Peter Morgan/Reuters
Peter Morgan/Reuters

15 anos de desgosto

Em 2000, a alta das ações de tecnologia foi uma bolha. Desta vez, não é o caso - pelo menos por enquanto

O Estado de S.Paulo

05 Maio 2015 | 02h01

A longo prazo as ações são o melhor investimento. Esse é o mantra que os especialistas em investimentos não se cansam de repetir. Mas o recente recorde de alta do Nasdaq, o índice de ações de tecnologia dos Estados Unidos, deveria fazer os investidores pensar duas vezes. Como o FTSE 100, da bolsa de Londres, o Nasdaq precisou de 15 anos para ultrapassar seu último recorde de alta. Mesmo assim, comparado com o índice da bolsa japonesa, o Nikkei 225, cujo patamar atual corresponde a metade da valorização atingida em 1989, é um desempenho excelente.

Diante de números como esses, é difícil argumentar que "não existem bolhas", como ainda sustentam os economistas de fim de semana. Uma bolsa de valores em nível muito alto gera a expectativa de um rápido crescimento dos lucros futuros. Em 2000, o índice preço/lucro médio das ações do Nasdaq era superior a 150. Em outras palavras, se os lucros não crescessem, um acionista teria de esperar bem mais de um século para recuperar seu investimento inicial.

Talvez os investidores estivessem pensando em seus tataranetos, mas não era o que parecia à época. Acreditava-se que as companhias de tecnologia dominariam o mundo, levando as empresas da "velha economia" a nocaute; em consequência, seus lucros iriam à estratosfera. De fato, algumas companhias de tecnologia tiveram um desempenho fantástico, como mostra a última série de lucros exuberantes da Apple.

O problema em 1999-2000 foi que todo mundo pensou que iria ganhar dinheiro com a internet. Isso fez que não poucos recém-formados brilhantes resolvessem explorar algum nicho desse mercado, criando suas próprias empresas pontocom. O entusiasmo gerou ainda mais demanda por produtos de tecnologia: as novas empresas precisavam de roteadores, desktops e acesso a cabos de fibra ótica. Isso impulsionou os lucros do setor por algum tempo.

Mas também deixou algumas áreas extremamente congestionadas, onde a competição era acirrada. As empresas de tecnologia começaram a ter problemas para ganhar dinheiro. E em 2000, em vez de crescer, como haviam previsto os investidores, os lucros desabaram. Foi só em 2010 que os lucros por ação das empresas do Nasdaq voltaram ao nível alcançado em 1997.

Companhias em dificuldades foram compradas por suas concorrentes; das empresas que compunham o índice no fim de 1999 três quartos não têm mais ações em bolsa. É um tema recorrente na história: os lucros mais gordos nem sempre ficam com os pioneiros e desbravadores. Em 2000, dois dos gigantes atuais do Nasdaq, Google e Facebook, não tinham nem aberto o capital.

Outra explicação "racional" para mercados acionários extremamente valorizados é que os investidores estão preparados para aceitar retornos menores no futuro, conforme os valores retornem a seus níveis médios. Mas não foi isso o que se viu na virada do século. O Nasdaq teve uma alta de 86% em 1999, e os investidores acorreram aos montes ao mercado, na esperança de aproveitar um pouco da festa. Anteviam ganhos porcentuais anuais na casa dos dois dígitos. Por algum tempo, esse entusiasmo generalizado empurrou as ações ainda mais para cima. Mas assim que os investidores perderam a confiança, as perdas foram brutais.

Desta vez, as valorizações parecem muito mais razoáveis. O índice preço/lucro está em 26, e as ações têm subido de forma relativamente constante, e não exponencial: na última ocasião em que os preços dobraram, foram necessários três anos. Russ Koesterich, estrategista do grupo de gestão de fundos BlackRock, observa que atualmente as ações de tecnologia representam, em valor, 20% de todo o mercado americano. Em 2000, representavam 30%.

No setor de biotecnologia até há alguns sinais de excesso de entusiasmo (suas ações se valorizaram mais de 50% nos últimos doze meses). Mas isso é, em parte, consequência do aparecimento de alguns medicamentos realmente promissores. Andy Acker, da Janus, outra gestora de fundos, menciona o medicamento Sovaldi, da Gilead, usado no tratamento da hepatite C: as vendas no primeiro ano de comercialização da droga somaram US$ 30 bilhões, superando de forma extraordinária as expectativas dos analistas, que haviam previsto, de forma consensual, um faturamento da ordem de US$ 1 bilhão. Muitos desses medicamentos têm por objetivo substituir tratamentos alternativos extremamente dispendiosos. Isso torna os lucros mais previsíveis. A Celgene, que fabrica um desses medicamentos, informou aos investidores que seus lucros devem crescer 23% ao ano até 2020.

Evidentemente, não é difícil imaginar um retorno da mentalidade associada às bolhas financeiras. Talvez isso já esteja inclusive acontecendo no mundo das startups e do capital de risco. Mais alguns anos de juros zero e títulos de rentabilidade negativa, que obrigam os investidores a buscar retornos mais elevados com ativos que apresentam maior grau de risco, como as ações, e sabe-se lá o que pode acontecer.

Agora, porém, não há nada que se assemelhe ao clima de euforia dos anos 1999-2000. Os investidores não estão dando muita bola para o noticiário financeiro (em 2014, a audiência da CNBC foi a mais baixa desde que o canal de negócios e finanças entrou no ar), e os trabalhadores não estão pedindo demissão para tentar ganhar dinheiro com operações diárias na bolsa. Taí uma coisa boa das bolhas financeiras: quem passou por uma, enxerga com mais facilidade a chegada de outra.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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