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'Quem exporta pode provar que é sustentável', diz especialista

Segundo analista, exigências ambientais tendem a crescer com Biden, mas multilateralismo pode facilitar negociação

Entrevista com

Felipe Novaes, analista de agronegócio e alimentos da consultoria Tendências

Leticia Pakulski, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 05h00
Atualizado 07 de dezembro de 2020 | 16h51

A exigência de sustentabilidade para o agronegócio brasileiro tende a ganhar a força com a presidência de Joe Biden nos Estados Unidos, avalia o analista de agronegócio e alimentos da consultoria Tendências, Felipe Novaes. Por outro lado, com o fortalecimento de órgãos multilaterais, será possível discutir uma agenda de longo prazo que permita ao País mostrar avanços em preservação ambiental. Segundo Novaes, o agro já atende a protocolos de sustentabilidade, e o uso de tecnologia pode disseminar a prática ainda mais. 

O agronegócio do Brasil pode ser considerado sustentável?

O agronegócio brasileiro mais voltado às exportações ganhou espaço tendo que comprovar ser sustentável. As atividades que se direcionam para o mercado externo precisaram atender a protocolos objetivos de garantia de segurança do alimento, rastreabilidade dos produtos e responsabilidade social e ambiental. E as exigências vêm aumentando. Existe um agro de menor tecnologia, mais voltado para o mercado interno, e nesse caso há uma dificuldade de cobertura de política pública para ajudar os produtores no quesito modernização.

Por que o agro brasileiro vem tendo imagem negativa lá fora?

Muito da percepção negativa que se tem do agro brasileiro é resultado de uma agropecuária com margem de modernização ainda alta ante os países desenvolvidos. Por exemplo, a pecuária europeia é diferente da brasileira, com menos uso de área e mais confinamento. Com o esgotamento de áreas por lá, há quase um movimento forçoso para aumentar a produção com os mesmos recursos. A disparidade de etapas de desenvolvimento entre regiões acaba fomentando discursos negativos em relação ao agronegócio brasileiro. Um segundo elemento são interesses resistentes a uma agenda de abertura comercial no mercado internacional para produtos brasileiros, que são competitivos. Mas isso é só uma parte da questão. Há um uso desse discurso como meio protecionista, mas ele varia no tempo e tende a ser menos justificável no contexto de maior preocupação com segurança alimentar.

Qual é a influência da eleição de Joe Biden para a presidência nos EUA sobre exigências de sustentabilidade para o Brasil, especificamente para o agro?

Biden já deu sinais favoráveis ao fortalecimento dos órgãos multilaterais, como a OMC (Organização Mundial do Comércio). Parece haver convergência em favor do multilateralismo, o que beneficia o Brasil. E a preocupação de Biden com meio ambiente não deve trazer só prejuízos ao País. Ele deve ser mais rigoroso com a implementação da mistura de etanol à gasolina nos EUA. Isso influencia a demanda por etanol e milho, que o Brasil também produz e é competitivo, e o agronegócio brasileiro pode ser beneficiado. Na relação bilateral, os principais produtos do agro brasileiro exportados para os EUA são madeira e celulose. Celulose, em função dos protocolos que a indústria precisa atender, está menos suscetível a pressões do que madeira. Em 2019, órgãos de fiscalização ambiental como o Ibama tiveram quadros de funcionários estratégicos esvaziados. Assim, muitas das cobranças de Biden, inclusive nas esferas multilaterais e com respaldo da União Europeia, devem vir no sentido de reconstituir quadros desses órgãos.

Como você vê a posição do Brasil quanto ao Acordo de Paris?

Não é desprezível o risco de esse tema ser instrumento de pressão de países que estão na dianteira da defesa do acordo, tendo como contrapartida exportações do agronegócio. Neste caso, pode haver um cenário de conflito ministerial. O Ministério da Agricultura vem demonstrando relativo pragmatismo maior (sobre benefícios do acordo) em relação ao Itamaraty e ao Ministério do Meio Ambiente. Pode prevalecer a agenda da Agricultura, que ganhou força.

O quanto o governo ajuda ou atrapalha na imagem ambiental do agro brasileiro?

As demonstrações têm sido em geral negativas para a imagem e a credibilidade do agronegócio brasileiro no exterior. Se fizéssemos uma ponderação do efeito líquido, seria negativo.

A pressão de varejistas europeus para bloquear compras ligadas a desmatamento no País é uma mudança de paradigma? 

Sim, e em um governo Biden, deve ganhar força. Mas, com o fortalecimento de instâncias multilaterais, o Brasil pode fazer com que uma possível ameaça se torne agenda de longo prazo em que o País mostre avanço (em preservação).

De que maneira o agro brasileiro pode trabalhar para melhorar a imagem lá fora?

O agronegócio já mostrou sua capacidade de mobilizar influências políticas. O setor pode buscar linhas de crédito ou programas de fomento ao agro social e ambientalmente responsável. É difícil atribuir a responsabilidade só a empresas e produtores. Se há algo que precisa de cumplicidade entre esfera privada e pública, é a preservação ambiental. 

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