Clayton de Souza/Estadão
Desigualdade Clayton de Souza/Estadão

2,7% das famílias brasileiras ficam com um quinto da renda gerada no País, mostra IBGE

Levantamento sobre orçamento doméstico mostra que um quarto das famílias compartilha apenas 5,5% de toda a massa de rendimentos

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2019 | 10h54

RIO - O Brasil tem rendimento médio mensal de R$ 5.088,70 por família. Somada a variação patrimonial, o valor sobe a R$ 5.426,70. No entanto, os recursos permanecem concentrados em uma pequena fatia da população. 

Uma minoria de 2,7% de famílias brasileiras detêm nada menos do que um quinto de toda a massa de renda gerada no Brasil, segundo os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Por outro lado, a faixa mais pobre, que somava um quarto de todas as famílias brasileiras, compartilhava apenas 5,5% de toda a massa de rendimentos e variação patrimonial do País.

Cerca de 44,8 milhões de pessoas distribuídas em 16,5 milhões de famílias viviam com até R$ 1.908,00 de renda familiar mensal, o equivalente a dois salários mínimos, no período de referência da pesquisa. Essas pessoas que integravam a faixa de renda mais baixa representavam 23,9% das famílias brasileiras, mas contribuíam com apenas R$ 297,18 para a renda média mensal auferida pelos brasileiros.

A faixa mais rica, que recebe mais de 25 salários mínimos mensais (acima de R$ 23.850,00), contribuiu com R$ 1.080,26 para o rendimento médio familiar médio do País, uma fatia de 19,9% da massa de renda total.

A pesquisa também mostrou a desigualdade de renda entre as áreas urbanas e rurais. As famílias em áreas urbanas tinham rendimento total médio e variação patrimonial de R$ 5.806,24, as de áreas rurais alcançavam pouco mais da metade disso, 52,3%, com renda média mensal de R$3.050,49.

A pesquisa capta os rendimentos monetários (captados no mercado de trabalho, nas transferências governamentais e intrafamiliares e associados ao patrimônio, como aluguéis de imóveis, por exemplo), os rendimentos não monetários (imputados a doações e presentes recebidos pela família ou elementos provenientes de fabricação própria, como o cultivo de alimentos) e as variações no patrimônio (como saques da poupança, recebimento de herança e vendas de imóveis).

O peso das pensões e aposentadorias

Quanto mais pobre a família, mais dependentes de transferências de renda e de aquisições não monetárias, ou seja, doações ou consumo de bens e serviços gratuitos, sem a existência de pagamento, como alimentos produzidos para o próprio consumo.

Os rendimentos não monetários e as transferências representaram quase 60% dos valores recebidos pelas famílias de menor renda no País, segundo o IBGE.

Na faixa de renda familiar mensal de até dois salários mínimos, apenas 41% dos recursos vinham do rendimento de trabalho. Outros 28,8% eram originários das transferências (15,8% de aposentadorias e pensões do INSS e 7,7% de programas sociais federais, como o Bolsa Família); 28,2% eram recursos não monetários; 0,3%, de aluguéis; 0,6%, de outras rendas; e 1,1% se referia à variação patrimonial.

No outro extremo da faixa de renda, entre as famílias que recebiam mais de 25 salários mínimos mensais, 60% dos recursos vinham do rendimento de trabalho; 12,8% das transferências; 3,7% dos aluguéis; 0,2% de outras rendas; 7,9% eram não monetários; e 15,3% eram referentes à variação patrimonial (como saques da poupança, recebimento de herança e vendas de imóveis).

O valor médio recebido pelas famílias, relativo ao rendimento mensal e à variação patrimonial, foi de R$ 5.426,70 em 2018. A maior participação era do rendimento de trabalho (R$ 3.118,66), o equivalente a 57,5% do total.

