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2011: transição para onde?

O cenário econômico para 2011 está ficando mais difícil. Nos Estados Unidos, a recuperação da atividade perdeu algum fôlego; na Europa, a crise grega coloca cada vez mais dificuldades, acrescida pela queda do diretor do FMI (que nos relembra a permanente ameaça do inesperado na vida); a China ainda tenta reduzir a inflação; e o Japão paga o preço, talvez maior que o imaginado, pelo acidente nuclear. Suas empresas ainda lutam para normalizar a produção, como mostrou a necessidade da Honda brasileira de reduzir sua produção, por falta de peças importadas, num momento chave de elevação da concorrência no mercado local.

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2011 | 00h00

Neste ponto, acho útil abrir um parêntese, para dizer que a paralisação de empresas que dependem do suprimento japonês de componentes especializados em muitos lugares do mundo está levando a uma revisão dos sistemas de produção em cadeias muito longas, com estoques muito reduzidos. Muitas companhias estão elevando estoques de componentes para algo como três meses, tentando reduzir riscos de paralisia súbita, mesmo que implique em elevação de custos.

Mostra também a necessidade que têm as companhias brasileiras que dependem cada vez mais de importações de insumos para a necessidade de se montar planos de contingência, difíceis por certo, para enfrentar situações como esta.

A questão que se coloca é se devemos alterar nosso cenário de crescimento relevante para a economia mundial ou não.

Minha percepção é que devemos ajustar um pouco a intensidade, mas não a trajetória do crescimento mundial. Vejamos por quê. Em primeiro lugar continuo achando que o crescimento chinês será mantido em algo como 7,5 a 8% neste ano, mesmo com a ameaça inflacionária; o controle que as autoridades chinesas têm sobre o crédito, os bancos e o câmbio, associado à elevada taxa de poupança do país e ao aperto lento da política monetária, sugere essa trajetória.

No caso do Japão, nosso cenário já não contava com nenhuma contribuição do país para o crescimento mundial. Além disso, não podemos esquecer que o gasto de reconstrução vai compensar em alguma medida os efeitos recessivos do acidente nuclear e o consequente aperto na oferta de energia no início do verão. O crescimento deverá ser, portanto, próximo de zero.

No caso da Europa, existem duas forças antagônicas em operação: a piora na crise da dívida grega e na situação de Portugal e Irlanda e o crescimento no norte da região. Os números recentes do PIB não deixam dúvidas: Alemanha e áreas próximas (incluindo Holanda, Áustria, Suíça e Escandinávia) estão crescendo acima de 4%; França, Bélgica e boa parte da Europa Oriental pouco acima de 2% ; Itália e Espanha tendem a zero e Grécia, Portugal e Irlanda estão no território negativo. A parte da comunidade que cresce bem representa mais de 80% do PIB da região e é maior que o PIB da China. No que depender da Europa, o cenário de crescimento do PIB mundial em torno de 4% está mantido.

Entretanto, a crise grega encaminha-se para o esperado: o modelo de ajuste patrocinado pelo FMI e União Europeia não vai funcionar, uma vez que a taxa de juros média da dívida é maior que o crescimento (na realidade, o que existe é uma recessão, que derruba a arrecadação); ao mesmo tempo, o superávit primário que viabilizaria o ajuste (dados os juros) é tão grande que não está no rol das possibilidades, políticas e econômicas. É por isso que a reestruturação da dívida acabará por ocorrer em algum momento.

Porém, nós, que já vimos esse filme nos anos 80, sabemos que as condições políticas para esse movimento só aparecem quando os mercados começam de alguma forma a desagiar a dívida. Tem toda razão o professor Eichengreen quando diz, aqui no Estado, que quanto mais rápido um plano tipo Brady for colocado em prática, menores serão os custos. O bom crescimento do norte da Europa facilita a possibilidade de algum plano, tanto quanto o fato de a região ter virado uma reserva de mercado germânica. É por isso que a elite alemã quer de fato manter a união monetária intacta. Entretanto, embora não esteja fácil convencer os eleitores, acredito que acabaremos caminhando na direção de um acordo.

A mudança mais significativa no período recente foi a perda de velocidade na recuperação americana. Até recentemente trabalhávamos com um crescimento para 2011 entre 3,5% e 4% (muito parecido com a projeção do FED, de 3,4% a 3,8%). A recuperação do consumo, o renascimento da indústria, a fase de ouro da agropecuária e o avanço da tecnologia em diversas frentes, como a eletrônica de consumo, puxariam a economia, compensando a fragilidade do mercado imobiliário e a redução do contingente dos funcionários de Estados e municípios, resultantes do ajuste fiscal em curso naqueles entes federativos.

Entretanto, a elevação recente dos preços do petróleo e da gasolina no varejo (chegando a quase US$ 4,00 por galão) começou a roubar o poder de compra dos consumidores e a destruir a demanda. Tanto isso é verdade que, recentemente, a Agência Internacional de Energia reduziu em quase 200 mil barris/dia sua projeção para o consumo norte-americano deste ano. Os gastos de consumo, descontada a inflação, cresceram apenas 0.1% tanto em março como em abril. Com essas informações, as estimativas de crescimento foram revisadas para baixo e o mesmo FED projeta agora algo entre 3,1% e 3,3%. As consequências disso não são triviais: muitos analistas voltaram a ser mais pessimistas quanto ao futuro e a perspectiva de uma eventual alteração na política monetária ficou postergada para 2012 ou até, segundo alguns, 2013.

Esses acontecimentos reacenderam um certo pessimismo em muitos observadores. Embora ninguém trabalhe com a possibilidade de uma volta à recessão, há o temor de uma derrapada na recuperação mundial, e de um período mais longo de baixo crescimento. Não é, entretanto nossa impressão, pelos argumentos expostos até aqui. Embora tenhamos reduzido nossa projeção para o crescimento americano deste ano, continuamos vendo uma recuperação relativamente sólida no crescimento mundial. E, se isso for verdade, os preços de commodities se manterão elevados, recuperando-se das quedas recentes, o que aliás, já vem ocorrendo em muitos casos. A fraqueza do dólar apenas reforçará essa evolução.

Desde que a situação no Oriente Médio não apresente uma surpresa, e o fluxo de produção de óleo se mantenha, continuamos vendo preços na faixa de US$ 100 a US$ 110 por barril nos próximos meses.

Os produtos agrícolas estão muito firmes, e assim continuarão, pelo relativo equilíbrio de oferta e demanda, com estoques justos. Eventuais problemas climáticos, que se têm tornado recorrentes, só reforçarão as cotações. O trigo, por exemplo, está afetado por seca em regiões da Europa e dos Estados Unidos.

Finalmente, os metais também deverão seguir firmes, desde que nossa hipótese sobre a China esteja correta.

ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS

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