Ministério da Agricultura/Divulgação
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'Segurança alimentar é estratégica para a China, e Brasil já se mostrou um fornecedor confiável'

Para Larissa Wachholz, responsável pelo Núcleo China no Ministério da Agricultura, ruídos diplomáticos recentes não abalam relação de confiança construída pelo agronegócio

Entrevista com

Larissa Wachholz, responsável pelo Núcleo China do Ministério da Agricultura

Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2021 | 11h13

A responsável pelo Núcleo China do Ministério da Agricultura, Larissa Wachholz, acredita que, apesar dos ruídos diplomáticos recentes entre o Brasil e os chineses, a relação deve se manter forte. Segundo ela, a questão da segurança alimentar é estratégica para o governo chinês, e os brasileiros mostraram ser, ao longo do tempo, fornecedores confiáveis.

Para Larissa, que morou e estudou na China entre 2008 e 2013 e  fala mandarim, porém, mesmo reconhecendo a necessidade de adquirir grandes volumes de commodities agrícolas do mundo, o governo chinês é exigente na negociação de protocolos sanitários e a questão ambiental deve se tornar um tema cada vez mais presente nessas relações. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como a sra. descreveria a relação entre Brasil e China atualmente?

Creio que a forte relação atual é consequência de uma complementaridade entre as duas economias, que é muito clara e óbvia. O movimento da China, de algumas décadas para cá, revela um país com escassez de recursos naturais, que está industrializando a economia, aumentando a participação no comércio global, se urbanizando e enfrentando um forte crescimento econômico com o consequente aumento da classe média urbanizada. Esse conjunto de coisas afetou a demanda por matérias-primas e produtos semimanufaturados. E o Brasil, que já era produtor e exportador de produtos primários, acabou, por consequência, se tornando um dos principais beneficiários desse crescimento econômico chinês. É, por fim, uma relação que ocorreu de forma natural, mas é preciso dizer que ela não foi totalmente solta. Se não fosse a nossa capacidade de desenvolver o agronegócio e nos mostrarmos como um fornecedor confiável e de grandes volumes, a relação não teria sido construída, pois os chineses prezam muito a confiança.

Ruídos diplomáticos como os ocorridos em 2020 entre o deputado Eduardo Bolsonaro e o embaixador da China no Brasil não atrapalhariam essa perspectiva de longo prazo?

Temos de pensar sob o seguinte aspecto: para o governo chinês, a segurança alimentar é uma questão muito estratégica. E o Brasil tem se mostrado, ao longo das últimas décadas, um país confiável e que se encaixa nisso. De alguns anos para cá, aliás, há um fortalecimento claro da relação entre os dois países sob o ponto de vista do agronegócio. Só em 2019 a ministra Tereza Cristina esteve na China duas vezes e logo em seguida o presidente da China, Xi Jinping, veio para cá, por causa da Cúpula do Brics. Não tivemos outro ano nas relações bilaterais com encontros presenciais tão frequentes. E o agronegócio esteve na pauta de todas as conversas. Aliás, é uma característica forte dos chineses e asiáticos em geral a necessidade de encontros presenciais de autoridades de alto nível para que o comércio efetivamente aconteça. Tanto que a ministra viajou em 2019 pela Ásia, porque isso realmente resulta numa abertura concreta de mercado em um momento posterior. Temos, enfim, uma relação de confiança muito bem estabelecida, em que os dois lados sabem que podem contar um com o outro. A própria criação de uma área específica para a China no Ministério da Agricultura reflete o reconhecimento dessa importância.

Na relação com os chineses, quais são as principais exigências?

É interessante pensar que, apesar de eles se posicionarem e se reconhecerem como um país importador, na lida do dia a dia há muitas exigências deles para que isso se materialize. No que diz respeito a produtos alimentícios, temos de negociar acordos sanitários e fitossanitários e muitas vezes um a um, alimento por alimento, commodity por commodity. Em frutas, por exemplo, não se pode negociar de forma genérica. Tem de ser fruta por fruta. Abrimos recentemente o mercado chinês para o melão brasileiro, a primeira fruta nossa que conquistou essa abertura. Para abrir para outras, como uvas e limas, que também estão na fila, são protocolos separados para cada uma.

O tema meio ambiente tem recaído bastante sobre o agronegócio brasileiro, às vezes na forma de elogio, às vezes na forma de fortes críticas. Essa questão é determinante para que a China continue a comprar do Brasil?

