Ricos com o suor do próprio rosto

O sonho americano de ir da miséria à riqueza hoje parece mais viável na Ásia emergente do que nos Estados Unidos

The Economist, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2016 | 04h35

Em 1998, Peter Mandelson, figura importante no governo trabalhista do então primeiro-ministro britânico Tony Blair, disse não ver "mal algum em que as pessoas ganhem rios de dinheiro, contanto que paguem seus impostos". Hoje Mandelson dificilmente faria declaração semelhante. O atual membro da Câmara dos Lordes está preocupado com o crescimento da desigualdade e a estagnação da renda da classe média. E não é só ele: a inquietação é compartilhada por muitos integrantes da elite mundial. A diretora do FMI, Christine Lagarde, diz que o agravamento da desigualdade projeta uma nuvem sombria sobre a economia mundial. Em relatório divulgado recentemente, a OCDE adverte que o aumento da desigualdade será um "desafio fundamental" para todos os países.

Em livro publicado este ano, com o título de Rich People, Poor Countries: The rise of emerging-markets tycoons and their mega firms ("Gente Rica, Países Pobres: A ascensão dos magnatas dos mercados emergentes e de suas megacorporações"), a economista Caroline Freund, do Peterson Institute, oferece importante contribuição para a compreensão desse desafio. Freund faz uma distinção entre os bilionários dos países ricos e aqueles oriundos de economias emergentes, cujos números vêm crescendo em ritmo mais acelerado. Em 2004, 20% dos 587 bilionários que compunham a lista anual elaborada pela revista Forbes eram cidadãos de países emergentes. Em 2014, eles representavam 43% dos 1.645 bilionários da lista. No mundo desenvolvido, a fatia dos que construíram suas próprias fortunas, em vez de tê-las herdado, manteve-se relativamente estável, em torno de 60%, entre 2001 e 2014. Nas economias emergentes, a proporção dos que enriqueceram às próprias custas aumentou de 56% para 79%.

Acumular os próprios milhões não é automaticamente uma virtude. Alguns magnatas devem suas fortunas a relações espúrias com pessoas que ocupam posições de poder. No entanto, segundo Freund, o grupo de bilionários que mais cresce nos países emergentes é formado por indivíduos que poderiam ser chamados de empresários "schumpeterianos", isto é, donos ou executivos de empresas que lutam pela sobrevivência em mercados globais. Segundo a economista, é possível que a ascensão desse tipo de magnata seja a consequência saudável de transformações estruturais e desenvolvimento acelerado. Quando uma economia cresce muito rápido - como a americana no fim do século 19, por exemplo, ou a japonesa depois da 2.ª Guerra -, formam-se grandes empresas, que geram concentração de renda mas também contribuem com o crescimento, pois adotam técnicas produtivas inovadoras e criam postos de trabalho. Assim, em economias de crescimento acelerado, melhoram as condições de vida das faixas de renda mais baixas, ao mesmo tempo em que se formam grandes fortunas entre os que estão no topo da pirâmide.

Classificação. Ao analisar as listas de bilionários, Freund exclui aqueles cujo patrimônio é herdado e classifica os restantes em quatro categorias: os que enriqueceram com concessões governamentais ou outras formas de renda; os que atuam no setor financeiro ou imobiliário; os fundadores de empresas que efetivamente competem no mercado; e os executivos altamente bem remunerados dessas empresas schumpeterianas. Para a economista, só esses dois últimos grupos merecem o título de empreendedores. Em 2001, apenas 17% de todos os bilionários oriundos de países emergentes podiam ser considerados empreendedores na acepção empregada por Freund; em 2014, eles já eram cerca de 35%.

