Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Projeto que leva internet ao campo atinge 5,1 milhões de hectares em um ano

Capitaneada inicialmente por oito empresas, a ConectarAgro se tornou uma associação e planeja oferecer conexão a 13 milhões de hectares

Leticia Pakulski, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2020 | 15h46

A iniciativa ConectarAgro, para levar conectividade via banda larga para o campo no Brasil, fechou seu primeiro ano com alcance de 5,1 milhões de hectares no País. O resultado superou o objetivo inicial de 5 milhões de hectares. Até 2021, a meta é atingir 13 milhões de hectares.

Capitaneada inicialmente por oito companhias - AGCO, Climate FieldView (Bayer), CNH Industrial, Jacto, Nokia, Solinftec, TIM e Trimble -, a ConectarAgro anunciou nesta quarta-feira, 1º, ter se tornado uma associação, com o objetivo de ampliar o número de participantes e as áreas atendidas.

A criação do projeto foi anunciada na feira Agrishow do ano passado. "A gente vê a conectividade se expandindo de uma forma muito significativa nas cidades, mas tínhamos um grande problema de cobertura na área agrícola", diz o presidente da associação e diretor de Tecnologias Digitais da CNH Industrial para a América do Sul, Gregory Riordan.

A ConectarAgro oferece conexão 4G 700 MHZ, buscando solucionar principalmente os problemas de conectividade do produtor rural, além de facilitar a adoção de tecnologias digitais de startups ou multinacionais.

"Após pouco mais de um ano de iniciativa, estamos com uma aspiração maior, que é levar conectividade para os rincões do Brasil", afirma Riordan. Segundo o executivo, a instalação custa em média ao produtor meia saca de soja por hectare, com potencial de retorno de a 2 a 3 vezes esse investimento.

O preço da saca de soja no Brasil varia de acordo com a praça. Na terça-feira, 30, levantamento diário do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) apontava valores no interior do País desde R$ 97,62 a saca em Barreiras (BA) até R$ 111,62 a saca em Ponta Grossa (PR).

As áreas contempladas no primeiro ano incluem 50 mil propriedades, 218 municípios e 24 mil km de rodovias, beneficiando 575 mil pessoas. Os 5,1 milhões de hectares também representam 8% da área plantada de grãos e cana-de-açúcar do País.

"Tem enorme potencial para levar isso para o restante do Brasil e em um curto espaço de tempo", acredita Riordan.

A decisão da ConectarAgro de se tornar associação busca ampliar o escopo do projeto. "Com essa nova formação, a gente consegue ter uma atuação maior e mais representativa em discussões com outras associações e com Brasília para remover barreiras que impedem uma aceleração maior da conectividade e abrir para mais pessoas participarem."

Segundo o executivo, 35 empresas já manifestaram interesse na ConectarAgro, dos segmentos de startups, financeiro, máquinas agrícolas, mídias sociais e sistemas de gestão. Será possível optar por uma entre três modalidades de associação, de acordo com o perfil da empresa.

No primeiro ano a iniciativa também alcançou 11,5 milhões de hectares com a plataforma Narrow Band IoT (NB-IoT), segundo o diretor de Marketing Corporativo e IoT da TIM Brasil, Alexandre Dal Forno. Até 2021, essa área pode chegar a 30 milhões de hectares.

Habilitadora de soluções de Internet das Coisas, a tecnologia é essencial para a conexão de dispositivos e sensores utilizados na agropecuária que precisam de baixa velocidade de conexão e longo tempo de bateria. "Uma única rede multisserviço conecta pessoas, máquinas e sensores usados no campo", afirma.

De acordo com Dal Forno, a ConectarAgro atendeu no primeiro ano oito Estados, com foco no Centro-Oeste e na região do Mapitoba. Ele exemplifica que em Mato Grosso e na Bahia, onde os municípios são muito grandes, há uma concentração de cobertura nas regiões metropolitanas, enquanto a área rural fica descoberta.

No Sul, a cobertura da área urbana em muitos casos já alcança também grande parte da área rural. "Essa diferença de tamanho de propriedades e característica de cobertura faz com que você tenha benefícios maiores com o que a gente está propondo em grandes Estados como Mato Grosso, Goiás e Bahia", disse.

Para 2021, entretanto, a iniciativa vai se expandir para a Região Sul, desenvolvendo projetos com cooperativas. "Uma das metas é como ajustar esses modelos de negócio que hoje fazem sentido para o grande produtor para alguém que é atendido por uma cooperativa ou está em um local em que tem um monte de áreas pequenas", avalia Riordan, citando a alternativa de financiamento coletivo. "É parte do objetivo da associação trazer esses novos modelos de negócio e talvez de uma forma mais personalizada por região de como levar conectividade."

Celeiro digital

Segundo o líder de negócios da Climate FieldView, braço de agricultura digital da Bayer, para a América Latina, Mateus Barros, a iniciativa acompanha a transformação do Brasil em um "grande celeiro" de soluções digitais. "Seja uma startup ou grande empresa, todos estão investindo na transformação digital no campo, então existe uma demanda real por conectividade. Hoje uma fazenda pode conectar tratores, estações meteorológicas, drones, sensores no solo, entre outros", aponta.

"Às vezes um produtor ou dois ou três grupos de produtores juntos nos procuram, e, quando se trata de pequenos agricultores, a cooperativa acaba sendo o principal porta-voz para representar essa necessidade", diz.

Conforme Barros, os benefícios da conectividade podem ser sentidos por produtores em aumento do rendimento e melhor uso de insumos e recursos na propriedade. "A nova fronteira da produtividade no agro vem através da transformação digital, que vai atuar fortemente na otimização de recursos e na produtividade a partir de dados, e a conectividade é a base de tudo isso."

Na avaliação do executivo, a pandemia do novo coronavírus aumentou a necessidade de produtores de soluções de comunicação, monitoramento, entre outras, que dependem de um bom acesso à internet.

Segundo Dal Forno, a pandemia acelerou a decisão do setor sobre conectividade, com 8 milhões de hectares atualmente em negociação pelo País, mas trouxe desafios para instalação. "Não paramos de implantar, só que tem uma velocidade menor por conta de todos os protocolos que as empresas do agro estão adotando, com isso há cronogramas um pouco mais extensos", afirma.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.