Eu diria que, hoje, ainda não é determinante. Mas acho que precisamos observar isso com bastante atenção, porque a China firmou o compromisso de conquistar a neutralidade das emissões de carbono em todas as atividades dentro do país até 2060. E ela não costuma assumir compromissos públicos que não consiga cumprir. Embora seja uma meta mais ligada à matriz energética, dependente do carvão, e também à de transporte, e num primeiro momento o Brasil possa pensar que não tem a ver com isso, não é bem assim. Devemos nos lembrar que, para um compromisso desse se concretizar, a China vai colocar a sua máquina estatal para funcionar, desde o governo central, passando pelas províncias e municipalidades. E todo mundo começa a se mover na mesma direção e instrumentos começam a ser criados para que esse compromisso ambiental se materialize. Por isso, acho perfeitamente possível que grandes empresas chinesas, cada vez mais atuantes no mercado internacional, até mesmo como investidoras, algumas delas listadas em bolsa, passem a adotar critérios de sustentabilidade em suas compras, investimentos e acordos comerciais. A Cofco, por exemplo, passou recentemente a exigir 100% de rastreabilidade da soja que ela compra do Brasil até 2023. É o primeiro compromisso importante de uma empresa chinesa e que já tem a ver com esse critério.

O consumidor chinês também seria determinante nesse processo?

Esses compromissos ambientais foram assumidos justamente como reflexo de uma preocupação da sociedade chinesa, que entende que o desenvolvimento acelerado do país trouxe um custo ambiental muito grande e insustentável. Para você ter ideia da importância do tema, a China se autodefiniu, em sua Constituição de 2018, como uma "civilização ecológica".

Para o Brasil, essa mudança será prejudicial ou benéfica?

Acho que os efeitos, para o agronegócio brasileiro, estão muito mais no campo das vantagens. Embora a China ainda não exija sustentabilidade em grande escala, é uma tendência importante para a qual a gente precisa estar atento, porque ela representa uma grande vantagem para o Brasil, do ponto de vista do agronegócio. Nós já conseguimos fornecer esses elementos de sustentabilidade - mesmo que ainda haja muito a melhorar. Dispomos de práticas sustentáveis que poderiam atender a cláusulas ambientais. A China pretende, por exemplo, reduzir o consumo de plásticos. E o Brasil é um fornecedor importante da cadeia de papel e celulose. Então, isso pode representar para a gente uma oportunidade, se houver um crescimento de polpa de celulose do Brasil para a China, como efeito da substituição do plástico por papel. Isso seria uma vantagem direta.

Por que a soja se tornou o principal produto adquirido pela China ao longo desses anos?

Porque a soja não está na lista dos alimentos em que eles se propuseram a ser autossuficientes. Às vezes, a gente pensa na China somente como grande importador, mas ela é também o maior produtor de commodities agrícolas, uma potência também neste quesito. E, como tal, adota uma estratégia de segurança alimentar, tendo como um dos pilares a autossuficiência em trigo, arroz e milho, cuja produção atende a 95% de suas necessidades. Outro pilar é a estabilidade na produção de carnes, lácteos e alimentos frescos. A soja não está nesta lista. A China se permite importar esse grão. Nesse contexto, o Brasil se beneficiou, lembrando que, de tudo o que o nosso agronegócio exporta, 25% são de soja para a China. Aí fica clara, novamente, a complementaridade entre China e Brasil: nós, como grandes exportadores, e a China, como grande importadora.

E quanto às carnes bovina, de frango e suína, cujas exportações brasileiras para lá também dispararam? Como elas se encaixam nessa estratégia de segurança alimentar?

Esse é um ponto de atenção, pois, além daqueles três grãos, em setembro de 2020 a China traçou metas de autossuficiência na produção de proteína animal. Eles pretendem, nos próximos anos, ser autossuficiente nos seguintes termos: 95% para carne suína, 85% para carne bovina e 70% para lácteos. Ou seja, as nossas exportações, embora volumosas, são vistas pelo governo chinês como uma complementação da produção doméstica, mas necessárias para atender à mudança de dieta do consumidor. Desta forma, será um desafio para o Brasil manter e ocupar mais espaços importantes no país asiático, tendo em vista essas metas de autossuficiência. Mas, pelo fato, por exemplo, de a China admitir que só consegue produzir 85% da carne bovina de que necessita, creio que temos um grande espaço para crescer. Imaginando que eles vão conseguir atingir esse nível de autossuficiência. Se não conseguirem, teríamos uma margem ainda maior. Lembrando ainda que, com a mudança de hábitos da população, é natural que haja uma transição de proteínas mais baratas para as mais caras, como a carne bovina. É um movimento contínuo e que deverá permanecer.

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