A segunda maior participação era das transferências (19,5%), sendo 55,0% proveniente das aposentadorias e pensões do INSS e apenas 5,4% dos programas sociais federais. Outros 14,5% do que as famílias recebiam foi era monetário, foram as aquisições sem necessidade de pagamento.

Nas áreas urbanas, o rendimento de trabalho correspondia a 58,4% do valor recebido, as transferências representavam 19,0%, e os rendimentos não monetários eram 14,2%. Nas áreas rurais, o rendimento de trabalho correspondia a uma fatia de 46,8% do total recebido, as transferências somavam 25,3%, e os rendimentos não monetários significavam 18,3%.

O maior valor médio recebido pelas famílias foi o da região Centro-Oeste (R$ 6.772,86), correspondente a 124,8% da média nacional e, no Sudeste (R$ 6.391,29), equivalente a 117,8%.

No Nordeste (R$ 3.557,98) e Norte (R$ 3.647,70), os valores corresponderam a 65,6% e 67,2% da média nacional, respectivamente.

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Famílias gastam mais com impostos e dívidas e investem menos no patrimônio, aponta IBGE

Mudança ocorrida na última década mostra que o brasileiro está comprando menos e pagando mais dívidas

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2019 | 10h00

RIO - Em uma década, os brasileiros passaram a gastar mais com impostos e com o pagamento de dívidas, encurtando o espaço no orçamento para investimentos no patrimônio, segundo os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 4. 

As famílias brasileiras gastaram, em média, R$ 4.649,03 por mês em 2018. As despesas de consumo absorveram 81% do orçamento familiar (contra 81,3% na POF anterior, de 2008-2009), enquanto o pagamento de outras despesas correntes, como impostos e contribuições trabalhistas, consumiu 11,7% (ante uma fatia de 10,9% na POF anterior) e 3,2% foram destinados à diminuição de dívidas (ante 2,1% na POF 2008-2009).

Apenas 4,1% do orçamento familiar foi dirigido ao aumento do ativo, ou seja, a despesas com aquisição de imóveis, construção ou melhoramento de imóveis próprios e investimentos em títulos de capitalização, títulos de clube e aquisição de terrenos para jazigo, por exemplo. Na pesquisa de 2008-2009, as famílias destinavam 5,8% do orçamento familiar mensal para esse fim.

A capacidade de investimento das famílias diminuiu, confirmou André Martins, gerente da POF no IBGE. "Pode ser a crise, as famílias estariam adquirindo menos e pagando mais dívidas”, disse André Martins, gerente da POF no IBGE. "Se você gasta muito dinheiro com a manutenção, sobra pouco espaço para fazer investimento", completou.

Quase um quinto do que as famílias consumiam não envolvia pagamento com recursos financeiros. As despesas monetárias - aquelas realizadas mediante pagamento em dinheiro, cheque ou cartão de débito ou crédito - representavam 81,9% do total consumido pelas famílias, enquanto os outros 18,1% eram despesas não monetárias, ou seja, provenientes de produção própria, retiradas do negócio, troca, doação e outras formas de obtenção que não envolveram pagamentos monetários.

"O consumo dos brasileiros é acima do gasto monetário. Tem uma parte do consumo do brasileiro que sai do próprio bolso, outra parte que não. Que se dá por bens, por serviços, que são dados para ele pela família, pelo governo", explicou Leonardo Vieira, analista da POF no IBGE.

As despesas não monetárias foram mais relevantes nas áreas rurais, colaborando com uma fatia de 22,5% do orçamento mensal das famílias, contra uma participação de 17,7% da despesa das famílias de áreas urbanas. 

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Despesa das famílias com transporte supera gastos com alimentação

Levantamento do IBGE sobre orçamento doméstico mostra que nos últimos dez anos aumentaram os gastos com habitação, saúde e educação

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2019 | 10h00

RIO - As famílias brasileiras gastaram, em média, R$ 4.649,03 por mês em 2018, segundo os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

As despesas de consumo representaram 81% desse valor, ou seja, o equivalente a R$ 3.764,51 mensais. Na última década, aumentaram os gastos com habitação, saúde e educação. A fatia de recursos destinada a transporte e alimentação encolheu.