Entre os exemplos de maior destaque está Terry Gou, de Taiwan, dono da gigante de eletrônicos Hon Hai (também conhecida como Foxconn), fundada em 1974, com capital inicial de meros US$ 7,5 mil. Depois de uma expansão extraordinária na China continental, a empresa tornou-se a maior exportadora da potência asiática, empregando quase 1 milhão de funcionários. Em 1983, com US$ 1 mil emprestados por seu pai, Dilip Shanghvi criou a Sun Pharmaceutical Industries, atualmente o maior laboratório farmacêutico da Índia, com 16 mil funcionários e valor de mercado de US$ 29 bilhões. Zhou Qunfei começou trabalhando na fazenda de sua família, na província chinesa de Hunan, e teve uma experiência como operária fabril em Guangdong, antes de criar uma empresa que produz telas sensíveis ao toque. Hoje, desconsiderando as herdeiras de grandes fortunas, Zhou é a mulher mais rica do mundo, com um patrimônio de US$ 5,3 bilhões. Sua companhia, a Lens Technology, emprega 60 mil pessoas e tem uma capitalização de mercado de quase US$ 12 bilhões. O sonho americano de ir da miséria à riqueza parece mais viável na Ásia em desenvolvimento do que nos próprios Estados Unidos, que dão a impressão de terem se rendido aos interesses dos grandes grupos empresariais e financeiros.

O surgimento desses ciclopes corporativos lembra a emergência de grandes empresas nos EUA e na Europa entre o fim do século 19 e o início do 20, no Japão entre as décadas de 1950 e 1960 e na Coreia do Sul entre os anos 1960 e 1970. A semelhança com os EUA da era do ouro é particularmente impressionante. Magnatas chineses como Jack Ma, do Alibaba, e Robin Li, do Baidu, duas gigantes de internet, vêm descobrindo formas de explorar mercados novos, de potencial gigantesco, tal como fizeram Andrew Carnegie e John D. Rockefeller nos segmentos de aço e petróleo em fins do século 19. A Tee Yih Foods, de Cingapura, tornou-se um colosso no ramo de rolinhos primavera e outras iguarias orientais graças à mecanização de sua produção e ao aprimoramento de seu marketing, tal como fez a H. J. Heinz com seus temperos e picles em conserva na Pittsburgh dos anos 1890.

O cenário auspicioso comporta variações regionais. O Leste Asiático concentra o maior número de bilionários schumpeterianos, ao passo que na América Latina há uma fatia desproporcional de herdeiros de grandes fortunas e nos países do Sul da Ásia, assim como nos do Leste Europeu, proliferam os indivíduos que enriquecem graças a cambalachos políticos. De qualquer forma, o sentimento de revolta contra os bilionários, que atualmente é um traço tão marcante da política ocidental, por ora é bem menos acentuado nos países em desenvolvimento. Isso talvez se deva ao fato de que os bilionários dos mercados emergentes dão a impressão de serem mais dinâmicos: mais da metade deles têm menos de 60 anos, enquanto que no mundo desenvolvido os magnatas mais jovens não chegam a um terço do total; e estão mais sujeitos às forças de destruição criativa: do mesmo modo que se formam rapidamente, suas fortunas correm o risco de evaporar de uma hora para a outra, ao passo que no mundo desenvolvido elas são mais estáveis. Além do mais, nas economias emergentes, o enriquecimento de alguns é acompanhado da melhoria nas condições de vida das pessoas comuns. Já no mundo desenvolvido, a renda das pessoas comuns está estagnada.

Procurando bem, encontram-se alguns furos na tese de Freund. A linha divisória entre empresas schumpeterianas e companhias que se beneficiam de favores governamentais é bastante tênue na China, onde o Estado exerce enorme influência nos bastidores. Além disso, se a recente desaceleração das economias emergentes se agravar, talvez descubramos que os impérios de algumas estrelas do empreendedorismo emergente foram construídos sobre alicerces de areia. Mas a economista do Peterson Institute peca antes pelo excesso de cautela, já que exclui de sua análise os indivíduos que fizeram fortuna no setor financeiro, muito embora também aí se possa criar riquezas, e os herdeiros de grandes fortunas, ainda que alguns deles - como os Ratan Tata, na Índia, que aumentaram enormemente o valor do grupo Tata - sejam schumpeterianos. Mesmo que continuem a testemunhar o surgimento de fortunas criadas graças a laços de compadrio, os países emergentes tiveram um aumento significativo no número de empresários de verdade. Isso é sintoma de dinamismo econômico, não fonte de mais desigualdade.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

 

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