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2013, o ano das guerras cambiais?

O crescimento no Hemisfério Sul, mais do que as políticas do Norte em crise, vai determinar se será uma guerra quente ou fria

PROFESSOR DE ECONOMIA, CIÊNCIA POLÍTICA NA UNIVERSIDADE DA , CALIFÓRNIA EM BERKELEY , BARRY, EICHENGREEN, PROFESSOR DE ECONOMIA, CIÊNCIA POLÍTICA NA UNIVERSIDADE DA , CALIFÓRNIA EM BERKELEY , BARRY, EICHENGREEN, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h04

2013 será o ano das guerras cambiais? É o que pensa Mervyn King, que logo será o ex-presidente do Banco da Inglaterra (banco central). Em meados de dezembro, num discurso que proferiu no Economic Club of New York City, ele alertou que um número cada vez maior de países provavelmente recorrerá à manipulação do câmbio como alternativa à política monetária convencional. King apelou ao Grupo dos 20, o comitê executivo da economia global, para retomar os esforços com vistas a refrear a prática. Existem inúmeras razões para prestarmos atenção ao alerta de King.

Em primeiro lugar, a política monetária convencional nos países ricos atingiu o ponto a partir do qual os ganhos se reduzem. Nos EUA, Reino Unido e Japão, os juros estão quase em zero. Embora o Banco Central Europeu (BCE) não tenha reduzido os juros a esse nível, dados da zona do euro sugerem que não tarda muito para que também reduza as taxas a zero. Quando o fizer, não haverá mais espaço para redução dos juros.

Os bancos centrais dos países avançados também implementaram programas de compras de ativos, e mais do mesmo com certeza está sendo preparado. Mas levando-se em consideração tudo o que já foi comprado até agora, mesmo grandes aquisições de ativos não deverão reduzir os juros dos títulos do Tesouro de 10 anos e das hipotecas convencionais em mais do que alguns pontos básicos (centésimos de ponto porcentual) adicionais.

Ao mesmo tempo, vem aumentando a pressão sobre os bancos centrais para fazerem mais. Mesmo que os Estados Unidos acabem resolvendo a disputa sobre o abismo fiscal, a política fiscal vai ajudar menos o crescimento em 2013. Na Europa, de outro lado, os governos não mostram sinais de reformular suas políticas de consolidação fiscal mesmo com as condições econômicas continuando a se deteriorar.

Para as economias nessa situação, uma taxa de câmbio mais desvalorizada é exatamente o que o médico recomendou. Impulsiona as exportações quando a demanda doméstica é fraca.

Além disso, reduzir a taxa de câmbio é uma maneira de o banco central indicar que leva a sério o cumprimento da sua meta de inflação. No momento, o problema nos países avançados é que a inflação está baixa demais; a inflação tem ficado abaixo das metas. Como os juros estão quase em zero, elevar a taxa de inflação é a única maneira de reduzir significativamente a taxa de juro real - ou seja, de cortar os custos de fato do crédito e do investimento.

Mas, quando a demanda é fraca, não é fácil para os bancos centrais convencerem mercados céticos de que farão o que for preciso para elevar a inflação. Na verdade, os EUA se defrontaram exatamente com esse mesmo problema em 1933. A solução encontrada na época pelo então governo Roosevelt foi abandonar o padrão ouro e desvalorizar o dólar. Isso imediatamente levou a um aumento do preço em dólar das commodities importadas. E sinalizou de forma nem um pouco equívoca que a política monetária seria bem diferente do que no passado.

Assim, é bastante concebível que em 2013, de forma semelhante, vejamos os bancos centrais de países avançados usarem a desvalorização cambial para sinalizar compromisso com inflação mais alta.

Uma segunda razão citada por Mervyn King para nos preocuparmos com manipulações da taxa de câmbio é a persistência do desequilíbrio comercial entre China e vários países avançados. Embora o superávit comercial total da China tenha encolhido nos últimos anos, seu superávit em relação aos EUA cresceu para uma cifra recorde de US$ 29,5 bilhões em outubro. Entre julho e setembro, as autoridades chinesas intervieram para conter uma nova valorização do yuan ante o dólar. Esses chineses, sugere Mr. King, abriram uma segunda frente na guerra cambial.

Neste ponto King está num terreno mais instável. Nos meses finais de 2012, as autoridades chinesas, na realidade, mostraram nova disposição para deixar o yuan se valorizar em relação ao dólar. Enquanto a economia chinesa atravessou um período difícil, eles colocaram um teto na taxa de câmbio. Mas agora que esse período passou e o crescimento da economia acelerou, novamente houve uma valorização do yuan. A inflação na China já está aumentando em relação à baixa em outubro. A produção industrial subiu para 10% em novembro, refletindo o sucesso do governo na política de acelerar o investimento em infraestrutura. Em reação a esses fatos, o yuan se fortaleceu.

Então podemos estar entrando no melhor dos mundos possível, em que o dólar, o euro e o iene terão uma desvalorização frente o yuan? Neste caso, os Estados Unidos, a zona do euro e o Japão conseguirão o adicional de exportações e de inflação que necessitam, ao passo que a China, com um crescimento econômico potencial de 8%, poderá se permitir ficar do outro lado da equação. Mais valorização do yuan significa, é claro, que a China terá de buscar um reequilíbrio, fora das exportações. Mas depender menos das exportações e mais da demanda doméstica é exatamente o que as autoridades chinesas desejam para sua economia.

China à parte, e quanto a outros mercados emergentes, como o Brasil? Muita coisa vai depender de se o seu crescimento, como o da China, vai acelerar em 2013. Se o Brasil crescer de fato 4%, como promete o governo de Dilma Rousseff, então o País conseguirá suportar um real mais forte, apesar do problema que isso representa para suas exportações. O mesmo vale para Bolívia, Chile, Colômbia e Peru, todos prevendo crescer mais de 4% em 2013.

Mas se o crescimento ficar abaixo de 4%, então os efeitos de taxas cambiais mais vigorosas serão mais difíceis de absorver e as queixas sobre as políticas adotadas nos países avançados aumentarão.

Portanto, será o crescimento no Sul do globo, e não as decisões de política monetária no Norte, que vai determinar se 2013 verá uma guerra cambial quente ou fria. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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