continua. 

"Chamamos todos os envolvidos com o tema para colaborar e o resultado é essa plataforma única; é uma entrega de vários parceiros", comemora a diretora, acrescentando que gestores públicos, engenheiros agrônomos, produtores rurais, professores, pesquisadores, profissionais ligados a mineração, gestão de recursos hídricos, comunicações, meio ambiente e inúmeros outros interessados terão, a partir de agora, uma ferramenta que concentra informações que antes estavam dispersas e nem sempre acessíveis.

Por enquanto, o nível de detalhamento dos mapas está numa escala de 1 para 250.000, que é a mesma do Mapa de Solos do Brasil, lançado no ano passado pelo IBGE. Isso significa que cada 1 centímetro quadrado do mapa equivale a 2,5 quilômetros quadrados de área real. Ao longo dos anos, porém, Mariane conta que o objetivo do PronaSolos é melhorar a escala para 1:50.000. "Menos de 5% do território brasileiro conta com mapas de solos com escalas de 1 para 100.000", informa Mariane. "Nos Estados Unidos, como comparação, o território é quase integralmente mapeado com escalas de 1 para 20.000 e de 1 para 40.000."

A coordenadora-geral de Conservação de Solo e Água do Ministério da Agricultura, Soraya Araújo, ressalta, porém, que, para solos tropicais, se trata de "plataforma inédita no mundo". "E, com esse nível de detalhamento, consigo fazer interpretações que antes não eram possíveis", diz. "Por exemplo, se eu sobreponho as informações sobre estoque de carbono no solo com o de água e o de erosão, é possível observar a eficiência de programas de conservação de solo e água e sua relação com o maior nível de estoque de carbono no solo", detalha. Ou, de outro modo, tomar iniciativas urgentes para conter sérias degradações de solo.

Ferramento de apoio aos produtores rurais

Políticas públicas também serão facilitadas a partir da nova ferramenta, garantem Mariane e Soraya. "Se quero fazer um projeto de irrigação regional, consulto o mapa hídrico e a disponibilidade de água", descreve Soraya. "Este tipo de integração e interpretações múltiplas antes a gente não tinha como fazer em nenhum outro local em âmbito nacional e, agora, com o PronaSolos, será possível e online."

Mariane complementa que não só a agricultura brasileira se beneficiará da ferramenta - por exemplo, com o zoneamento de risco agroclimático, que é muito usado por produtores rurais para verificar as épocas ideais de plantio de cada cultura e também por políticas públicas e bancos para contratação de apólices de seguro rural. "O mapa traz também todas as jazidas minerais do País", continua. "As informações relativas a isso e que são do Ministério das Minas e Energia vão estar na ferramenta."

Outro recurso, como o estoque de carbono no solo, também estará disponível para interessados em conservação ambiental. "O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, por sua vez, terá condições de identificar, conforme o tipo de solo, áreas onde é possível ou não instalar torres de celular", diz Mariane. "A questão de condutividade elétrica do solo é igualmente importante para o setor de comunicações", continua, e acrescenta: "O potencial de erosão, além disso, é utilizado para definir a construção de barragens e pontes; há ainda questões de defesa do território e o deslocamento de tropas, e a proteção de fronteiras, onde conhecer o tipo de solo é essencial... Os usos são múltiplos." 

Por isso, Mariane comenta que, no Comitê Estratégico do PronaSolos estão, além do Ministério da Agricultura, os Ministérios do Meio Ambiente; de Minas e Energia; de Ciência e Tecnologia; da Economia e o Ministério do Desenvolvimento Rural, que compõem a governança do programa.

Para rodar um programa dessa magnitude, Soraya Araújo relata que todo o sistema computacional está instalado no Serviço Geológico do Brasil, ou CPRM, estatal ligada ao Ministério das Minas e Energia. "Também foi uma maneira de economizar recursos públicos porque o sistema está hospedado em uma estrutura que já existia e tinha capacidade de comportar o programa."

Mariane garante, ainda, que o PronaSolos vai "promover o desenvolvimento sustentável" do País, porque garantirá "o melhor uso dos recursos naturais". "O solo não é renovável e é nele que produzimos 25% do PIB brasileiro", continua, referindo-se ao setor agropecuário. "Então, ter o máximo de informações possíveis sobre solos do País é essencial."

O evento de lançamento do PronaSolos será nesta quinta, às 15h, com a presença da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e com transmissão online nas redes sociais do ministério. Adicionalmente, serão lançados levantamentos inéditos sobre erosão ao longo do tempo e de recursos hídricos - ambos inseridos na ferramenta.

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