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'2015 será um grande ano para os Estados Unidos', diz economista

Para professor, somente uma explosão da crise na Europa poderia prejudicar a plena recuperação da economia americana

Entrevista com

David Beckworth

Cláudia Trevisan, correspondente em Washington, O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2015 | 02h03

A economia americana virou a página da agonizante recuperação iniciada em junho de 2009 e caminha para ter um grande ano em 2015. E o principal sinal de que o pior ficou para trás será a esperada decisão do Federal Reserve de elevar a taxa de juros, mantida próxima de zero há seis anos. A avaliação otimista é de David Beckworth, professor de Economia da Western Kentucky University que desde meados do ano passado sustenta que os EUA estão voltando aos trilhos.

Em junho, ele publicou um artigo sob o título "Por que Larry Summers está errado em relação à estagnação secular". Nele, questionava a teoria do ex-secretário do Tesouro e professor de Harvard de que os EUA corriam o risco de não voltar a um cenário de pleno emprego e forte crescimento em razão de mudanças estruturais na economia.

Na avaliação de Summers, havia a possibilidade de a nova taxa de juros de equilíbrio estar estacionada próxima de zero ou negativa, o que restringiria o seu uso como instrumento de estímulo à atividade econômica. O resultado seria o baixo crescimento, que só poderia ser combatido com medidas não convencionais, entre as quais o aumento do investimento público. A seguir, trechos da entrevista.

A recuperação americana chegou a um terreno mais firme?

Sim, a economia está finalmente crescendo a um ritmo que a levará à total recuperação. Ainda não chegamos lá, porque há capacidade ociosa e frouxidão, mas em termos de crescimento nós viramos a página em 2014. A segunda metade do ano registrou mais de 240 mil novos empregos por mês, o crescimento do PIB foi de 5% no 3.º trimestre e os fundamentos parecem saudáveis. Estamos no caminho correto.

O crescimento de 2,6% no 4º trimestre, abaixo do esperado, pode afetar esse cenário?

Não. Primeiro porque é o resultado preliminar e eu acredito que será revisado para cima. Em segundo lugar, houve uma clara mudança na criação de empregos. No 4.º trimestre, a média foi de 289 mil empregos por mês, o índice mais alto desde antes da crise. A confiança dos consumidores está no patamar mais elevado desde 2004. Portanto, eu não estou preocupado com esse ruído no resultado do PIB. A única coisa que pode dar errado é a zona do euro explodir, o que teria impacto nos EUA. Mas acredito que o cenário mais provável é as coisas melhorarem com o programa de relaxamento quantitativo do Banco Central Europeu. Se eles cumprirem isso e os alemães não interromperem (esse processo), eu acredito que a ameaça da zona do euro não será tão severa.

Quão longe os EUA estão da total recuperação?

Estaremos perto se o desemprego cair abaixo de 5% e tivermos mais um ano com o tipo de crescimento que tivemos nos últimos três trimestres.

Além da Europa, quais são os outros riscos?

Há preocupação com a desaceleração da economia chinesa, mas acredito que será um processo gradual. Há mais incertezas na zona do euro. Algumas pessoas temem que o Federal Reserve eleve os juros antes do tempo. Eu não me preocupo. Eles disseram que serão "pacientes". Minha avaliação é que o Fed será cauteloso e não pisará no freio antes do tempo. Na ausência de uma explosão na Europa, 2015 será um grande ano para a economia dos EUA.

Será o ano em que o país finalmente terá se recuperado?

Se continuarmos como nos últimos meses de 2014, em um ano teremos pleno emprego e plena recuperação.

A valorização do dólar pode afetar o crescimento?

Pode afetar as empresas que exportam, mas ao mesmo tempo é um reflexo de que a economia dos EUA está se recuperando e tem ativos seguros. É o lugar para onde você quer ir agora. A zona do euro está beirando outra crise, a China tem problemas. Os investidores nesses países querem investir nos EUA, o que provoca a valorização do dólar. Os EUA são um porto seguro para os investidores e isso é um bom sinal. Não creio que isso irá desacelerar a recuperação.

Por que a discussão sobre estagnação secular ganhou impulso em 2013 e 2014?

A recessão acabou em junho de 2009, mas até junho de 2014 a recuperação era irregular. São muitos anos com uma recuperação anêmica e é natural começar a questionar o que está acontecendo. Por que está demorando tanto? Talvez não seja só uma recuperação lenta, talvez nós tenhamos atingido um problema fundamental, o que abre a porta para estagnação secular. Se você tem cinco anos de uma recuperação frágil, as pessoas começam a olhar para todo o tipo de respostas e soluções.

E por que o sr. acredita que Larry Summers estava errado?

Ele trouxe de volta a ideia da estagnação secular levantada pela primeira vez no anos 30 por outro economista de Harvard, Alvin Hansen. Em 1938, ele disse a mesma coisa que Summers disse, mas sob o impacto da Grande Depressão. No fim, a economia se recuperou na Segunda Guerra Mundial. Hansen escreveu pouco antes da recuperação e Summers cometeu o mesmo erro ao dizer que estávamos numa estagnação secular. Um dos livros que me influenciaram quando escrevi o texto foi The Second Machine Age, de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, no qual analisam como nossa economia está se tornando mais digital e automatizada. Outra coisa que apontei no artigo é que as pessoas que promovem a ideia de estagnação secular olham para o movimento da taxa de juros real, ajustada pela inflação. Quando fazem isso, parece que a taxa de juros real está caindo há muitos anos, o que evidenciaria o risco de estagnação secular. O que mostrei é que temos de deduzir o prêmio de risco embutido nos juros e eles estavam de muito altos no fim dos anos 70 e início dos 80, quando Paul Volker assumiu o Fed e havia uma inflação muito alta. Se excluirmos o prêmio de risco, a curva não é descendente, há uma taxa de juros natural próxima de 2%, que oscila dependendo da economia. Não há tendência de queda.

O sr. também sustenta que a produtividade não está caindo?

Exatamente. Mas é difícil avaliar essas coisas enquanto estão ocorrendo. Hoje podemos usar celulares para acessar o GPS, ler as notícias, tirar fotos, ouvir rádio. Antes, tínhamos essas coisas separadas. São inovações incríveis. Os historiadores vão olhar para trás e dizer "uau, esse período experimentou mudanças radicais".

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