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2020: É a política, estúpido

Governantes inábeis precisam de um desempenho melhor da economia para acumular capital político

Luís Eduardo Assis, O Estado de S. Paulo

23 de dezembro de 2019 | 05h00

Tudo sugere que a economia em 2020 andará mais rápido que o ritmo modorrento que tivemos neste 2019 que estrebucha. Os economistas estão otimistas. A pesquisa Focus, divulgada pelo Banco Central, registra uma expectativa de crescimento de 2,25%. Não chega a ser um assombro, mas, se confirmado, será o maior avanço desde 2013. Os pessimistas, sempre eles, lembrarão que no fim de 2017 essa mesma pesquisa previa que o crescimento de 2018 seria de 2,7%. Veio 1,3%, menos da metade. De novo, no fim de 2018, os mesmos analistas previam um aumento do PIB de 2,5% para 2019. Teremos algo como 1,1%, menos da metade novamente. O otimismo dos economistas – esta coisa rara – será confirmado pelos fatos desta vez?

É bem provável que sim. Afora a liberação do FGTS e outros quejandos pontuais, a queda histórica dos juros tem tudo para liberar recursos que irrigarão a economia. Basta ver o ritmo das concessões de crédito, que cresciam em outubro último a uma taxa de 14% ao ano no segmento de pessoas físicas. Um aumento do PIB de até 2,5% parece plausível. No entanto, mesmo que o PIB cresça 2,5% em 2020, fecharemos o ano com um produto menor que o registrado em 2013. O PIB per capita encerraria o próximo ano com um valor 5,3% menor que o de 2013 e apenas 0,5% maior que o de 2010. É bom lembrar que entre 2000 e 2010 o PIB per capita cresceu 27,4%. Mais de 50 vezes a taxa de crescimento desta década – isso se os economistas otimistas estiverem certos e de fato crescermos mais de 2%. Já fomos melhores em matéria de otimismo.

A depender do avanço das reformas, esses sinais de vida podem ganhar tração. Mas isso depende não só do diminuto apetite do governo de fazer política, como do apoio que a atual administração poderá ter da população. Sem apoio, o governo terá ainda mais dificuldade em fazer valer sua agenda de mudanças na economia. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) de setembro indica que 31% dos pesquisados avaliam o governo Jair Bolsonaro como “ótimo” ou “bom”. Não é pouco, mas é menos que os 33% que o presidente Sarney tinha em março de 1987, quando os Planos Cruzado 1 e 2 já tinham fracassado e a inflação em 12 meses acumulava 97%. Também é bem menos que os 56% de aprovação que a presidente Dilma recebeu no final de seu primeiro ano no governo. Por outro lado, os mesmos 31% que Bolsonaro registrou em setembro, com taxa de desocupação de 11,8%, tinha Dilma em junho de 2014, quando a taxa era de apenas 6,8 %. Analogamente, os 31% de Bolsonaro de setembro de 2019 foram obtidos quando o índice de nível atividade do BC crescia a um ritmo de 2,1% ao ano. Mas em 2009, quando a atividade chegou a cair 5,5%, a aprovação de Lula variou entre 64% e 72%. Tudo isso para dizer que relação entre aprovação do governo e indicadores econômicos está longe de ser mecânica. Parafraseando J. Carville, assessor de Bill Clinton, não é só a economia, estúpido. A melhoria dos indicadores econômicos não significa necessariamente aumento no apoio ao governo.

As mediações entre estes dois mundos são complexas e instáveis. Políticos mais carismáticos podem tirar proveito de uma situação econômica menos favorável, ao passo que governantes inábeis precisam de um melhor desempenho da economia para acumular capital político. Como até as pedras da Sé sabem, estamos aqui diante do segundo caso. Ao invés de amealhar apoio num espectro mais amplo, Bolsonaro teve a desvairada ideia de cristalizar suas posições sectárias. Isso torna 2020 um ano em que viveremos em perigo. A economia caminha para a frente, lentamente. Mas o que definirá o ano novo será o tempo da política. Ela poderá influenciar a economia muito mais que o contrário.

ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E FGV-SP. E-MAIL : LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM

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