2003: ano bom para sistema financeiro e ruim para trabalhador

Em 2003, a renda média do trabalhador brasileiro atingiu o seu nível mais baixo na década. Relatório sobre o primeiro ano do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ser votado nesta terça-feira pelo Tribunal de Contas da União (TCU), mostra que a renda dos trabalhadores, que girava em torno de R$ 1.300 em 1994, passou para R$ 1.210 em 2002 e atingiu a R$ 910 no ano passado. Inversamente, as tarifas dos serviços públicos essenciais subiram em média mais de 300% e a carga fiscal passou de 28,6% para 36,7% no período, tornando-se uma das três maiores do mundo.Preparado pelo ministro Guilherme Palmeira, o relatório, ao qual a Agência Estado teve acesso, constata que o primeiro ano do governo Lula foi trágico para os trabalhadores e bom para o sistema financeiro. Esse quadro, baseado na equação perversa de salário corroído com aumento de inflação e carga tributária, conforme o relatório, resultou na redução da qualidade de vida dos brasileiros. Constata também que o governo aprofundou o desemprego e falhou na política social, além de não ter cumprido as metas nas áreas de saúde, educação e reforma agrária.RessalvasPor todos esses problemas, o relatório, de 511 páginas e alguns anexos, vai propor a aprovação das contas do governo com ressalvas e recomendações para correções de rumo. O relator também enxergou pontos positivos no primeiro ano do governo petista. O mais importante deles é que o País, com tanto aperto, cumpriu a Lei Fiscal e pagou em dia os compromissos financeiros internos e externos. De quebra, saiu-se bem no comércio exterior. O saldo da balança comercial saltou de US$ 13 1 bilhões em 2002, último ano do governo Fernando Henrique, para R$ 24,8 bilhões em 2003.O relator creditará o êxito nas transações correntes do País neste ano ao bom saldo da balança e à redução de despesas com viagens internacionais. Em contrapartida, a arrecadação per capita de tributos no País subiu de R$ 860,91 em 1994, quando começou o primeiro mandato de Fernando Henrique, para R$ 3.042,97 em 2003, um crescimento de 349% em dez anos.O relatório também destacará o trágico desempenho da economia, que caiu 0,2% no primeiro ano do governo Lula. Um dos setores que mais sofreram foi o da construção civil, com uma retração de 8,6%. O setor já havia caído 1,8% em 2002 e 2,6% em 2001. O desempenho só não foi ainda pior porque a agricultura cresceu 5% no ano. Por causa disso, o Brasil, que foi a 8.ª economia do mundo até 1998 e a 12.ª em 2002, caiu 3 posições em 2003 e ficou em 15.º lugar, sendo ultrapassado por Holanda, Índia e Austrália.De modo geral, o relatório mostrará que o governo Lula foi um prolongamento do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, com o demérito de ter aprofundado as desigualdades sociais. A reforma agrária, conforme o relatório, praticamente não avançou. Foram assentadas apenas 30 mil pessoas contra uma meta de 80 mil no ano. O crédito fundiário só chegou a 9 mil famílias, quando deveria ter atendo a um milhão de trabalhadores rurais.O relatório dirá que o Brasil está produzindo um tipo de capitalismo singular, que pune o trabalho e privilegia o capital. Alegará ainda que esse processo foi agravado pelo governo Lula. As tarifas de serviços públicos subiram de forma astronômica nesta década, desde a energia (221%) até a telefonia (606%), passando pelo gás de cozinha (462%), ônibus (306%) e água (223%).

Agencia Estado,

15 de junho de 2004 | 05h50

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