Andre Dusek/Estadão
Andre Dusek/Estadão

Calote de empresas da Lava Jato teria impacto de R$ 3,4 bi no sistema financeiro

Relatório do BC considera os recursos necessários para cobrir o rombo caso todas as companhias e suas conexões deixassem de pagar suas dívidas; simulação não inclui a Petrobrás

Célia Froufe, O Estado de S. Paulo

01 de outubro de 2015 | 11h48

Atualizado às 14h40

BRASÍLIA - Se todas as empresas citadas na Operação Lava Jato hoje anunciassem um calote, considerando também seus respectivos grupos, rede de conexões e funcionários, o Sistema Financeiro Nacional (SFN) continuaria mostrando alta resistência, com nenhuma instituição insolvente, na avaliação do Banco Central. A necessidade de capital para reenquadramento calculada pelo BC é de R$ 3,4 bilhões, o que equivale a 0,4% do Patrimônio de Referência atual do sistema. "Evidentemente que, nas hipóteses mais extremas, a rentabilidade do SFN seria impactada de forma ainda mais severa", considerou o BC.

A simulação não considera hipótese de calote da Petrobrás, segundo o diretor de fiscalização do Banco Central, Anthero Meirelles. Segundo ele, a estatal tem "dimensão sistêmica". 

Anthero também foi questionado sobre se o exercício considerou qual a probabilidade de os defaults das empresas ligadas à Petrobras de fato ocorrerem. "A possibilidade de defaults estimados ocorrerem é algo muito difícil de calcular", explicou. "Não sei nem o que consideraríamos para considerar isso", continuou. O diretor também não quis responder sobre a situação de quebra do grupo ou de parte do grupo Odebrecht. "Não vou citar casos específicos." 

O Banco Central apresentou um boxe exclusivo sobre o assunto da Operação Lava Jato dentro do Relatório de Estabilidade Financeira (REF), divulgado nesta quinta-feira, 1º. "Embora a rentabilidade fosse bastante afetada, nenhuma instituição financeira ficaria insolvente", trouxe o documento intitulado "Impactos de Contágio do Setor Real no Sistema Financeiro".

A razão da metodologia foi tentar, de acordo com Anthero, construir uma forma de mensurar o que aconteceria no sistema financeiro com um problema de grande magnitude no sistema real. "Se houver default, não basta ver a empresa em si, mas o entorno dessa empresa, de pessoas e famílias", citou. Ele disse que se uma empresa quebra, é preciso ver quais são as outras empresas que tiveram, nos últimos 12 meses, um fluxo relevante que veio dessa primeira empresa que passou por default. 

O BC observou, no entanto, que nem todos os grupos estão representados e que as exposições das empresas e de seus empregados são o ponto de partida para medir o impacto no SFN. 

O exercício fez simulações por fatias: de 25% das receitas, de 25% a 50%, de 50% a 75% e de 75% a 100%. Além disso, considerou o que aconteceria também no nível de emprego. "Procuramos identificar as redes interfinanceiras também. Se temos um problema da economia real que se espalha, qual o impacto?". Segundo o diretor de fiscalização do Banco Central, foi um trabalho complexo porque envolveu todo o grupo econômico dessas empresas citadas, o contágio a fornecedores, empregos e o impacto no sistema financeiro. "Identificamos grupos mais ou menos dependentes da Petrobrás, ou que já tinham recuperação judicial ou algum default negociado e outro grupo", citou. 

Liquidez. O risco de liquidez de curto prazo do sistema bancário apresentou aumento no primeiro semestre de 2015 em relação ao anterior, mas permaneceu em nível confortável. Segundo o BC, o risco de liquidez estrutural não se alterou, e as operações de longo prazo continuam suportadas por fontes de recursos estáveis. 

Também segue baixa a dependência de recursos externos. "O cenário de desaquecimento econômico, elevação de juros, condições menos favoráveis no nível de emprego e redução da confiança dos consumidores e dos empresários levou à redução na demanda por crédito e à adoção de critérios de concessão mais conservadores pelas instituições financeiras, contribuindo para reduzir a taxa de crescimento da carteira de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN)", trouxe o documento. 

Mesmo nesse ambiente, a inadimplência não apresentou aumento significativo até o encerramento do primeiro semestre, conforme o BC. Isso ocorreu, entretanto, por causa de cessões e renegociações de crédito, alertou a instituição.

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