2008, o ano que não acabou...

2008 acabou. Será? Afinal, ele se estende por 2009 com todos os problemas geopolíticos, financeiros, econômicos e sociais que predominaram nos últimos quatro meses. Fim de ano é também época de balanços e resenhas, mas, neste ano, por que? O passado é tão curto, está tão presente! O vivemos neste momento tão intensamente, que não precisamos relembrá-lo. Nem o leitor nem eu o esquecemos. Não passou ainda para a memória do tempo, está aqui,nos perseguindo, ao nosso lado. Vamos apenas lembrar - não recordar - que neste ano que acompanhei dia-a-dia, semana após semana, com você, leitor amigo, vimos o mundo sofrer, entrar em recessão, mas o Brasil resistir a ela. Sim, foi um ano ruim para o mundo, mas ainda bom para o Brasil. Ao nosso lado, somente a China conseguiu resistir à avalanche recessiva porque tinham fundamentado o crescimento no mercado interno, feito reservas cambiais suficientes para navegar na tempestade do crédito escasso, conseguiram suportar uma queda nas exportações e, principalmente, souberam adotar em tempo políticas anticíclicas. Foram sábios? Não. Apenas mais ágeis. Correram à frente da crise que explodiu a partir de agosto, enquanto os outros realizavam reuniões inúteis nas quais tudo se aprovava, tudo se prometia e nada foi feito. POR QUE NÓS? Por que o Brasil e não eles os ricos do mundo? Talvez, porque,em parte, estávamos menos dependentes do mercado financeiro internacional, mas porque tivemos um governo que, apesar das pressões políticas, deu ao Banco Central, ao ministro da Fazenda, à equipe econômica condições de trabalhar, e soube ficar alerta e ser prudente. Mas isso não veio de agora. Começou com o politicamente injustiçado ex-ministro Antonio Palocci, quando o presidente permitiu que executasse uma política monetária, fiscal e financeira fortemente impopular. Ela era criticada pelos políticos do governo e da oposição que queriam entrar na festa que corria lá fora. BEM PORQUE ESTÁVAMOS MAL Sem querer, a economia brasileira estava preparada para o que ainda nem sequer imaginava pudesse vir. E quando veio, surgiu com a fúria dos furacões intempestivos que derrubaram bancos antes considerados infalíveis, destruíram riquezas de muitos trilhões de dólares e enfraqueceram o comércio mundial. Ou seja, se estamos ainda bem enquanto o mundo vai mal, é porque estávamos mal antes quando o mundo ia bem. Como estavam bem, como vinham crescendo 5% ao ano, como a alegria dos truques financeiros escondia a triste realidade do submundo creditício, não fizeram nada. E quando fizeram, ficaram apenas em meio caminho. Estavam feliz demais para se preocuparem. Até agora,socorreram o sistema financeiro e esqueceram que sem aumento da demanda interna, nada era possível. Eles salvaram o sistema, mas não suas economias que entraram em recessão. NÓS TEMÍAMOS O PASSADO Nós, repito, estamos agora bem porque antes estávamos mal. Não fomos contagiados pela euforia dos que rejeitavam os primeiros sinais de alerta surgidos em agosto de 2007 - sim, 2007 - quando explodiu a bolha imobiliária talvez porque as economias americana e europeia resistiram ainda por mais um ano. Nós poderíamos também estar alegres, pois a economia crescia a quase 6%.Mas tínhamos medo de passados sombrios. Queríamos o reconhecimento internacional, queríamos o grau de investimento que acabou vindo. Foi o medo que nos assustou - sim, era um medo que assustava - e nos levou a uma política monetária e fiscal mais prudente e responsável. Estranho, mas foi o medo do passado que até agora nos salvou. ENTÃO TUDO ESTÁ BEM? Não, esta coluna tem insistido em afirmar. Primeiro, alertamos contra o otimismo excessivo, para a urgência de agir aproveitando o tempo de benesse externa. Reconheço que nos iludimos, sim, ao prever que a economia mundial não entraria em recessão. Voltamos atrás, pedimos desculpa ao leitor. Poucos previam que os Estados Unidos não iriam superar a ameaça de recessão mesmo porque continuava crescendo em meio à crise financeira que só nos últimos meses afetou em cheio a economia real. Agora, nos recusamos em aceitar que tudo passou, que estamos suficientemente fortes para sairmos imunes. Há que se manter a prudência; há que ser ainda mais incisivo no estímulo à demanda interna que dá os primeiros sinais de arrefecer; há que continuar injetando recursos no sistema para incentivar o crédito; há que financiar mais a agricultura da qual dependem nossas exportações e o controle da inflação. Mas, acima de tudo, há que enterrar sem preces, o PAC atual que fracassou, e iniciar um novo, criando melhores condições para o acesso do setor privado; há que continuar atraindo investimentos externos que, graças à estabilidade econômica e financeira no País, continua entrando, superando recordes e chegando a US$ 40 bilhões. Ele só irá se manter se a confiança no Brasil perdurar. Muito de tudo isso já vem sendo feito. Mas esse tudo ainda será pouco se a tempestade e o furacão que rugem lá fora provocarem o caos. A situação é grave porque eles, os países ricos, os desenvolvidos que esnobavam e pesam na economia mundial, estão perplexos, apáticos, paralisados. Sabem muito o que fazer, mas estão fazendo mais do que socorrer o mercado financeiro, importante, sim, mas não é tudo. FIM DE ANO ALERTA Por isso, achamos que devemos terminar este ano feliz em estado de alerta. Uma alerta sereno, um alerta, sim para que a economia não cresça menos do que podemos suportar. De qualquer forma terminamos bem o ano... Vamos esperar que isso se repita em 2009. Temos tudo, por enquanto, para isso. É só seguir com mais empenho e lucidez o que vem sendo feito e não desviar em caminhos que iludem mas não levam a nada. *Email: at@attglobal.net

Alberto Tamer*, O Estadao de S.Paulo

31 Dezembro 2008 | 00h00

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