As despesas com habitação consumiram a maior proporção da cesta de consumo das famílias, 36,6%, ainda mais do que absorviam de recursos na POF anterior, referente a 2008-2009, quando essa participação era de 35,9%. Também aumentou a destinação de recursos para Assistência à saúde (de uma fatia de 7,2% para 8,0%) e Educação (de 3,0% para 4,7%).

Embora ambos tenham diminuído, os gastos das famílias com transporte superaram os de alimentação pela primeira vez nas pesquisas de orçamentos familiares. A fatia de recursos destinada ao transporte passou de 19,6% em 2008-2009 para 18,1% em 2017-2018. A porcentagem destinada à alimentação saiu de 19,8% para 17,5% no período.

“Na medida em que a renda vai aumentando, a despesa com alimentação vai diminuindo a participação. Se você ganhar o dobro vai gastar o dobro com alimentação? Não. Vai gastar em outras coisas", exemplificou Leonardo Vieira, analista da POF no IBGE.

Para André Martins, gerente da POF no IBGE, as famílias também podem ter substituído itens de maior valor por outros mais baratos, diminuindo esse tipo de despesa.

"Na alimentação você consegue fazer substituição, trocar um alimente por outro. No transporte, não", opinou Martins.

Novo cálculo do IPCA

As mudanças nos hábitos de consumo das famílias brasileiras captadas pela POF servirão de parâmetro para recalcular o peso dos itens pesquisados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial no País. 

O IBGE divulgará na próxima sexta-feira, dia 11, a nota técnica com as futuras mudanças no cálculo do IPCA. A inflação passará a ser calculada sob a nova metodologia apenas em janeiro do ano que vem, com divulgação prevista para o início de fevereiro.

“Para ponderações para o IPCA, (os pesquisadores) usam um subconjunto de dados, só os gastos monetários, e só de um grupo determinado de faixa de rendimento”, ressaltou André Martins.

O valor médio das despesas de consumo realizadas pelas famílias que moram em área rural foi de R$ 2.158,83 em 2017-2018, o equivalente a 53,7% do gasto médio das famílias habitantes de regiões urbanas, de R$ 4.020,98.

A proporção de gastos com alimentação foi maior entre a população rural (23,8%) do que entre a urbana (16,9%). O mesmo ocorreu também com as despesas de transporte, responsáveis por 20% do total do consumo na em lares da região rural contra uma fatia de 17,9% na área urbana. Os gastos com educação também foram mais expressivos em residências urbanas (4,9%) do que nas rurais (2,3%).

Os gastos com habitação abocanharam uma fatia maior das despesas das famílias urbanas (37,1%) do que das que moram na zona rural (30,9%).

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Brasileiro aumenta despesa com alimentação fora de casa

Do total de despesas das famílias com comida, 32,8% dos gastos foram feitos na rua, de acordo com levantamento do IBGE sobre orçamento doméstico

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2019 | 10h10

RIO - Os brasileiros estão comendo mais fora de casa. As famílias gastaram, em média, R$ 658,23 mensais com alimentação, sendo 67,2% (R$ 442,27) com alimentos consumidos no domicílio e os demais 32,8% (R$ 215,96) com alimentação na rua, ou seja, em restaurantes, bares e lanchonetes País afora. Os dados são da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em uma década, cresceu a proporção de recursos destinados à alimentação fora do domicílio: passando de 31,1% do total destinado à alimentação na POF de 2008-2009 para 32,8% em 2017-2018. Entre as famílias que moram em áreas urbanas, essa fatia destinada à alimentação fora de casa subiu de 33,1% para 33,9% no período. O salto foi maior entre as famílias de áreas rurais, de 17,5% para 24,0%.

“Pode ser que o desenvolvimento das áreas rurais tenha contribuído. Estão chegando mais estabelecimentos nessas áreas, mais lugares para as pessoas fazerem refeição fora do domicílio”, justificou André Martins, gerente da POF no IBGE.

No entanto, o fenômeno também pode ter contribuição de mudanças no mercado de trabalho, com mais mulheres ocupadas fora de casa ou simplesmente mais pessoas da família trabalhando fora do domicílio, acrescentou Martins.

Entre a POF 2008-2009 e a POF 2017-2018, a única região com queda no porcentual de recursos destinados à alimentação fora do domicílio foi a Sudeste: de 37,2% para 34,2%.

As famílias com menor proporção de gasto com alimentação fora de casa foram as da Região Norte (21,4%), enquanto os habitantes do Centro-Oeste registraram a maior fatia (38,0%). No Centro-Oeste, a despesa média mensal familiar com alimentação fora do domicílio foi de R$ 277,68, 133,8% a mais que o gasto no Norte (R$ 118,79), o menor do País.

Mudanças de hábito mexem com cálculo da inflação

As mudanças nos hábitos de consumo das famílias brasileiras captadas pela POF servirão de parâmetro para recalcular o peso dos itens pesquisados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial no País. O IBGE divulgará na próxima sexta-feira, 11, a nota técnica com as futuras mudanças no cálculo do IPCA. A inflação passará a ser calculada sob a nova metodologia apenas em janeiro do ano que vem, com divulgação prevista para o início de fevereiro.

Na comparação entre as faixas de renda, as famílias com rendimentos mais baixos, que recebiam até R$ 1.908,00 mensais, destinavam 20,6% de despesa com alimentação para refeições fora de casa e 79,4% para alimentos a serem consumidos no domicílio. Entre as famílias mais ricas, com rendimentos acima de R$ 23.850,00, a fatia destinada à alimentação fora do domicílio foi de 50,3%, superando a proporção destinada à alimentação em casa, que recebeu 49,7% de todos os recursos destinados à compra de alimentos.

O valor despendido em alimentação pelas famílias mais ricas foi mais de seis vezes maior que o gasto das famílias mais pobres com alimentos.

A despesa dos mais ricos com alimentação no domicílio foi quase quatro vezes maior que o valor despendido pelos mais pobres. Quanto à alimentação fora do domicílio, as famílias rendimentos mais altos gastaram 15,3 vezes mais que o total despendido pelas famílias mais pobres.

Brasileiro enxuga gasto com gastos com carnes e cereais

Na última década, os brasileiros gastaram menos do orçamento com carnes, cereais, farinhas e massa, leites e derivados, e óleos e gorduras. No entanto, ganharam importância na alimentação das famílias os legumes e verduras, frutas, aves e ovos, bebidas e alimentos preparados.

Nas despesas com alimentos para consumo no domicílio, a participação do grupo de cerais, leguminosas e oleaginosas caiu de 8,0% na POF anterior, de 2008-2009, para 5% em 2017-2018. A fatia destinada ao consumo de óleos e gorduras recuou de 2,3% para 1,7%, enquanto os recursos despendidos com carnes, vísceras e pescados - grupo de maior participação nas despesas - desceu de 21,9% para 20,2%.

A participação de Farinhas, féculas e massas encolheu de 4,6% em 2008-2009 para 3,6% em 2017-2019; leites e derivados, de 11,5% para 10,6%; panificados, de 10,4% para 10,3%.

A participação do grupo bebidas e infusões subiu de 9,7% em 2008-2009 para 10,6% em 2017-2018. O grupo de alimentos preparados evoluiu de 2,9% a 3,4%; legumes e verduras, de 3,3% para 3,6%; frutas, de 4,6% para 5,2%; e aves e ovos, de 6,9% para 7,6%.

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